Monteiro Pinto – O papel da banca na alavancagem da economia nacional
31 Dez 2012

Monteiro Pinto – O papel da banca na alavancagem da economia nacional

Monteiro Pinto

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Manuel Fernando Monteiro Pinto, iniciou funções no Banco Interatlântico a 30 de novembro de 2007, após uma experiência de cinco anos à frente dos destinos do Banco Internacional de São Tomé e Príncipe. Alto quadro da Caixa Geral de Depósitos, Manuel Monteiro Pinto foi, durante catorze anos, auditor responsável pela rede comercial da CGD. Com 54 anos de idade, 33 dos quais ligados ao setor financeiro, Manuel Fernando Monteiro Pinto é um dos administradores mais experientes da banca nacional. 

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O Banco Interatlântico tem origem na passagem da ex – Sucursal da Caixa Geral de Depósitos (CGD) a banco de direito cabo-verdiano. Estávamos em 1998 quando a CGD abriu uma sucursal em Cabo Verde. Um ano após iniciar atividade, esta Sucursal passa a banco de direito cabo-verdiano. Tal permitiu que o então recente Banco Interatlântico (BI), em consórcio com a própria Caixa Geral de Depósitos, concorresse às principais privatizações do sistema financeiro nacional. Desta forma, o BI, conjuntamente com o seu acionista maioritário – a Caixa Geral de Depósitos em Portugal – é acionista, numa componente não divisível e de acordo com a Lei das Privatizações da altura, do BCA  – Banco Comercial do Atlântico – como da maior companhia de seguros cabo-verdiana, a Garantia. Mantendo 70% do capital social, a CGD convidou e permitiu que um conjunto de empresários privados cabo-verdianos tomasse parte do projeto. Deste essa altura, o Banco Interatlântico tem procurado especializar-se em dois segmentos essenciais: o segmento empresarial, servindo não só como agente financeiro para algumas operações de financiamento em Cabo Verde, como também adviser de investidores internos e externos relativamente a alguns projetos de investimento. Mesmo sendo um banco pequeno, tem promovido um conjunto de empréstimos sindicados, principalmente dentro do grupo CGD, de algum relevo.

Conforme refere Manuel Monteiro Pinto, “com a especialização para o segmento empresarial, também se criou alguma especialização de banca de proximidade com os segmentos de classe média e média-alta, de forma a que estes clientes pudessem rentabilizar da melhor forma, dentro do mercado cabo-verdiano, as suas poupanças. Nessas áreas temos uma quota de mercado que é superior à nossa cota de mercado média, que atualmente se situa em cerca 14% de quota geral do sistema bancário cabo-verdiano”. Contudo, com a atual crise económica e financeira mundial, essa situação alterou-se um pouco. Conforme explica o administrador, “até há dois anos, o BI era um banco em que os depósitos das empresas eram superiores aos depósitos dos particulares, o que mostra bem o âmbito da segmentação que tínhamos feito e que não é uma situação muito comum na banca de retalho.”

O Banco Interatlântico é atualmente o terceiro banco do mercado, apesar de apenas possuir nove agências e mais duas unidades de segmentação. “Estamos presentes em cerca de 85% do território nacional no que se refere ao Produto Interno Bruto, isto é, estamos presentes em apenas quatro ilhas, nomeadamente a ilha do Sal, de Santiago, da Boa Vista e São Vicente, que no seu conjunto representam 85% do PIB total do país. No entanto, esta estratégia permitiu-nos alcançar um maior volume de negócios por empregado que a média do mercado, com custos administrativos por empregado também inferiores à media do setor em Cabo Verde”, refere Monteiro Pinto.

O panorama atual dos bancos em Cabo Verde

O sistema bancário em Cabo Verde evoluiu muito nestes últimos anos, no entanto, conforme diz Monteiro Pinto, “o mercado cabo-verdiano é um mercado pequeno e mesmo ao nível do sistema financeiro internacional é considerado um micro mercado onde os bancos do País são considerados micro bancos, por isso temos de ter a noção que, por motivos que são exógenos à própria rentabilidade do sistema financeiro, Cabo Verde, ao possuir oito bancos comerciais, não permite elevadas rentabilidades”, e dá como termo de comparação o facto de que estes oito bancos comerciais representariam várias centenas ou mesmo milhares de Bancos em países de outra dimensão económica e monetária, o que quer dizer que, neste momento, poderá haver uma certa tendência para uma sobrebancarização em Cabo Verde caso se pondere o mercado em termos de rendimento per capita”.

