Teatro nacional, fazer muito com quase nada
16 Jun 2012

Teatro nacional, fazer muito com quase nada

Joao Branco _5_Nos Genti

Nos últimos 15 anos, o teatro evoluiu muito em Cabo Verde. Há vários fatores que contribuíram para que isso acontecesse e dentro dessa evolução a ilha de São Vicente, nomeadamente a cidade do Mindelo, tem-se destacado pelo número de companhias existentes. O Mindelo é, a nível nacional, o principal centro de produção de artes cénicas de Cabo Verde. Atualmente, existem 13 companhias de teatro em atividade em São Vicente. O sucesso das artes cénicas no Mindelo, deve-se essencialmente a dois fatores: o trabalho de base efetuado pelo Centro Cultural Português do Mindelo, e à Associação MINDELACT, responsável pelo internacionalmente conhecido Festival de Teatro do Mindelo.

João Branco, presidente da Associação Artística e Cultural MINDELACT, um dos grandes impulsionadores da atividade no país, salienta que “esta dinâmica tem vindo a injetar no meio mindelense muita gente que passou a estar ligada ao teatro por motivo dessa formação de base.” Os cursos de iniciação teatral começaram a ser realizados em 1993 e atualmente está a ser ministrada a 14ª edição – cuja duração é de um ano”. Cerca de 90% das companhias teatrais que existem hoje em Cabo Verde, são compostas por elementos que passaram por estas formações.

Joao Branco _17_Nos GentiOutro fator dinamizador do teatro mindelense é o Festival Internacional de Teatro de São Vicente, que decorre todos os anos, em setembro, desde 1995. Conforme refere João Branco, ”o Festival tem permitido uma formação no público e um crescente interesse no que diz respeito à vontade em as pessoas fazerem e verem teatro. Colocou o arquipélago cabo-verdiano no mapa do teatro mundial, pois ao longo destes anos, por aqui têm passado companhias de muitas e variadas proveniências.” O Festival MINDELACT é um festival de teatro aberto a todas a comunidades linguísticas, embora os países que têm tido mais participação ao longo dos anos, tenham sido os países com os quais a Associação tem mantido uma ligação mais estreita, e esses são obviamente os de língua portuguesa, nomeadamente Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, São Tomé e Guiné Bissau. No entanto, já se viram atuações de companhias, cubanas, chilenas e outras.

Uma das características que marca o Festival MINDELACT e que faz toda a sua diferença, é o facto de ser um festival internacional que não faz qualquer tipo de diferenciação entre uma companhia amadora e uma companhia profissional. A programação é regida por critérios relacionados com a qualidade artística das propostas apresentadas, e com o tipo de relacionamento que existe entre a organização e as companhias convidadas. Há ainda um terceiro critério, que tem precisamente a ver com a diversidade das propostas. Conforme explica João Branco, “assistimos a um festival que tem uma média, em dez dias, de 40 a 45 espetáculos e não vemos dois parecidos. As linguagens que estão em palco são todas muito diversas. E nesse sentido, o teatro cabo-verdiano tem neste palco uma oportunidade de se colocar exatamente ao mesmo nível de uma companhia profissional famosa e que já viajou por todo o mundo. As condições são as mesmas, a equipa técnica é a mesma, o público é o mesmo, e esta é a grande prova para se verificar se o nosso teatro vinga ou não, se tem essa capacidade para se afirmar ao se poder comparar a projetos teatrais profissionais. A minha perceção é que sim… que tem essa capacidade e essa qualidade para se poder equiparar a esses projetos muito mais maduros e experientes”, afirma.

Joao Branco _3_Nos GentiSe fizermos uma análise ao percurso do teatro em Cabo Verde, concluímos que sempre foi movido por lideranças fortes. Após a Independência, quando se começou a fazer teatro no país, o ponto principal da produção teatral era a cidade da Praia. Sobre a liderança de Francisco Fragoso, o grupo Corda Cabo Verde, marcou o arranque da actividade. Quando Francisco Fragoso emigrou, o teatro santiaguense, de alguma forma ficou órfão e até hoje nunca conseguiu resolver essa orfandade. A liderança é talvez um dos aspetos fundamentais para a dinamização da atividade. Conforme refere o presidente da MINDELACT, “muitas das  companhias, quer no Mindelo, quer na cidade da Praia, foram sobrevivendo sempre que houve uma liderança forte de alguém que se destacava e que conseguia dinamizar um conjunto de pessoas que mantinham a companhia em atividade. Quando essa pessoa emigrava –  e todos sabemos que Cabo Verde é propenso a esse fenómeno social, inclusive ao nível da emigração entre ilhas do arquipélago – a tendência é que o grupo, sem esse líder, acabe por morrer. Há uma grande dificuldade na substituição de lideranças dentro de projetos concretos”, diz.

O grupo mais antigo de Cabo Verde – o Juventude em Marcha, de Santo Antão – é outro exemplo concreto de um grupo que se tem mantido até hoje porque, segundo João Branco, “existe essa liderança forte, neste caso conduzida pelo Jorge Martins e o César Lélis. Duvido que se por algum motivo esses elementos tivessem que abandonar o grupo, independentemente da força histórica e importância no teatro nacional, ele conseguisse manter a sua coesão”, conclui.

