Natalina Fonseca — Professora por vocação, católica por convicção
16 Ago 2016

Natalina Fonseca — Professora por vocação, católica por convicção

Natalina Maximiano Fonseca é natural da Ribeira Brava, em São Nicolau. Durante 37 anos foi professora na vila. O gosto que sempre teve pelo ensino, fez com que muitas das centenas de crianças que passaram na sua sala de aula sejam hoje pessoas mais instruídas, humanas e interventivas. Com o marido emigrado na Holanda, repartiu-se entre o ensino e a educação dos seus cinco filhos. Atualmente, já aposentada, vive com o marido uma vida dedicada ao apoio social e à vida religiosa. 

 

Todos a tratam por professora. Durante 37 anos, Natalina Fonseca viveu intensamente o ensino. Por ela passaram centenas de crianças que, ainda hoje, lhe prestam homenagem pelo reconhecimento da sua dedicação a ensinar os mais novos.

Como foi o seu percurso pelo ensino?

Comecei a trabalhar em 1970. Nessa altura trabalhei como monitora escolar. Desde criança que tinha o sonho de um dia poder vir a ser professora. Devido às muitas dificuldades económicas dos meus pais, não consegui fazer um curso que me permitisse lecionar. Mas o sonho permaneceu e, depois de me ter casado, fizeram-me o convite para ser monitora escolar. Então, agarrei a oportunidade e, simultaneamente, fui estudando. Uns anos mais tarde, consegui concluir o segundo ano do liceu. Como trabalhava por vocação e gosto, empenhei-me ao máximo. Continuei os estudos mas, devido à vida familiar – já com filhos – não consegui concluir o quinto ano.

O meu gosto pelo ensino fez-me dar o meu melhor. Sempre gostei muito de crianças e, por isso mesmo, sempre procurei ensinar-lhes o que achava conveniente para o seu futuro.

O que sente ao ver muitos dos seus antigos alunos em cargos de grande responsabilidade na vida social do país?

Sinto-me feliz ao ver muitos dos meus antigos alunos formados e bem na vida. É uma satisfação poder constatar que muitos dos meus ensinamentos estão na base da formação das suas personalidades. Há aqueles que deixam marcas, até porque muitos, ainda hoje quando passam por mim, tratam-me por “professora”, e esse respeito e carinho que demonstram é transversal a diversas gerações. Sinto-me grata por ter abraçado a vocação de ensinar e, dessa forma, realizado o sonho da minha vida.

Além do ensino, a religião e a fé também ocuparam e ainda ocupam um papel importante na sua vida. Como começou esse seu interesse pela Igreja?

Nasci de pais católicos o que fez com que, durante toda a minha adolescência, tenha frequentado a Igreja. Desde muito cedo fui cantora na igreja. Tinha dez anos de idade quando integrei o coro da igreja da Ribeira Brava. A partir dessa altura, fiz todos os sacramentos que me eram permitidos: fui batizada, fiz a primeira comunhão, recebi o crisma e casei-me pela igreja. Desde que me conheço que a igreja sempre teve um papel fundamental na minha vida e, como tal, sempre que tive oportunidade, ajudei a igreja. Primeiro no grupo coral, ainda no tempo dos padres Salesianos e, depois, já com a presença dos padres capuchinhos, continuei a colaborar. Fiz ainda um curso bíblico que me permitiu ser, durante muitos anos, catequista aqui na Ribeira Brava. Atualmente, continuo a fazer parte de um grupo coral que atua na igreja. Preparo os cânticos e as leituras. É algo que me dá alegria e equilíbrio emocional.

 

São Nicolau - Cabo Verde

 

Os seus filhos estão todos emigrados. Como foi criá-los, ter de vê-los partir e, de um momento para o outro, passar de uma família numerosa para ficar apenas a senhora e o seu marido? 

Foi uma luta. O meu marido emigrou em 1964 e eu fiquei sozinha com os nossos filhos. Consegui educá-los e, atualmente, à exceção da minha primeira filha, que casou bastante cedo, todos estão formados. Orgulho-me de todos eles estarem bem na vida. Foram 31 anos a criar os meus filhos sem a presença do pai, apenas com a ajuda de Deus.

Atualmente, de todos os meus filhos, apenas um está em Cabo Verde, mas quase todos os dias nos comunicamos. Com todos os meios de comunicação que hoje existem, agora é mais fácil suportar a distância. Antigamente, nos primeiros anos em que o meu marido emigrou, não havia telefone. Comunicávamos por carta e nem sempre era fácil obtermos notícias. Vivíamos na expectativa de receber aquela carta que nos iria tranquilizar durante uns tempos. Depois, com o telefone, as coisas ficaram mais fáceis. Podíamos falar regularmente. Atualmente, com as novas tecnologias, podemos estar em permanente contacto, o que acaba por minimizar muito as saudades.

Há alguma tristeza por os ter longe, mas sei que é a forma de eles poderem estar bem, por isso, apesar da tristeza, sabendo-os bem, também eu fico bem.

E quando apertam as saudades?
Tenho aqui as fotografias de todos eles. A primeira coisa que faço quando acordo é falar com eles. Sinto-os perto de mim e isso tranquiliza-me e descansa-me durante o resto dia.

 

Natalina Fonseca

 

Alguma vez pensou em emigrar e juntar-se ao seu marido?

O meu primeiro filho nasceu em 1962 e, naquele tempo, era difícil sairmos de Cabo Verde e tentar a sorte noutros locais. Os meus pais também já tinham alguma idade e necessitavam de apoio. Apesar de sermos sete filhos, só eu é que vivia em São Nicolau, perto deles. Todos os meus irmãos, à exceção de um que vivia na Praia, estavam emigrados fora do país. Depois, aqui fazia o que mais gostava, que era ensinar, como tal, fiquei por cá. Nunca tive o impulso de ir para a Holanda, que era onde estava o meu marido. Apesar das dificuldades de ter de criar os filhos sozinha, preferi ficar.

Se tivesse que comparar Cabo Verde antes da independência com o Cabo Verde atual, o que destacaria?

Vivíamos sobre um regime colonial que não nos permitia grandes evoluções. Com a independência, Cabo Verde e os cabo-verdianos mudaram muito. Cabo Verde progrediu bastante e os cabo-verdianos conseguiram níveis de vida inimagináveis no tempo colonial. A independência é um ganho a que as novas gerações têm que dar valor, pois só quem viveu o período colonial pode atestar os ganhos que foram alcançados com a independência do país.

Que mensagem deixaria aos sanicolauenses, em especial aos mais jovens?

Sou uma pessoa otimista. Costumo pedir às pessoas para terem calma e paciência porque a vida nem sempre é fácil. Há preocupações, desigualdades e contrariedades. Nem todos têm os mesmos recursos e nem todos têm as mesmas oportunidades, mas isso não deve desmotivar os que anseiam por viver os seus sonhos. Por isso, é necessário coragem, calma e perseverança na perseguição dos sonhos, pois, com trabalho, confiança e tenacidade, mais tarde ou mais cedo esses sonhos serão concretizados.


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