VAISS – Sentir a música como só os cabo-verdianos a sentem
17 Jun 2012

VAISS – Sentir a música como só os cabo-verdianos a sentem

Osvaldo Dias (Vaiss), nasceu em 1964 na ilha de Santo Antão. Passou toda a infância e juventude em São Vicente, onde iniciou a aprendizagem de guitarra e cavaquinho com o mestre Travadinha. Com Adriano Santos, já na década de 80, deu os primeiros passos nos instrumentos de sopro, em particular o saxofone. Em 1988, veio para Portugal para trabalhar com Bana. Mais tarde trabalhou com Paulino Vieira, Ildo Lobo, Maria Alice, Hermínia, Lura, Deixa Clarear, Rodrigo Leça, Caetano Veloso, Dany Silva, Cesária Évora, Sara Tavares, Gabriela Mendes, Nancy Vieira, Biús, Rui Veloso, Gil do Carmo, Filipe Mukenga entre outros. De 2004 a 2007 fez parte do Grupo Navegante. Em Portugal, estudou na escola do Hot Club, na Academia dos Amadores de Música, e na Escola de Música do Conservatório de Santarém.

O início da carreira

A década de 80 ficou marcada pelo aparecimento de muitos conjuntos musicais em São Vicente. Era a época de ouro dos bailes populares, onde numa noite, podiam tocar quatro ou cinco agrupamentos. Era um ambiente em que toda a gente falava de música e de guitarras, mas Vaiss, ao contrário de todos os outros, ficava calado a ouvir. Aquele assunto mexia particularmente com ele. Aos 14 anos, começou a praticar com o exímio guitarrista e violista, o mestre Travadinha, até que, foi descoberto por Bau, que o convidou para tocar no grupo  Grito do Mindelo. Entrou como percussionista, o que lhe deu uma grande experiência em termos rítmicos.

Eram tempos de descoberta, mas também de muitas dificuldades. Tal como relembra, “nessa altura, tinha que fazer as minhas próprias palhetas para poder tocar. Usava tampinhas de inseticida. Eu e o Bau, com uma lixa e um pedacinho de madeira, lá íamos moldando o plástico até à perfeição”, e acrescenta, “muitas vezes, descascávamos fios de telefone, para fazermos as cordas das guitarras, no entanto, trocávamos muitas informações entre nós, que é coisa que agora já não acontece com esta nova geração de músicos. Quem aprendesse uma coisa nova, partilhava-a e ensinava-a. Havia por isso uma cumplicidade e uma partilha das dificuldades, o que se viria a revelar extremamente importante para a carreira musical de cada um”, recorda.

Era o tempo em que, fruto da influência de grupos musicais como os Voz de Cabo Verde, que tinham muitas ascendências da musica latina, começava-se a tirar a importância aos tocadores de viola e bico – onde o violino era a estrela (o termo aparece, pois quando não havia violino, o tocador do violão, substituía o violino pelo assobio). Muitos músicos começaram então a achar que os instrumentos tradicionais de Cabo Verde, como a viola, o violino e a rabeca, estavam ultrapassados. Contudo, por essa altura, num célebre espetáculo que fizera com o seu amigo Bau, no já extinto Éden Park, lembra que as pessoas ficaram muito surpresas quando começaram a tocar choradinho, que, “era um género que as pessoas não estavam habituadas a ouvir, com harmonias muito complexas. A partir desse momento, principalmente na ilha de São Vicente, houve a noção que afinal, o cavaquinho, o violão e o violino ainda tinham muito para dar à música cabo-verdiana”, lembra. A prova deste contributo, viria mais tarde, com a Cesária Évora e o mundialmente consagrado disco acústico “Miss Perfumado”.

Chegou o momento em que sentiu necessidade de aprender a parte teórica da música, pois como refere, “muitas vezes fazia coisas na guitarra, o que originava a curiosidade das pessoas. Quando me perguntavam o que eu tinha feito, não sabia responder, pois fazia as coisas de ouvido”. Fez amizade com Vasco Martins que lhe desvenda outras ideias musicais ao nível da harmonia e improvisação. Tal como recorda, “essa fase foi fundamental para a minha formação musical. As experiências acumuladas, com os outros músicos da terra, iriam formar a base da minha maneira de sentir e tocar música”.