Para o administrador do Banco Interatlântico, “é quase um milagre a qualidade dos serviços bancários que existem em Cabo Verde com estas baixas rentabilidades. Se a isto juntarmos alguns fatores, nomeadamente o cumprimento – pelo menos no nosso caso – de um conjunto de regras prudenciais muito restritivas a que o Grupo CGD também em Cabo Verde está obrigado, faz com que a rentabilidade média por empregado tenha descido nos últimos anos. As rentabilidades médias em Cabo Verde são muito mais baixas, quando comparadas com as rentabilidades médias padrão internacionais.”

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Apesar destas baixas rentabilidades, existe um conjunto de critérios de gestão por parte dos bancos nacionais que tendem a não repercutir no cliente os custos desta fraca rentabilidade, caso contrário, conforme diz Manuel Pinto, “o pricing dispararia, o que o tornaria incomportável para uma grande parte dos clientes. Isto é uma limitação ao crescimento da rentabilidade do sistema bancário cabo-verdiano”, afirma. Apesar destas limitações, existem ainda oportunidades, essencialmente com a eventual possibilidade de crescimento do Produto Interno Bruto cabo-verdiano e do alargamento e melhoria da oferta turística atual, pois segundo o gestor, “em outras atividades empresariais existem outras limitações, nomeadamente em termos de custos de contexto e enquanto se mantiverem as atuais condições, torna-se difícil perspetivar uma desejável industrialização de Cabo Verde em termos competitivos.”

De acordo com os modelos do Banco Mundial e do Banco de Cabo Verde, os testes de stress à banca nacional têm mostrado que existe um elevado potencial de resiliência por parte do setor. Contudo, Manuel Pinto é categórico ao afirmar que, “existem problemas, à semelhança da maior parte do bancos em todo o mundo, pois efetivamente a crise económica e financeira mundial é internacional e atinge todos os mercados. Apesar da situação geral, no meio desta crise Cabo Verde tem um aspeto positivo: tendo um rendimento per capita tão baixo como o que revela, mesmo que hajam variações em baixa nesse rendimento, nunca serão muito significativas, isto é, nunca haverá uma queda muito grande do rendimento, o que quer dizer que, do ponto de vista da população, o impacto nunca será tão grande como noutros destinos.”

O impacto do setor imobiliário na atividade bancária nacional

Relativamente às carteiras dos bancos, observa-se um forte impacto ao nível do setor imobiliário, registando-se mesmo situações de incumprimento que penalizam neste momento a rentabilidade dos bancos e a sua capacidade de apoio ao reinvestimento. No entanto, Manuel Pinto é otimista, ao afirmar que “dentro da crise desse setor, regista-se uma certa margem que nos permite ter alguma esperança em voltar a colocar no mercado alguns dos projetos que atualmente estão suspensos e mesmo em incumprimento perante a banca, já que muitos deles estão localizados em duas ilhas que mostram ter capacidade de captar ainda um grande número de turistas e de investimento, como é o caso do Sal e da Boa Vista.”

