Zéca di Nha Reinalda  – O “Rei do Funaná”
23 Mai 2014

Zéca di Nha Reinalda – O “Rei do Funaná”

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A história de vida de Emanuel Dias Fernandes, ou Zéca di Nha Reinalda, mistura-se com a história do funaná de Santiago. Quer o ouçamos cantar nos bailes de conjunto ou nas dezenas de discos que gravou, o “Rei do Funaná” continuará a servir de inspiração a toda uma geração que, através do funaná, encontrou uma forma de se emancipar e exprimir. Aos 56 anos de idade, Zéca di Nha Reinalda continua ímpar e um dos melhores exemplos da perseverança artística nacional. É, atualmente, um dos mais consagrados e populares artistas cabo-verdianos.

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Zéca di Nha Reinalda nasceu no Bairro Craveiro Lopes, no coração da cidade da Praia. Desde criança que a música o fascinava. Frequentemente escutava o pai a tocar e cantar músicas tradicionais de Cabo Verde. Aos oito anos de idade as sonoridades vindas do outro lado do atlântico começaram a atraí-lo, o que fazia com que passasse horas a ouvir música soul norte americana. Tinha em James Brown uma referência. Com ele aprendeu a cantar, a expressar os seus sentimentos profundos, e a dar voz às mensagens que lhe vinham da alma.

A génese do funaná e os grupos musicais

Logo após o 25 de abril de 1974, começaram a aparecer muitos grupos musicais em Cabo Verde, alguns dos quais provenientes da Guiné-Bissau. Zezé, o irmão mais velho de Zéca, fazia na altura trocas comerciais entre a Praia e Bissau de onde trazia sempre músicas novas. Zéca di Nha Reinalda não perdia a oportunidade de as ouvir e as cantar. Estes sons ritmados iriam estar na génese da criação do grupo musical dos dois irmãos, o Opus 7. O fim do colonialismo e a conquista da Independência Nacional fizeram reviver a música tradicional cabo-verdiana dos anos 40 e 50 (batuque, tabanca e kolá). Os Opus 7 foram dos primeiros a resgatar estes ritmos outrora oprimidos por um regime colonial que não via com bom bons olhos estas expressões culturais tradicionais. Através de melodias e arranjos musicais exemplarmente orquestrados sobre uma base rítmica marcante, os Opus 7 ressuscitaram as raízes mais profundas da música de Cabo Verde, contudo, esta inovação não despertaria grande interesse na época, e os Opus 7 não conseguiram o sucesso tão ansiosamente desejado. Tentariam a sua sorte em Dakar, Senegal, mas os problemas financeiros e a falta de instrumentos musicais de qualidade quase ditaram o fim do grupo.

Inovar o funaná – o Bulimundo

Em 1977, Carlos Alberto Martins, o Katchass, recém-regressado de França onde estivera emigrado durante uns anos, decide criar um grupo musical para dar vida ao Funaná. Com equipamento novo e uma estratégia definida, Katchass cria, em abril de 1978 em Pedra Badejo, o grupo Bulimundo e para o qual recruta alguns dos membros dos Opus 7. Zéca di Nha Reinalda foi um dos membros que Katchass convenceu e, juntamente com Duca nos teclados, Nonó no sax, Katchass na guitarra, José Augusto na bateria, Amanhã na tumba, Silva no baixo, Zequinha Magra na guitarra e Zequinha, dá a voz a este grupo que se iria revelar um dos maiores sucessos da música de Cabo Verde.

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Zeca di Nha Reinalda

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Entre todos os géneros musicais, o Funaná era o mais oprimido pelo antigo regime colonial e, por isso mesmo, o mais vivo deles todos. O Bulimundo conseguiu fazer extravasar essa contida repressão e o sucesso foi quase que imediato. Começou por conquistar as massas camponesas do interior de Santiago e gradualmente foi adquirindo adeptos nas cidades. O apogeu do Bulimundo foi alcançado em 1981-82 com todos os cabo-verdianos rendidos a este género musical. No entanto, e apesar do sucesso, nem todos estavam de acordo com o plano traçado para a projeção do Funaná. Zéca di Nha Reinalda era um deles e, em 1982, abandona o Bulimundo e, juntamente com o irmão Zezé, forma em 1984 o grupo Finaçon.