Vaiss - Historia _1_Nos GentiEm 1988, dá-se uma reviravolta na vida de Vaiss. Tal como relembra, “estava em São Vicente, quando fui convidado pelo Luís Morais para ir trabalhar com o Bana. Uma semana depois, estava em Lisboa. Esse momento marca o arranque da minha carreira como músico profissional”, diz.

Após quase dois anos, surgiu a oportunidade de integrar um projeto novo que, na altura, dava os primeiros passos. Junto com Paulino Vieira, Toy Vieira e Tey Gonçalves, começaram a trabalhar no projeto Cesária Évora.

Tocar com a Cesária

Conheceu a Cesária Évora ainda em Cabo Verde. Não tinham grande intimidade, no entanto, conforme confidencia, “foi provavelmente a melhor pessoa que conheci em toda a minha vida. Era de uma simplicidade e generosidade desconcertante. A sua sensibilidade humana era irreal”.

No primeiro concerto que fizeram, em França, era suposto o espetáculo ter uma duração de uma hora e 30 minutos, mas apenas durou 45 minutos, apesar de terem tocado todas as músicas do reportório. Conforme explica, “sempre que o Paulino ou outro músico iam para executar um solo, a Cesária virava-se para os músicos e dava o tema como encerrado e já não cantava mais. Era uma pessoa muito firme nas suas convicções”.

Prova desta firmeza de pensar e agir, é-nos relatada por um episódio ocorrido à margem de um concerto em Barcelona. Cesária foi convidada para uma entrevista na estação de televisão local, e conforme conta Vaiss, “a entrevista estava marcada para as 11 horas. Chegámos ao estúdio uma hora antes. Levaram a Cize para o camarim e prepararam-na para o direto. Entretanto, o produtor irrompe pela sala a dizer que íamos ter que esperar uma hora, pois havia uma pessoa muito importante que tinha que entrar na nossa vez. A Cesária ficou calada, sentou-se e esperou. Já passava do meio-dia quando o mesmo produtor, todo empolgado, nos disse para nos prepararmos para entrarmos no programa. A Cesária, com muita calma, virou-se para ele e simplesmente disse-lhe que não ia. O homem tentou convencê-la dizendo que era muito importante para ela, pois ia ser muito conhecida, e então, com um ar irónico, ela responde-lhe: “não faz mal, pois toda a gente já me conhece lá em Cabo Verde”.

Classifica o relacionamento entre a diva e os seus músicos, como se de um relacionamento mãe/filhos se tratasse. No início do projeto, dada a quantidade de atuações que tinham, o manager do grupo, o sempre omnipresente José da Silva, alugava uma vivenda nos arredores de Paris, de onde apenas saíam para as atuações nos espetáculos. Esse sistema, fazia com que o grupo convivesse 24 horas por dia. Ensaiavam às duas ou três da manhã. Dormiam e depois iam ensaiar novamente. Conforme recorda Vaiss, “eu ou a Cesária fazíamos qualquer coisa para o grupo comer, jogávamos um pouco às cartas e depois íamos novamente ensaiar. Éramos como que uma família”.

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Para o músico, com a morte da Cesária, “a morna perde a sua maior intérprete”, e sublinha que, “não nascem duas Cesárias no mundo. Era a capacidade interpretativa da Cesária, que a tornavam tão especial. A forma como interpretava a morna era única, pois a Cesária colocava nas mornas a sua própria alma, de forma genuína e verdadeira, e quando assim é, não pode haver mentiras”, e conclui dizendo, “não era um processo estudado”.

Esta verdade nos sentimentos, é recordada pelo compositor, num episódio passado no Japão “Estávamos no ano de 92 ou 93, quando fomos tocar a Tóquio. Lá ninguém fazia a menor ideia onde ficava Cabo Verde. Nessa altura apenas havia um cabo-verdiano na cidade. No entanto, o respeito com que os japoneses apreciaram o espetáculo, foi algo que me marcou. A reação ao verem a Cesária atuar, era uma mistura de curiosidade, admiração, mas também, de alguma frustração, por não perceberem o que lhes era cantado”, e continua, “as palavras tocavam-lhes de tal forma, que todos estavam extasiados. Inclusive alguns choravam ao apreciarem o talento e a forma com que ela interpretava os temas, embora não percebessem o significado das letras”, e conclui dizendo, “no final, todos ficaram a saber onde ficava Cabo Verde. Cabo Verde é hoje reconhecido em qualquer lado do mundo, graças à Cesária, que, de facto, foi a melhor promotora da cultura do nosso povo”.