Tal como já acontece noutras partes do mundo, o apoio por parte da banca ao investimento em imobiliário, terá, no futuro, fortes restrições e maiores níveis de exigência de capitais próprios. Conforme diz o administrador, “a economia cabo-verdiana atualmente ainda não possui capacidade para, só por si, financiar grandes quantidades de investimento na área turística: precisa do apoio em termos de IDE – investimento directo estrangeiro. Há ainda um projeto governamental louvável, que é o programa Casa para Todos, que irá retirar algum espaço ao mercado imobiliário privado. Daí que a actual tendência dos nossos clientes investidores seja na aposta na hotelaria para exploração direta, em vez do investimento imobiliário para consumo interno e mesmo de imobiliária turística. Pensamos mesmo que alguns projetos de imobiliária turística terão forçosamente que ser reconvertidos em exploração hoteleira para poderem ser rentabilizados no futuro.” Conforme argumenta, “a indústria do lazer continua em crescimento a nível mundial e o turismo é um subsetor desta indústria. Mesmo em crise, esta indústria contínua em crescimento em termos de mercado global. Como tal, com o desenvolvimento da qualidade de vida e com o aumento do rendimento per capita de alguns mercados que normalmente não são emissores de fluxos turísticos, mesmo com a baixa de rendimento de alguns mercados tradicionais tendencialmente emissores, tais como a Europa ou a América do Norte, não é de esperar uma diminuição significativa da procura turística. O que pode haver é uma procura por destinos mais baratos. Se a este fator juntarmos a tendência do aumento do preço do petróleo, que torna os destinos mais longínquos inevitavelmente mais caros, Cabo Verde pode continuar a ser, durante bastante tempo, um destino concorrencial desde que se mantenha o bom senso de não colocar em cima da atividade turística um conjunto de custos de contexto acima do desejável que venham a diminuir a capacidade concorrencial do país na área do turismo”, afirma.

A queda das receitas da banca

Apesar do crescimento da atividade bancária, alguns indicadores revelam que as taxas de rentabilidade do setor são menores. Este aparente contrassenso deve-se essencialmente, segundo Manuel Monteiro Pinto, à diminuição da margem financeira por incumprimento e aos custos de imparidade e provisionamento que isso acarreta. “Há duas componentes: por um lado, parte dos nossos recursos são desviados para a cobertura prudencial dos créditos que estão em incumprimento. Tal procedimento acarreta custos que diminuem a rentabilidade direta, pois esses empréstimos que estão em incumprimento não estão a gerar proveitos”.

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Para o gestor bancário, o abrandamento do crédito que se tem registado em Cabo Verde, tem essencialmente a ver com questões de estratégia da própria banca, pois conforme explica, “a economia cabo-verdiana pode estar algo sobreaquecida com o crédito bancário e convém esperar por um conjunto de outros indicadores que permitam ter uma visão mais positiva sobre o seu crescimento, por forma a que, efetivamente, a banca auxilie o seu crescimento e não o contrário.”

O mercado de Cabo Verde, durante muitos anos, foi excedentário de liquidez em que os custos do funding, na sua componente dos depósitos, eram extremamente baratos. Com a falta de investimento direto estrangeiro que se começou a se sentir a partir de 2010, não chegam fundos suficientes ao sistema financeiro cabo-verdiano que permitam aos bancos que cumpram os critérios prudenciais, alavancar a economia apenas pelo aumento do crédito. Segundo Monteiro Pinto “este é um dos motivos para que a carteira não cresça como anteriormente”, e adianta que, “se ao mesmo tempo tivermos em conta que quanto menos dinheiro houver no sistema mais caro ele é, pois as taxas efetivas de depósitos a prazo têm vindo a aumentar nos últimos anos, obviamente que por aí também há uma diminuição considerável da margem financeira dos bancos.”

