Rosalina Barreto: Trinta anos a contar a história da Cidade Velha
01 Jan 2012

Rosalina Barreto: Trinta anos a contar a história da Cidade Velha

Quem visitar pela primeira vez a Cidade Velha, na ilha de Santiago, certamente se irá cruzar com uma das suas figuras mais emblemáticas e marcantes. Rosalina Barreto, pessoa querida da Ribeira Grande, é o testemunho vivo das mudanças que a cidade tem vindo a registar ao longo dos últimos anos.

Rosalina Barreto, cedo despontou para as dificuldades que atormentaram os habitantes da Cidade Velha. Da sua juventude, recorda uma cidade totalmente diferente da atual, onde “haviam muitos edifícios religiosos, campos verdejantes e árvores de fruto. Havia muitas laranjeiras, coqueiros e mangueiras. Havia muita cana, com a qual se fazia grogue e açúcar”, refere.

 Idalina Barreto 4  Antigamente chovia muito e, conforme relembra, “era tudo muito vistoso. Depois, com a chuva cada vez mais rara, tudo se alterou. Atualmente a população também é em menor número, pois os recursos não chegam para muitas pessoas. Se antigamente se podia viver apenas da agricultura e da pesca, hoje em dia, tal é mais difícil”, diz.

Com uma nostalgia na voz, Rosalina Barreto recorda-se que “antigamente tudo era mais  alegre.  Todos os dias se comia cachupa com peixe, e uma vez por outra, lá vinha a cachupa com carne, principalmente nos dias de festa. De manhã fazíamos cuscuz para o pequeno almoço. Por vezes havia leite de cabra ou vaca. Ao meio-dia, depois da escola, comíamos feijão cozinhado com couves e com cana. A gordura era o óleo de coco”, e acrescenta que “apesar de tudo, naquela altura havia saúde, coisa que agora não existe”.

As festas que se realizavam na cidade, eram um momento de grande alegria para o povo da Ribeira Grande. Foi durante estas festas da Cidade Velha que Rosalina Barreto conheceu o batuque. “Começávamos a ensaiar uma semana antes de a festa começar.” No entanto, conforme nos confidencia, “no tempo dos portugueses, eles impuseram que não podia haver o batuque – “Desliga o batuque” – diziam eles. E pronto, acabaram por o proibir. Era uma proibição do regime português, mas, acima de tudo era uma proibição dos padres que tinham vindo de Portugal.” Conforme nos relata, “eles diziam que era pecado e o governo, que não queria confusão com a Igreja, lá nos dizia que também era pecado [risos]. Mas isso só acontecia aqui em Santiago. Nas outras ilhas podia-se dançar, que não havia proibição”.

Apesar destas contrariedades, desde muito jovem que Rosalina Barreto foi devota à Igreja. Tal fervor valeu-lhe a total confiança do Padre Campos, que, há 36 anos lhe confia a chave da igreja local, e diz com grande orgulho, que “é uma tarefa que apenas se pode atribuir a quem realmente é de confiança”.

Idalina Barreto 2Criou onze filhos sozinha, sem nunca ter baixado os braços perante as adversidades da vida. Como forma de conseguir um trabalho onde pudesse ganhar mais algum do sustento para a família, já depois da Independência, Rosalina Barreto matricula-se na escola da cidade da Praia, onde, conforme relembra, “o senhor Calú ensinava os mais velhos”.

Após concluir o ensino, foi trabalhar para o Estado. “O meu trabalho foi cuidar da Cidade Velha, da sua manutenção, por forma a estar sempre bonita para quem nos visitava. Depois trabalhei como guia onde pude transmitir aos turistas alguma da história que faz da cidade uma das referências culturais de Cabo Verde”, atividade que ainda hoje mantém e da qual muito se orgulha.

Ao visitar a Cidade Velha, procure por Rosalina Barreto e aprecie as suas histórias, pois como ela mesmo nos diz “já há poucos a contar a história do nosso povo, pois com a emigração, apenas sobram alguns capazes de transmitir o conhecimento que foi passando de avós para pais, e destes para os mais jovens”.


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Comentários

  1. missa da moura Diz: Janeiro 17, 2012 at 4:44 pm

    C’est une chance d’avoir une personne qui puisse nous raconter l’histoire  de cette région tellement belle, je suis nostagique de cette terre ou j’ai passée mon enfance, et la rédecouvrir à travers elle. Il me viens a l’esprit une atmosphère de calme, et de bonheur. CIDADE VELHA” forti sodadi”
    Missa Da Moura

  2. Ela e uma senhora extremamente inteligente  e culta. Estive em cabo verde de ferias no ano passado no mes de agosto e fui visitar cidade velha como sempre faco nas minhas ida a caboverde. Esta senhora nos contou muitas estorias sobre cidade velha inclusivo que a igreja de cidade velha e a primeira  da Africa. tenho muito respeito e carrinho por ela.. Que deus lhe abencoe sempre..

    Sandra
    USA

  3. Pedro Matos Diz: Janeiro 1, 2012 at 12:28 pm

    Preservar o património deve ser uma das preocupações de cada país.

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