Talento
17 Jun 2012

Talento

A história começa, exprime, revela e resume-se numa única palavra: talento. Talento que personaliza e identifica Cabo Verde, transportando a sua identidade além fronteiras, sem limites geográficos, de forma intangível e sem cor.

De Cesária Évora muito se fala: dos momentos, das virtudes e das vicissitudes que a vida lhe reservou, no entanto, o que prevalece é o reconhecimento da genialidade que, através da sua voz, expressou por cada um de nós, um pouco dos nossos sentimentos.

Neste editorial, tocado pelos excertos de magníficas e eloquentes interpretações com que cantou e encantou, presto a minha reconhecida homenagem.

Interpretações como “Sodade”, onde deixa evidente a forte ligação à terra e à sempre omnipresente distância que separa os cabo-verdianos da mãe-pátria; “É Doce Morrer no Mar”, onde exprime esse sentimento repartido pelo mar que liberta, une e alimenta, mas que ao mesmo tempo, pela força da natureza, também mata; “África Nossa” e a necessidade de uma maior consciencialização em se transformar num continente pleno de bem-estar e prosperidade: “Regresso” onde traduz a esperança de ver Cabo Verde farto em alimentos, embelezado pelo verde da abundância, fazendo assim jus ao seu nome. “Crepuscular Solidão”, revendo a falta de amor e felicidade, onde mesmo vivendo banhados de multidões, a solidão é o denominador comum. Enfim, julgo que não seria fastidioso continuar a desenrolar mais interpretações cantadas pela Rainha da Morna, todas elas de alcance profundo e forte cariz existencial, em cujos compositores, fruto desse talento raro em Cabo Verde e no mundo, confiaram. Para nós, fica a sua voz profunda e ímpar, que nos delicia e regozija.

São Vicente, a sua terra, ilha de muitos dos talentos da cultura cabo-verdiana, não chora por Cize, mas aplaude-a e agradece-lhe com um “até sempre”.

E porque esta era a forma de Cesária Évora encarar e se relacionar com a vida, termino com um texto universal em crioulo, que expressa singularmente todas as suas convicções e desejos:

Túdu alguém tá nascé livrí í iguál nâ dignidád cú nâ dirêtus. Ês ê dotádu cú razõ í cú “consciência”, í ês devê agi pâ cumpanhêru cú sprítu dí fraternidádi.


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