A concessão de crédito em Cabo Verde

Em relação aos principais fatores que fragilizam o crédito em Cabo Verde, Manuel Monteiro Pinto é taxativo, afirmando que, “há fatores que não dependem da banca, nomeadamente as reservas mínimas de caixa que o Banco de Cabo Verde fixa em 18% mas, temos que acreditar na gestão monetária que lhe está subjacente. Paralelamente, temos de analisar o que é, efetivamente, um empréstimo. Um empréstimo, se for dado com bom senso, não é mais que a antecipação de rendimentos futuros. Não se prevendo rendimentos futuros palpáveis, independentemente das garantias, não será de bom senso os bancos – que trabalham essencialmente com o dinheiro dos seus depositantes – correrem riscos acima da média, pois tal função não cabe aos bancos. Poderá caber eventualmente às sociedades de capital de risco, mas os bancos como garante dos depósitos dos seus clientes, deverão ter uma atitude muito prudencial evitando estarem a aumentar o risco da sua carteira de crédito para além dos limites que a diferença de taxas de juro permite”, e continua expondo que, “na sua essência, um banco é um tomador de risco. Embora hoje em dia hajam exemplos que o contradigam, os bancos deviam ser entidades sem riscos para os depositantes, assumindo o risco quando fazem empréstimos. Está provado que não é pelos bancos praticarem taxas de juros maiores que o risco de crédito diminui ou que os bancos estão mais bem cobertos em termos de risco de crédito, pois este risco tenderá sempre a crescer a um nível muito superior à subida das próprias taxas de juro. O exemplo pratico é o dado por aquele cliente que pensa não pagar o crédito. Este cliente não se importa com a taxa de juro. Aceita qualquer taxa de juro, pois sabe de antemão que não vai pagar o crédito.” Relativamente ao risco da taxa de juro, o administrador é da opinião que a mesma tem a ver com as eventuais necessidades de se cobrirem fatores económicos, que atualmente não estão previstos, mas que poderão acontecer e aponta o exemplo teórico de se por qualquer motivo, o acordo cambial em relação ao Euro eventualmente acabasse, “era possível que as taxas de juro em Cabo Verde subissem exponencialmente, até porque se iria refletir um fator que não se tem verificado totalmente nas taxas de juro do mercado interno, que é o chamado Risco de País. Se é verdade que a dívida pública cabo-verdiana se situa, em termos de taxas de juro, em níveis bastante razoáveis, tendencialmente abaixo dos 6% para a dívida interna, o que é certo é que não temos indicadores de dívida externa, pois Cabo Verde não tem tido necessidade de ir aos mercados financiar-se. O país tem-se financiado através de operações muito específicas, com a proteção de países terceiros, que efetivamente não correspondem às verdadeiras condições de mercado e não tenho informação suficiente que permita antecipar os níveis de taxas de juro que o mercado aceitaria para financiar Cabo Verde”, diz.

O refinanciamento da banca nacional

Uma possibilidade de se injetar liquidez no mercado financeiro cabo-verdiano seria através do refinanciamento dos bancos. Contudo, segundo explica o gestor, “o Banco Interatlântico nesse aspeto não é exemplo, uma vez que possui uma casa-mãe em Portugal que, em caso de necessidade, nos permite obter custos de refinanciamento extremamente competitivos. Neste momento nem estamos a utilizar essa facilidade, o que quer dizer que, em termos de liquidez, estamos numa posição relativamente folgada. No entanto, já fizemos algumas abordagens para nos financiarmos no mercado. Fomos o primeiro banco e a primeira entidade ao nível nacional a introduzir no mercado a dívida subordinada. Concretizámos esta operação em 2008 numa altura em que ninguém acreditava que tal fosse possível. Nesta altura quase todos os bancos possuem dívida subordinada (atualmente o B.I. paga uma taxa de 6%) e que foi facilmente toda colocada. Hoje temos dúvidas se a colocação seria novamente tão fácil como foi em 2008, uma vez que a liquidez não é tão grande como na altura o era.”

O Banco Interatlântico tem feito alguns testes junto de entidades refinanciadoras internacionais, onde para um prazo de cinco anos oferecem taxas em torno dos 6%, no entanto, conforme diz, “estas taxas não refletem as condições reais do mercado, porque continuamos a ter a mão do nosso maior acionista que é a Caixa Geral de Depósitos e que permite, junto a essas entidades financiadoras externas, que nos considerem com um nível de risco inferior aquele que seria normal numa entidade cabo-verdiana que não tivesse este tipo de estrutura acionista, por isso mesmo, este estudo que fizemos para saber que taxas poderíamos obter no mercado internacional, não pode ser considerado como referência para todos os outros bancos.”