Há muitas companhias teatrais, nomeadamente no Mindelo, que apenas existem porque essas lideranças se mantêm ativas. No entanto, João Branco não se mostra preocupado com o panorama atual da atividade em São Vicente, pois “ existe muita  gente que se iniciou no teatro através do Centro Cultural Português, que é o centro dinamizador da cultura em São Vicente”. No entanto, a nível nacional, o cenário já não é o mesmo. Para João Branco, a grande preocupação, centra-se na ilha de Santiago, nomeadamente na cidade da Praia, pois como refere, ”é um local onde existem mais recursos financeiros, mais condições, tem mais pessoas, contudo, há muitos anos que andamos a reclamar a inércia do seu teatro, onde existem pouquíssimas companhias ativas. Há dois anos tentámos fazer uma extensão do Festival de Teatro MINDELACT, levando para a Praia alguns dos espetáculos do Festival, e o que verificámos é que as pessoas estão ávidas e querem ver teatro. Há mercado para as coisas acontecerem, o certo é que, os anos vão passando e não acontecem. Há a tal falta de liderança, que é fundamental para este tipo de atividade”, desabafa.

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A esperança para que a situação se inverta, nomeadamente na capital, recai sobre esta nova equipa do Ministério da Cultura. Pela primeira vez em Cabo Verde, vai haver uma Direcção das Artes e Espectáculos, constituída por pessoas conhecedoras da atividade. Conforme confidencia o presidente da Associação MINDELACT, “se esse dinamismo tiver que vir do Estado e possa depois fluir para outros lados, nomeadamente associações privadas, comunitárias, ou cooperativas, então acho que temos reunidas todas as condições para a dinamização do teatro, em particular na cidade da Praia, por forma a que este se mostre à altura de representar dignamente a importância que a capital tem para o país, tanto do ponto de vista cultural, como do ponto de vista histórico, político e social.”

Joao Branco _2_Nos GentiHá claramente uma identidade específica do teatro cabo-verdiano, que tem precisamente a ver com as temáticas que são colocadas em palco, com as próprias características de movimento e personalidade dos atores e com a língua em que é apresentado – o crioulo – que é uma matriz fundamental da identidade cultural. Quando comparado com o teatro produzido noutros países, João Branco é perentório ao afirmar que “não ficamos nada aquém”, e justifica ao dizer que, “se verificarmos as condições com que as companhias trabalham em Cabo Verde, sem lugares de ensaio, com muito poucos apoios, com grandes dificuldades para a montagem dos espetáculos, e depois vermos o resultado final, a conclusão que se pode tirar é que o rácio condições/resultados é muito elevado e isso só pode ser o resultado de uma grande paixão do cabo-verdiano pelo teatro”. Também o facto de haver uma montra como o Festival de Teatro MINDELACT, acaba por fazer com que o grau de auto exigência em cada companhia, seja muito maior. Conforme explica o presidente da Associação, “os atores e dirigentes já verificaram que o nível da programação do Festival é muito elevado – somos muito exigentes com o nível de qualidade das companhias internacionais que trazemos ao festival – e a reflexão que as companhias de teatro cabo-verdiano fazem é que, para estarem presentes neste evento, têm que estar à altura. Há um investimento muito forte por parte dos agentes teatrais, por forma a apresentarem um produto de qualidade e isso tem-se refletido muito na evolução do teatro nacional nos últimos cinco anos.”

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Essa falta de meios para o desenvolvimento das artes cénicas, não tem, no entanto, sido motivo de desencorajamento da comunidade teatral mindelense. Conforme confidencia João Branco, “temos que aproveitar aquilo que apenas o teatro permite, que é fazer espetáculo com quase nada. Muitas vezes é isso que temos feito: muito com quase nada, por isso não temos muitas razões de queixa relativamente aos locais de apresentação. O Festival MIDELACT é um bom exemplo, pois nós temos uma média de quatro espetáculos diários na cidade do Mindelo. Existem vários parâmetros de programação, onde o palco principal é a sala do Centro Cultural Português – que é onde são realizados os espetáculos de maior cartaz – no entanto há outros locais na cidade, com pequenos auditórios perfeitamente adaptados a pequenas atuações. A rua, as praças e todos os locais onde haja público, também são bons locais para um espetáculo de teatro.”

No entanto, o mesmo já não acontece relativamente aos locais de ensaio, pois conforme diz, “para um espetáculo chegar a ser apresentado em palco, há todo um processo que dura meses, e a maior parte dos grupos que existem, tem grandes dificuldades em conseguir lugares para ensaiar”. Porém, para João Branco, a construção de um grande Centro Cultural no Mindelo, agregador de várias expressões artísticas, entre as quais o teatro, também não se revela a melhor solução, e justifica ao afirmar que “dentro da atual conjuntura económica global, seria um total desperdício de recursos, primeiro com a sua construção e depois com a sua gestão, manutenção e preservação”, e aponta alternativas, ao afirmar que, ”há espaços que estão completamente desaproveitados e que se fossem devidamente recuperados, serviriam perfeitamente para colmatar as falhas que existem. Por exemplo, o espaço da Academia Jotamont – que é um espaço que a Câmara Municipal possui há alguns anos – está completamente mal aproveitado. Além do auditório, tem imensas salas que poderiam ser utilizadas para dar aulas de música, de dança, ou para realizar outras atividades. O certo é que, a percentagem de tempo que é utilizado, é mínima. Muitas vezes as pessoas queixam-se, sem terem a noção daquilo que aqui temos e que não sabemos aproveitar”, justifica.

Sobre o futuro do teatro cabo-verdiano, o seu maior desejo é que no dia em que se tiver que se retirar, o teatro continue com a sua pujança e com a sua capacidade de evoluir e inovar, pois conforme diz, “se analisarmos do ponto de vista estético, artístico, criativo e plástico, nós ainda temos todo o mundo por descobrir. Há coisas que foram feitas no final do século XIX que nunca passaram em Cabo Verde. Há centenas de autores universais que nunca foram representados pelas nossas companhias. Isto demonstra que há todo um terreno pronto para receber ainda muita coisa e o meu desejo é que esse terreno continue a germinar e a originar projetos inovadores e interessantes, independentemente de ser eu ou outra pessoa a impulsionar o teatro em São Vicente.”


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