Vlú – Festival da Baía das Gatas: Sinónimo de união e liberdade
16 Jun 2012

Vlú – Festival da Baía das Gatas: Sinónimo de união e liberdade

Valdemiro Ferreira, Vlú, como por todos é conhecido, nasceu em Santo Antão, mas desde tenra idade se mudou para São Vicente. Desde cedo integrou os movimentos progressistas musicais da ilha, de forte influência anglo-saxónica. No entanto, nunca renegou a música tradicional do seu país, e aliando a tradição cabo-verdiana com a modernidade proveniente de paragens longínquas, Vlú, tornou-se um dos responsáveis, no início da década de 80, pelo aparecimento da música de fusão em Cabo Verde e pelo internacionalmente reconhecido Festival da Baía das Gatas.

VlúEm conjunto com alguns músicos progressistas da época, entre os quais Vasco Martins, Pinúrio e T Santos, Vlú cedo sentiu a necessidade de poder mostrar que a música em Cabo Verde poderia abranger outros géneros que não apenas a tradicional morna e coladeira. No entanto, conforme relata, “para o governo pós-independência, havia a necessidade de afirmar uma identidade cultural para Cabo Verde, e todas as músicas que não fossem as tradicionais mornas ou coladeiras – que eram os géneros musicais mais ouvidos na época – eram consideraras subversivas, logo marginalizadas.”

Este grupo vanguardista de jovens músicos ávidos de sensações e novas experiências, insistiam em tocar outros géneros musicais, mesmo sabendo que iam contra os ideais políticos impostos pelo governo da altura. Conforme recorda, “na época, não nos considerávamos jovens tradicionais, mas sim, pessoas do mundo e com influência desse próprio mundo, por isso teimávamos em fazer essa música – que o governo considerava diferente – e em mostrá-la aos outros, para que as pessoas também se apercebessem que havia outras maneiras de tocar e pensar.” Só que a tarefa não se mostrou fácil. Com forte contestação por parte do governo, os jovens músicos nunca eram convidados para atuarem em palcos oficiais. Eram considerados alienados do sistema e como tal marginalizados pelo mesmo, e tal como Vlú refere, “tivemos necessidade de criar o nosso próprio palco, por forma a podermos mostrar a nossa música, que apesar de diferente, também era música de Cabo Verde”.

Nasce a ideia do Festival

Em 1984, enquanto tocavam na Galeria Nho Djunga, um local que Vasco Martins tinha arranjado e onde podiam tocar livre de contestações, a música que tanto gostavam, lembraram-se que tinham que arranjar forma de mostrar aos políticos as novas tendências da música mundial. “Primeiro pensámos tocar na praça. Depois, pensámos melhor e decidimos tocar num bar que havia na Baía das Gatas, isto porque todos os domingos, os políticos e as pessoas próximas do poder, aí se juntavam para almoçar e conviver”, e acrescenta, ”já que os políticos não vinham até nós, íamos nós até eles”, ironiza.

Do bar na Baía, ao festival, foi uma questão de tempo. A partir desse momento, decidem organizar um festival naquele local. A única condição é que fosse um palco “onde todos os músicos pudessem tocar, independentemente do estilo musical, da crença religiosa, ou da tendência politica de cada um”, e acrescenta, “tinha que ser um festival onde pudéssemos mostrar aos políticos que a música de Cabo Verde não era só a morna e a coladeira, mas sim aquilo que a criatividade dos artistas fosse capaz de conceber”.

As primeiras edições

Festival Baia das Gatas _1_Nos GentiPara Vlú, “a primeira edição do Festival da Baía das Gatas foi como que uma janela de liberdade que se abriu ao povo”, e explica que, “até 1975, as únicas festas com expressividade em Cabo Verde, eram as Festas de Romaria, isto é, as festas religiosas. No entanto, após a independência, o governo – que era pró-comunista – quis desacreditar a Igreja, uma vez que esta personificava o regime colonialista opressor, e, por conseguinte, começaram a desacreditar e a reprovar a participação do povo nas Festas de Romaria. Nessa altura, muitos cabo-verdianos começaram a abandonar o país, pois tudo era controlado. Não havia liberdade, e a censura às Festas de Romaria, fez com que se perdesse um elo importante na unidade do povo. Como nem todas as pessoas se reviam nas festas políticas – que, entretanto tinham sido criadas na tentativa de substituir as religiosas – as pessoas começaram a desinteressar-se, chegando a haver um alienamento no que toca à música e aos músicos que atuavam nessas mesmas festas”, recorda.

Quando o Festival da Baía apareceu, voltou a despertar o interesse de todos os cabo-verdianos, pois era um acontecimento cultural não político, aberto a todos os credos religiosos. Era o ponto de encontro que faltava, o que fez que muitos que se encontravam emigrados, encontrassem novamente um motivo de união para voltarem ao seu país e durante os dias do festival, confraternizassem uns com os outros. Conforme refere o músico, “o Festival da Baía das Gatas, teve essencialmente a função de agregação do povo em torno de algo que não era nem político nem religioso, e isso na altura, foi muito importante”, conclui.