O atual crescimento dos depósitos a prazo

Dados recentes do Banco de Cabo Verde, revelam que se verifica atualmente um crescimento das contas de depósito a prazo e uma retração nas contas à ordem. Segundo Manuel Monteiro Pinto, esta situação explica-se pelo facto de “na componente de depósitos e ao nível de particulares, há um peso muito grande de emigrantes cabo-verdianos que essencialmente fazem poupança e que querem ver esta poupança rentabilizada. O funding que era originado pelos depósitos à ordem tinha um peso muito grande nas empresas e em alguns particulares. Conforme as restrições económicas vão surgindo, a tesouraria das empresas e dos particulares diminui. Ora, os depósitos à ordem são tesouraria: o resto é o chamado “investimento”. O que se está a verificar é que alguns depósitos a prazo de empresas estão a servir de colateral para algumas operações, inclusivamente de entidades não residentes, uma vez que há algumas dessas empresas que têm dificuldades em oferecer outro tipo de garantias”. Além disso, como as taxas dos depósitos a prazo têm subido e a sofisticação do mercado em termos de oferta de condições também tem melhorado, é natural que haja uma tendência para que o aforro, tanto das famílias como das empresas, seja mais bem rentabilizado e colocado em depósitos a prazo. No entanto, o administrador alerta para o facto de que “na sua globalidade, os depósitos têm crescido nos últimos anos a taxas que são muito idênticas à taxa de remuneração dos seus próprios depósitos, o que, às taxas atuais, que são de cerca de 4%, estamos perante um crescimento de tendência zero em termos reais, pois a evolução da carteira corresponde quase ao fator de capitalização e é isso que o mercado tem de acautelar.”

Sobre as remessas dos emigrantes, Manuel Pinto é da opinião que, atualmente, “há transferências dos emigrantes que não se refletem nos depósitos, pois, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística e do Banco de Cabo Verde, estas têm crescido muito mais que os depósitos. Tal quer dizer que, as transferências chegam a Cabo Verde, mas não são totalmente convertidas em depósitos, ou seja, o que cresce são os fluxos, mas não cresce a reserva (“stock”), o que o mesmo é dizer que grande parte dos fluxos são para o consumo e para a tesouraria de empresas e particulares.”

O papel da banca no financiamento de investimentos públicos

“Se juntarmos todos os capitais próprios de toda a banca onshore cabo-verdiana e depois aplicarmos os rácios e as regras prudenciais em vigor, que estipulam que não se pode emprestar a um único cliente mais de 25% dos capitais próprios, vemos que existem empreendimentos em Cabo Verde que exigem um esforço de financiamento muito superior àquilo que todos os bancos juntos podiam fazê-lo”, afirma Monteiro Pinto.

Em Cabo Verde há investimento público que é financiado por meio de entidades privadas ou transnacionais, através de empréstimos concessionais. Nestas situações, o Estado trabalha por forma que sejam algumas entidades privadas a obter o financiamento de tesouraria que, numa fase posterior, será pago através de outro financiamento concessional ao próprio Estado. Nestas situações, a banca assume um papel primordial, pois as empresas que precisam de se financiar para a execução destas obras públicas, necessitam de recorrer ao setor bancário nacional de forma a poderem avançar com as obras enquanto esperam os pagamentos em função dos contratos que efetuam.

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Relativamente ao investimento direto público, parte significativa é financiado através da emissão de dívida pública interna. A título de exemplo, Monteiro Pinto lembra que, “em 2011 já demonstrámos à tutela a nossa disponibilidade para que a dívida pública possa ser instrumentalizada através da bolsa de valores, para que os bancos possam ter uma maior colaboração na colocação da dívida pública, até como substituição dos depósitos, junto dos pequenos aforradores” e conclui que, “tal iria obrigar a que a dívida pública ficasse sujeita a variações de mercado em termos de pricing, o que faria com que a formalização de preços de mercado fosse muito positivo”, no entanto, Manuel Pinto também reconhece que, “para um pequeno Estado como Cabo Verde, é perfeitamente legítimo que se pretenda manter algumas restrições em relação à liquidez em mercado aberto da dívida pública para se evitar fenómenos de potencial especulação que são de todo indesejados.”

É por este motivo que o financiamento público tem sido feito essencialmente com recurso à dívida interna, com a colocação de obrigações do tesouro num sistema de revolving que, no entanto, é um sistema que é acompanhado diretamente pelas instâncias internacionais, pelo próprio FMI e pelo Banco Mundial, e em que há um incremento programado do stock de dívida pública. Em 2012 já se verificou alguma participação mais diversificada na colocação de dívida pública, o que, para o administrador do BI “é bom, uma vez que, para que haja a possibilidade da colaboração da banca na colocação da dívida pública junto dos pequenos aforradores, é necessário que haja uma reorientação para que sejam adotados standards internacionais em que, efectivamente, ao mercado primário só possam aceder entidades que sejam especializadas em negociar Valores do Tesouro e que garantam ao próprio Estado liquidez no mercado.”