Com a morte da Cesária Évora, e apesar da irreparável perda que a morna sofreu, para o músico, “o estilo irá continuar a evoluir, pois há atualmente excelentes compositores de morna em Cabo Verde”, e aponta o exemplo de Betú, compositor da ilha do Maio, que como refere, “faz mornas absolutamente extraordinárias”. Para Vaiss, o grande problema coloca-se ao nível dos intérpretes da morna, pois como diz, “é fácil alguém ser cantor, agora conseguir interpretar a alma, o sentimento e o sentido das mornas, isso é algo completamente diferente”, e lamenta ao afirmar que, “neste momento, não estou a ver ninguém em Cabo Verde capaz de o fazer, da forma como a Cesária o fazia”.

Perpetuar o nome e o contributo que Cesária Évora deu à cultura cabo-verdiana, é, para o compositor “uma obrigação do país, como forma de reconhecimento pelo trabalho e dedicação com que sempre louvou o seu povo, e criar uma Fundação, patrocinada pelo Estado cabo-verdiano, seria a melhor homenagem que lhe poderiam prestar”, sugere.

A carreira após o projeto Cesária

Vaiss - Historia _2_Nos GentiQuando terminou a sua participação no projeto da Cesária Évora, Vaiss tira o curso de guitarra clássica no Conservatório de Música de Santarém, em Portugal. Durante muitos anos compôs em parceria com o cabo-verdiano Luís Lima. Depois resolveu estudar composição e improvisação.

O seu primeiro disco foi gravado em 1991, ao que se seguiu um segundo, em 97. Apesar de todos os anos gravar discos para outros compositores, considera a relação com a gravação dos seus próprios temas, um pouco estranha. ”Não gravo discos para fazer carreira com eles. Gravo apenas quando sinto que tenho algo para transmitir às pessoas”, salienta. Envolvido num projeto de formação musical para os mais novos, Vaiss apenas agora edita o seu terceiro disco de originais. “Betty Mar” é um disco que nasceu fruto das sensações obtidas com convivências variadas. Este último trabalho do músico e compositor, é essencialmente um disco de improvisações. É um disco feito da espontaneidade dos sentimentos. A este propósito, Vaiss dá o exemplo de como foi gravado um dos temas do alinhamento: “Convidei o Toy Vieira para ir comigo para estúdio. Ele pediu-me as bases musicais para ir ouvindo, mas eu recusei.  Quando chegámos ao estúdio, ele ouviu a música pela primeira vez e foi tocando ao som do que ia ouvindo. Quando achou que estava pre

parado para gravar, muito naturalmente disse para preparar tudo. A surpresa foi quando eu lhe disse que a parte dele já estava pronta… eu já tinha gravado”, e acrescenta, “essa espontaneidade irrepetível, é o que me motiva na música que faço”.

O futuro da música em Cabo Verde

Vaiss, é da opinião que, “atualmente estamos a viver uma situação muito perigosa, no que diz respeito à identidade da nossa música”, e identifica os dois grandes problemas, que, na sua opinião, poderão colocar em causa a preservação e sustentabilidade cultural da música em Cabo Verde. Conforme esclarece, “em primeiro lugar não existe uma estrutura económica empresarial de suporte à industria musical. O Estado deve apoiar a formação de músicos, e não a gravação de discos”, e acrescenta, outra questão, “tem precisamente a ver com a forma como a nossa cultura está a ser tratada. Como é possível dar a um ministro 70 mil euros de orçamento, para gerir a cultura de um país, durante um ano? É ridículo, vergonhoso e uma falta de respeito pela cultura”. Para Vaiss, “esta é a aniquilação total da nossa identidade”.

Esta situação é particularmente preocupante, porque, para o compositor, “o povo cabo-verdiano vive a música com uma intensidade que mais ninguém vive. Somos extremamente exigentes naquilo que escolhemos para ouvir”, e ironiza, “o músico que, em cima de um palco, conseguir agradar o povo cabo-verdiano, pode ficar descansado, pois pode tocar em qualquer parte do mundo que, certamente vai agradar”.


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