Finaçon e o sucesso internacional do funaná

Os Finaçon não tiveram um início fácil. Uma vez mais, a falta de contratos e a falta de instrumentos musicais agravavam as dificuldades económicas. Estes obstáculos não impediram Zezé e Zeca de perseguirem o seu sonho. Depois de bater a muitas portas, Zezé e Zéca di Nha Reinalda conseguem gravar, em 1985 o seu Lp “N’ka por si”. Este disco foi um enorme sucesso e definiu a tendência dissidente do Bulimundo e o sucesso futuro dos Finaçon. Outros se seguiram, nomeadamente “Horizonte” (1985), “Rabecindadi” (1987) e “Dotorado” (1988).

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Em 1990 entra para o grupo o guitarrista Dick e regista-se um súbito interesse por parte de uma editora parisiense pela música dos Finaçon. Fruto deste relacionamento, gravam em maio de 1990 o original “Si Manera” que os catapultou para o sucesso e para a ribalta. Em França, pela mão dos Finaçon, os meses de setembro e outubro de 1990 foram como que um tributo a Cabo Verde. Pela primeira vez na história, um grupo musical cabo-verdiano teve lugar de destaque em jornais como o Lê Monde e as estações de rádio e de televisão emitiram o Si Manera quase até à exaustão. Toda a imprensa francesa faz referência a este grupo cabo-verdiano e o tema “Si Manera” ocupou durante semanas consecutivas o quarto lugar do “Top 18” francês. A digressão dos Finaçon por terras gaulesas foi um enorme sucesso e constituiu um dos primeiros passos para a internacionalização da música de Cabo Verde. A consagração do sucesso dos Finaçon foi a atuação no Zenith, com Gilberto Gil. O “Si Manera” fez posteriormente parte do disco Funaná lançado em finais de 1990. A discografia dos Finaçon ficaria completa com os álbuns Farol (1992), Simplicidade (1994) e Kel Ki Ta Da, Ta Da (1995).

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A sua carreira a solo teve início em 1995, logo após o lançamento do último disco dos Finaçon. Gravou, em 1996, “Rapsódia de Funaná” ao que se seguiram “Na Urna”, “Vinti ano depos” , “Camponês” de 2001 ,e em 2003 o álbum “Dia a Dia”. Após 20 anos de funaná, Zéca di Nha Reinalda grava, em 2007, o disco “Na Caminho” no qual faz uma incursão por outros estilos e géneros musicais cabo-verdianos, como o batuque e a coladeira, e que apenas viriam a comprovar a sua versatilidade como intérprete.

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Zeca di Nha Reinalda

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O panorama musical atual

A pressão imposta por um mercado competitivo como é o mercado musical é, na sua opinião, uma das condicionantes para que os jovens músicos procurem outras sonoridades e se afastem das suas raízes e tradições. Zéca di Nha Reinalda considera a música de fusão um mal necessário, fruto precisamente dessa pressão e cujo único objetivo é criar produtos globalmente comercializáveis esquecendo muitas vezes as raízes e o que lhes está na origem. Para preservar estas raízes, sugere uma maior intervenção dos responsáveis culturais do país na criação de mecanismos que protejam também outros géneros musicais tradicionais que não apenas a morna. O combate à pirataria e uma maior intervenção na proteção dos músicos cabo-verdianos são outras das preocupações de Zéca di Nha Reinalda.

Iniciativas como a do Banco da Cultura e uma maior integração de músicos nacionais de outras cores políticas em espetáculos e festivais musicais municipais são, para Zéca di Nha Reinalda, iniciativas de louvar. Conforme refere, há músicos com grande talento que apenas anseiam algum apoio inicial e o Banco da Cultura pode ser esse incentivo que tanto necessitam. É ao mesmo tempo, e segundo o artista, uma forma de fazer uma triagem entre os que acreditam no teu talento e trabalho e aqueles que, sem talento e sem trabalho, de alguma forma foram conseguindo apoios.

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O mesmo se passa ao nível da participação de músicos em espetáculos e festivais musicais organizados pelas autarquias. Para Zéca di Nha Reinalda, uma vez que não há controlo sobre a pirataria musical, os espetáculos e os festivais que as autarquias todos os anos organizam são, em muitos casos, a única fonte de receita dos artistas nacionais. Para o artista estes eventos são de louvar, no entanto, fica-lhe a mágoa de existirem determinados pontos no país onde, há já bastante tempo e por não ser da mesma filiação partidária do autarca no poder, não é convidado para cantar.

