Tchalê Figueira – É imprescindível fomentar a criatividade.
16 Jun 2012

Tchalê Figueira – É imprescindível fomentar a criatividade.

Tchale Figueira

O seu atelier, aberto para um mar de gente e de água, é prova viva da materialização dos seus pensamentos. Aqui se criam e recriam novas personagens, novos horizontes, novas formas de contar histórias, umas verdadeiras outras misturadas com as emoções que só as pinceladas do artista sabem contar. Tchalê Figueira, nascido em 1953 na ilha de São Vicente, é um homem feito de vivências profundas e independentes, que utiliza a criatividade plástica e literária, para exprimir as emoções do espírito e da alma dos cabo-verdianos.

Fruto da crescente repressão imposta pelo regime salazarista, Tchalê Figueira então com 17 anos, vê-se coagido a ter que participar numa guerra colonial, que para ele “estava desprovida de sentido, e era castradora das vontades dos jovens de então”. Numa altura em que o regime começava a mobilizar os adolescentes com 18 anos para a frente de batalha, nomeadamente para a Guiné, Tchalê Figueira, junto com outros colegas, conseguiu fugir para a Holanda, terra onde o aguardava um tio que o acolheu. “A ideia inicial era estudar, mas depois resolvi que devia ir trabalhar”, conta. É desta forma que, Tchalê, durante quatro anos, se vê num barco da marinha mercante, que o faz percorrer o mundo, e que, conforme refere, “permitiu que a mente se tivesse aberto a novos horizontes, pois durante o regime colonial, o povo estava confinado ao arquipélago num total desconhecimento do que se passava à sua volta”.

Tchale Figueira

Após esta estimulante experiência, decide acompanhar a irmã que, entretanto emigrara para a Suíça. Aqui viria a conhecer a mulher que o fez despertar para o mundo das artes, e que “contribuiu de forma significativa para o despoletar da paixão pela pintura”, que de forma inconsciente, de algum modo, já habitava no artista. Desde que tem memória, que via o irmão mais velho, Manuel Figueira, a pintar, e, conforme conta, “aquelas telas ficaram-me para sempre gravadas na memória e no meu subconsciente, sempre soube que era aquilo que eu gostava de um dia vir a fazer”, reconhece.

Inicia então a sua formação plástica em Belas Artes, na Suíça. Conforme confidencia, “foi uma fase de procura, que permitiu explorar vários estilos e caminhos”. Começou por pintar o abstrato, numa tentativa de encontrar um rumo para o seu estilo pessoal. Durante este percurso, passou por várias fases, até encontrar o que chama de “mitologia pessoal”. A sua pintura abrange temas e conceitos diversificados, que, conforme esclarece, “transmitem algo de pedagógico, sempre com uma mensagem subentendida, que tanto pode ser social como política”, pois para o artista, “o importante é que a arte possa transmitir conhecimento à sociedade e sirva de veículo para a discussão de ideias e conceitos”.

A sua primeira exposição, marca-lhe para sempre a sua atividade no campo das artes plásticas. Realizada em Basileia, na Suíça nos finais da década de 70, esta primeira mostra dos seus trabalhos abre-lhe as portas para o mercado das artes. Muitas outras se seguem, um pouco por todo o mundo, com especial destaque para as realizadas em Portugal, França, Suíça, Senegal, EUA, Angola e Cabo Verde.

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Para o artista, cada obra é única. O que o fascina nas suas pinturas, é o facto de “ver obras feitas à 10 ou 20 anos atrás, e ainda questionar a forma e o porquê de terem sido pintadas daquela forma, pois parece que as vejo pela primeira vez”, e continua afirmando que, ” é interessante ver que as pessoas encontram pormenores nos meus trabalhos, que eu próprio, quando os estou a pintar, não penso neles”. Tchalê Figueira sente-se fascinado pelo facto de “cada pessoa poder ter a sua própria leitura das obras, o que aliado à história de cada um, poder permitir uma conjugação de sentidos e de emoções que varia de pessoa para pessoa”, e acrescenta que “este aspeto do meu trabalho, entusiasma-me muito”.