A ideia partilhada por todos aqueles que inicialmente o pensaram e conceberam, é que o Festival deveria ser um evento, não só para os músicos, mas também para os artistas plásticos, os escultores, os comerciantes e as famílias. Essencialmente, devia ser uma festa para todas as pessoas, pois na sua génese estava a ideia de um acontecimento unificador do povo.

No início, o governo opôs-se à realização do Festival. Conforme nos diz Vlú, “começaram a querer ligar o Festival às drogas e à delinquência. No entanto, rapidamente se aperceberam que não era assim. Aliás, verificaram que era um evento capaz de unir as pessoas em prol de um ideal”, refere. Esbatidas as dúvidas iniciais, houve até mesmo um forte apoio, por parte do governo e da Câmara Municipal, à realização do evento.

Nas suas primeiras edições, a organização apenas podia contar com os músicos nacionais. No entanto, e como ambicionavam internacionalizar o festival, recorreram a uma estratégia simples, mas que se mostrou extremamente eficaz. Contactaram as embaixadas de vários países, por forma a obterem apoio à presença de alguns músicos dos respetivos países. Começaram a aparecer músicos cubanos, angolanos, são-tomenses e portugueses. “Criámos desta forma um intercâmbio cultural com diversos países, conseguindo assim, internacionalizar o Festival”, refere.

Como o sucesso da iniciativa foi maior que o inicialmente esperado, e como a organização não tinha meios para dar continuidade às expectativas que, de ano para ano, iam crescendo em quem assistia ao evento, decidiram entregar a organização do Festival à Câmara Municipal, que era a única entidade local com capacidade para fazer crescer a iniciativa.

Presente e futuro

Para o músico vanguardista, “atualmente, o Festival da Baía das Gatas, já nada tem a ver com os objetivos com que inicialmente foi criado. A ideia inicial era a criação de um palco que espelhasse a criatividade musical e artística. O intercâmbio com outras bandas provenientes de outros países era do interesse político do governo, daí o facto de ter apoiado a iniciativa. No entanto, quando a organização passou para a Câmara Municipal, esse objetivo inicial começou a perder-se”, desabafa. “Começou a haver um aproveitamento do Festival para a autopromoção política e pessoal de quem estava no poder. O programa do Festival era feito em função dos gostos e dos interesses de quem na altura mandava”, e remata dizendo, “hoje em dia, é mais um festival de música igual a tantos outros, onde se toca música e pouco mais. Apesar de em termos económicos representar mais receitas, em termos culturais e de criatividade, perdeu a importância de antigamente.”

Apesar de ter perdido um pouco da “aura” com que nasceu, o Festival da Baía das Gatas continuará a ser um ponto de encontro dos cabo-verdianos, um local de liberdade e alegria e certamente manterá o seu sucesso por longos anos. Apenas rivalizado pelo Carnaval, o Festival da Baía das Gatas é o maior evento cultural de Cabo Verde, aquele que mais gente atrai a São Vicente, e que espelha o espírito de união e de liberdade de toda uma nação.

Vlú

A morna no período pós-Cesária

“A morna é uma música tradicional que nós revivemos no presente. É um momento dos anos 50, 60 e 70. Foi algo de extraordinário que apareceu naquela época e que nós gostamos de recordar. No entanto, a música evoluiu, e naturalmente, a morna também irá evoluir para outros caminhos. Com a morte da Cesária Évora, a morna tradicional perdeu muito, pois tinha na intérprete a melhor promoção que qualquer estilo musical podia ter, pois com a Cesária, a morna chegou a todo o mundo.

Relativamente às novas gerações de músicos e compositores, é utópico pensar-se que continuarão a preservar a morna como a música tradicional de antigamente. Essa música nasceu fruto de uma mistura de ingredientes da altura, e atualmente os ingredientes são outros. Os músicos e compositores, nasceram noutro contexto, formaram-se noutro contexto e prepararam-se para outro contexto, logo a música que fazem, também tem que ser forçosamente outra. A sociedade cabo-verdiana evoluiu, e a música acompanha essa evolução. A música é cada vez mais a música de todo o mundo. A tecnologia e o conhecimento globalizado, aproximam pessoas e culturas, o que torna o ser humano cada vez mais, cidadão da mesma nação global. Ora, sendo a música fruto dessa cultura, também ela se está a globalizar. A música é cada vez mais universal, o que faz com que as expressões musicais tradicionais, se não forem preservadas, caiam definitivamente no esquecimento da cultura global.

Para que a morna tradicional não caia nesse esquecimento, seria interessante que fosse criado O Dia da Morna. Seria um dia em que se celebraria a morna pelo valor que ela tem para a cultura cabo-verdiana, pois não existiu até à data, nenhum outro estilo musical tão aglutinador e com tanta importância cultural, como a morna. O Estado, no pelouro do Ministério da Cultura, terá responsabilidades sobre a preservação desse momento da nossa história. Se nada for feito, corre-se o sério risco dessa identidade cultural, que é só nossa, poder tornar-se apenas uma recordação do passado. Penso que a morna devia ser considerada como património  imaterial de Cabo Verde.”


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