“O associativismo é fundamental para o futuro do artesanato nacional”
16 Jun 2012

“O associativismo é fundamental para o futuro do artesanato nacional”

Albertino Silva, artesão do Mindelo, desde criança que, com o pai e os irmãos, adquiriu habilidades com ferramentas, através da experimentação sobre diversos materiais. De espírito livre e criativo, considera-se um homem satisfeito com o reconhecimento que as pessoas demonstram pelo seu trabalho.

Estudou mecânica na Escola Industrial e Comercial do Mindelo, mas o gosto e o fascínio pelos trabalhos manuais, levaram-no a frequentar várias acções de formação em artesanato. A vontade de aprofundar os seus conhecimentos, fez com que fosse dos primeiros a frequentar o curso de Artesanato Contemporâneo em Pedra, ministrado no Mindelo. No entanto, nutre igualmente um fascínio muito especial por outros materiais, nomeadamente o metal e a reciclagem artística de calçado. Foi precisamente com trabalhos executados sobre sapatos velhos, que Albertino Silva passou a ser mais conhecido em Cabo Verde. Actualmente, é com alguma mágoa que verifica que, desse primeiro grupo de artesãos que concluíram o curso, é o único que continua a exercer a actividade e que faz dela a sua forma de vida.

Albertino Silva _2_Nos Genti

As dificuldades que os artesãos sentem em vender as suas obras, é talvez um dos factores para o reduzido número de profissionais da classe. Albertino Silva considera-se no entanto uma excepção à regra, pois consegue viver exclusivamente da sua arte. No entanto, também admite que sempre que necessita de complementar o seu rendimento, tem, por vezes, que recorrer a outros trabalhos artísticos ao nível da construção civil, nomeadamente com a produção de balcões de cozinha em pedra. Tal como relata, “estas dificuldades não são fruto da indiferença das pessoas, antes pelo contrário; as pessoas admiram e valorizam muito o meu trabalho, mas o certo é que há actualmente uma crise económica instalada, o que faz com que as pessoas com menos recursos, tenham que dar prioridade a outras coisas mais imediatas”, desabafa.

No que se refere a apoios oficiais à divulgação e desenvolvimento da actividade, estão a ser dados agora os primeiros passos, nomeadamente ao nível do Ministério da Cultura, o qual se mostra sensível à organização da classe, por forma a facilitar a sua promoção, quer a nível nacional, quer internacionalmente. Recentemente, o Ministério organizou um Fórum do Artesanato em São Vicente, precisamente para motivar o associativismo entre artesãos, e assim facilitar a defesa dos interesses do grupo. Também ficou prometido um Centro de Artesanato para a divulgação dos trabalhos dos vários artesãos que trabalham na ilha. No entanto, conforme diz Albertino Silva, “ainda há alguma indiferença por parte de alguns organismos oficiais, e a prova disso, é que, por exemplo, se entrarmos num qualquer gabinete de uma Câmara Municipal, é raríssimo encontrarmos peças de artesanato local, o que é uma pena”.

O certo é que muitas das peças produzidas pelos artesãos de São Vicente, acabam por ser adquiridas por estrangeiros, que reconhecem o mérito e a singularidade do seu trabalho. Conforme nos relata o artesão, “a falta de divulgação, é talvez o principal motivo para a fraca expressividade do

nosso artesanato além fronteiras”, e dá um exemplo de como com um pouco de promoção, as coisas poderiam ser diferentes, pois conforme conta, “na Feira de Arte Contemporânea em Madrid, onde tive oportunidade de expor, apresentei o trabalho dos sapatos, o que chamou a atenção de muitos galeristas internacionais que visitavam a exposição, e através desses contactos, enviei muitas peças para França, Itália, Holanda e outros países da Europa”. Embora não seja uma actividade de larga escala, é talvez uma boa referência para o potencial do artesanato cabo-verdiano além fronteiras.

Albertino Silva _4_Nos GentiAlbertino Silva aponta a falta de interligação entre as várias expressões artísticas em São Vicente, como um dos factores para o não aproveitamento de algumas oportunidades existentes, as quais, conforme refere, “com apenas alguma coordenação, poderiam ser uma mais-valia para todos os artistas da ilha e até mesmo do arquipélago”, e aponta o caso concreto do Festival da Baía das Gatas, ”que é o exemplo mais evidente da desarticulação entre promotores culturais e artistas, pois trata-se de um evento cultural, que trás a Cabo Verde, e em particular a São Vicente, milhares de pessoas sensíveis a todos os géneros de arte e que poderia ser uma excelente oportunidade para os artesãos mostrarem os seus trabalhos. Há uma notória falta de articulação por parte dos organizadores, pois saíamos  todos a ganhar”, e acrescenta que “sendo os recursos escassos, todas as oportunidades deveriam ser aproveitadas – é apenas uma questão de conjugar interesses em prol do desenvolvimento de São Vicente e de Cabo Verde.”

Para o artesão, o associativismo é a chave para impulsionar e desenvolver a actividade. Na sua opinião, “o grande problema dos artistas, incluindo os artesãos, é que cada um fica no seu canto. Seria importante que houvesse mais intercâmbio de ideias, de experiências, por forma a que se pudessem partilhar técnicas e estratégias de divulgação e promoção conjuntas”, e conclui dizendo que “o associativismo é fundamental para o futuro do artesanato nacional”.

Em relação ao futuro da actividade e da classe, Albertino Silva está bastante optimista, pois como ele mesmo diz, “depois dos encontros com o Ministério da Cultura e a Câmara Municipal do Mindelo; com os projectos turísticos que o país está a promover; com os programas de intercâmbio cultural que o Estado celebrou – um dos quais permite, desde já,  a distribuição dos nossos produtos, por exemplo, nos Estados Unidos – e com o empenho dos artesãos em se associarem, permitindo assim a coesão da classe, o artesanato cabo-verdiano tem grandes possibilidades de crescimento, contribuindo de forma efectiva para a economia nacional, e, acima de tudo, tornar-se um veículo privilegiado na divulgação da cultura de Cabo Verde”.


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