Considera-se uma pessoa espontânea, o que lhe permite passar para a telas esse seu instinto natural, à medida que a obra vai sendo pintada, sem esboços nem ideias preconcebidas. “É tudo fruto das emoções do momento, o que confere ao meu trabalho, um elevado grau de subjetividade quando analisado por outras pessoas, e isso interessa-me bastante”, observa.

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Tchalê Figueira, encontra-se atualmente a acabar uma série intitulada Uma breve história da colonização em África, que, conforme refere, “pretende estimular a reflexão e a partilha de ideias em torno de um tema que é pouco falado, mas que teve um impacto brutal na nossa sociedade. É que quando se fala em colonização, todas as pessoas se lembram dos europeus e alguns árabes colonizadores, mas quase ninguém se lembra que os nossos ancestrais antepassados, tiveram grandes responsabilidades no estímulo à escravatura dos seus próprios povos, pois dela tiravam grandes proveitos”, e conclui dizendo que, “as pessoas não gostam de falar disso, e algumas até fazem por esquecer esse período atroz da história africana, mas como facto que foi, penso que deva ser preservado e de alguma forma retratado, e este meu trabalho é um pequeno contributo para essa preservação da história milenar do nosso povo”.

Para o artista plástico, “atualmente Cabo Verde já possui alguns pintores reconhecidos internacionalmente, contudo, principalmente para os mais jovens, há ainda algumas dificuldades fruto da inexistência de galerias para exporem”, o que dificulta a parceria entre galeristas e a consequente promoção dos artistas noutras latitudes. No entanto, é perentório ao afirmar que, “os artistas têm obrigatoriamente que ser proativos na procura de novas oportunidades, e serem criativos na forma como divulgam os seus trabalhos, não podendo esperar que seja o Estado a fazer esse trabalho por eles”.

Tchale Figueira - Historia _3_Nos GentiTchalê Figueira, também afirma que “Cabo Verde não pode pensar apenas no desenvolvimento económico. A política cultural do país tem de acompanhar esse desenvolvimento, e se possível, contribuir para a efetivação do crescimento do país”, pois para Tchalê, “o melhor produto que Cabo Verde tem para exportar é, sem dúvida, a sua cultura”, e dá o exemplo da Cesária Évora, que “conseguiu fazer com que a música de Cabo Verde fosse ouvida em todos os cantos do mundo, o que trouxe notoriedade a outras expressões artísticas nacionais, e com isso todos ficaram a ganhar”. Aponta a política cultural alemã, como exemplo a seguir por Cabo Verde, que “apesar da crise mundial, houve um reforço do financiamento à cultura do país, pois os políticos alemães sabem que a cultura não são só os artistas, mas sim uma cadeia de indústrias que se interligam e que precisam dos artistas para viver: são os carpinteiros que fazem as molduras dos quadros, os que vendem as tintas e pincéis, os que produzem as telas, os que constroem instrumentos musicais, os técnicos de som que gravam e produzem discos, etc., etc.”, e termina afirmando que “é forçoso que seja criada também em Cabo Verde, uma política de desenvolvimento da cultura, em prol do crescimento deste circuito”.

Para os jovens criadores, Tchalê Figueira, aponta para que “vivam em paz, que fomentem a criatividade e o conhecimento, e que essa paz se transforme em serenidade para criar”, pois como afirma, “é através da criação que é feita a evolução do ser humano”.


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Comentários

  1. Sono estremamente ispirata insieme al vostr abilità e anche con formato al blog .
    è che questo pagato un argomento o hai modificare è te ?
    Comunque tenere il eccellente qualità scrittura , è rare vedere a grande blog come questo questi giorni ..

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