Perspetivas para o futuro

A sua forma rouca de cantar e o sentimento que emprega na interpretação consagraram-no com o título de Rei do Funaná. Aos 56 anos de idade, Zéca di Nha Reinalda prepara-se para dar continuação ao trabalho iniciado muitos anos atrás e está atualmente a preparar mais um trabalho discográfico.

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Zeca di Nha Reinalda

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Fiel à música que o consagrou, Zéca di Nha Reinalda gostava de ver mais jovens interessarem-se pelas raízes da nossa cultura. Apesar de considerar que a geração mais nova tem talento para dar continuidade ao trabalho dos mais velhos, acha-os pouco motivados na defesa da genuinidade da música cabo-verdiana, no entanto, salienta que quem o consegue atinge o sucesso, quer em Cabo Verde, quer em outros pontos do mundo.

“Tó Martins”, “Sant’Antoni la Belém”, “Si Manera”, “Proverbio” entre muitos outros temas ficarão para sempre na história do funaná e da música cabo-verdiana. Com quatro décadas de carreira, Zéca di Nha Reinalda, através das suas interpretações únicas e sentidas, conquistou Cabo Verde e o mundo. O Prémio Carreira que recentemente lhe foi atribuído pela organização do Cabo Verde Music Awards faz plena justiça ao inigualável contributo que Zéca di Nha Reinalda tem, ao longo dos anos, vindo a conceder ao funaná e à música tradicional de Cabo Verde.


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Comentários

  1. storia di entrada di Zeca nha Reinalda na grupos musicais sta mal contado. Kin screbi djan odja mel ka sabi nada. El devia informaba. Kusas é txeu.

  2. entre os melhores esta o melhor, ZECA DI NHA REINALDA, homem simples humilde e amigo de todos e apesar de ser o MELHOR nunca deixou de ajudar os outros, e uma pessoa que merece o reconhecimento de todos nos caboverdeanos, principalmente aqueles que cresceram junto d’ele…que Deus te abencoe sempre e que o seu caminho seja cheio de amor a paz.abracos

  3. […] “Gravam em Maio de 1990 o original “Si Manera” que os catapultou para o sucesso e para a ribalta. Em França, pela mão dos Finaçon, os meses de setembro e outubro de 1990 foram como que um tributo a Cabo Verde. Pela primeira vez na história, um grupo musical cabo-verdiano teve lugar de destaque em jornais como o Lê Monde e as estações de rádio e de televisão emitiram o Si Manera quase até à exaustão. Toda a imprensa francesa faz referência a este grupo cabo-verdiano e o tema “Si Manera” ocupou durante semanas consecutivas o quarto lugar do “Top 18″ francês. A digressão dos Finaçon por terras gaulesas foi um enorme sucesso e constituiu um dos primeiros passos para a internacionalização da música de Cabo Verde. A consagração do sucesso dos Finaçon foi a atuação no Zenith, com Gilberto Gil. O “Si Manera” fez posteriormente parte do disco Funaná lançado em finais de 1990. A discografia dos Finaçon ficaria completa com os álbuns Farol (1992), Simplicidade (1994) e Kel Ki Ta Da, Ta Da (1995).” http://nosgenti.com/?p=3315 […]

  4. da ponto na boca Diz: Maio 4, 2015 at 11:04 pm

    É bom k zeca conta storia de fim de. BULIMUNDO N TA crê. Obi

  5. […] “Gravam em Maio de 1990 o original “Si Manera” que os catapultou para o sucesso e para a ribalta. Em França, pela mão dos Finaçon, os meses de setembro e outubro de 1990 foram como que um tributo a Cabo Verde. Pela primeira vez na história, um grupo musical cabo-verdiano teve lugar de destaque em jornais como o Lê Monde e as estações de rádio e de televisão emitiram o Si Manera quase até à exaustão. Toda a imprensa francesa faz referência a este grupo cabo-verdiano e o tema “Si Manera” ocupou durante semanas consecutivas o quarto lugar do “Top 18″ francês. A digressão dos Finaçon por terras gaulesas foi um enorme sucesso e constituiu um dos primeiros passos para a internacionalização da música de Cabo Verde. A consagração do sucesso dos Finaçon foi a atuação no Zenith, com Gilberto Gil. O “Si Manera” fez posteriormente parte do disco Funaná lançado em finais de 1990. A discografia dos Finaçon ficaria completa com os álbuns Farol (1992), Simplicidade (1994) e Kel Ki Ta Da, Ta Da (1995).” http://nosgenti.com/?p=3315 […]

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