Existem outro tipo de financiamentos a entidades públicas locais e regionais, nomeadamente às Câmaras Municipais. O Banco Interatlântico, por exemplo, faz parte do acordo que existe com a Agência Francesa de Desenvolvimento para refinanciamento de uma linha de crédito precisamente para estas entidades. No entanto, conforme diz Manuel Pinto, “esta Agência possui critérios restritivos, como, por exemplo, questões ambientais ao nível dos países mais evoluídos, que não nos tem permitido fazer a colocação desses fundos, apesar de sabermos que temos o financiamento aberto. Por outro lado, o número de municípios que existem em Cabo Verde, e a bondade do seu financiamento, isto é, a capacidade que têm em obterem financiamento em função das receitas previstas, aproxima-se muito dos limites, o que obriga a algumas precauções. O governo central tem dado algumas indicações de que não é aconselhável o aumento significativo do endividamento das entidades locais, nomeadamente as Câmaras Municipais, por forma a que as finanças públicas possam continuar a manter um conjunto de indicadores aceitáveis de acordo com as organizações internacionais e que evitem situações indesejáveis que se verificaram em outros pontos do globo.”

Os resultados da banca cabo-verdiana

Apesar do abrandamento da economia, os resultados consolidados da banca nacional, apesar de terem diminuído, são positivos. Contudo, segundo o gestor, nem todos bancos podem ser analisados da mesma forma, porque nem todos abordam o mercado da mesma forma. Conforme diz, “quando se fizer um balanço agregado dos resultados dos diversos bancos, vamos verificar que as suas diversas componentes têm posições díspares: desde resultados muito positivos até resultados negativos. O que se verifica são diferentes estratégias que variam de banco para banco. O Banco Interatlântico, por exemplo, tem vindo a diminuir os resultados com o incremento, acima do que nos é exigido, no cálculo de imparidades e no provisionamento do crédito. Há outros bancos que poderão ou não ter tido a mesma postura. Há bancos que assumem mais uma componente de investimento de longo prazo e de apoio a grandes operações, o que se reflete nos resultados. O Interatlântico entende que não tem dimensão para todas essas operações e focamo-nos actualmente mais no apoio ao tecido empresarial, às pequenas e médias empresas, e a algum comércio de base que faz parte do normal desenvolvimento social e económico do país”.

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Esta estratégia tem trazido bons resultados ao Banco Interatlântico, contudo, e conforme salienta o seu administrador, “os nossos resultados têm diminuído pelo facto de termos adotado uma estratégia muito conservadora, a qual está prevista continuar. Não estamos muito preocupados em diminuir no imediato os nossos resultados, mas que esses resultados sejam positivos e sustentáveis no futuro, até mesmo por uma questão de credibilidade do sistema financeiro nacional”, e adianta que, há muitas pessoas que pensam que o facto de os bancos terem lucros, é algo de negativo, no entanto, conforme diz, “quando a banca não tem lucros, é que é preocupante, pois se houver inflação, os capitais próprios dos bancos têm se ser alavancados, caso contrário os bancos perdem valor, colocando em causa os acionistas, o sistema bancário nacional e os depósitos dos próprios clientes”.

Outro fator que tem ajudado a proteger o sistema financeiro cabo-verdiano da crise mundial é que a estrutura de custos da banca em Cabo Verde e a própria gestão de investimentos, que embora com alguns problemas no setor imobiliário, é muito tradicionalista, o que faz com que não haja exposições a mercados derivados, nem a carteiras de títulos no exterior. É um mercado que se tem mantido muito fechado e como tal, quase que se auto protegeu. Se é certo que tal postura não permitiu alavancar os resultados da banca num passado recente, durante este período de crise permitiu protege-la, pois estando essencialmente virada para o mercado interno, com todas as idiossincrasias e riscos que tal acarreta, não correu riscos de se expor aos incertos mercados financeiros internacionais, o que fez com que a grave crise financeira internacional não tivesse um tão grande impacto na banca em Cabo Verde.

Como gestor e pessoa com larga experiência no mercado em que opera, Manuel Fernando Monteiro Pinto, é da opinião que a receita para que a banca em Cabo Verde possa cumprir o seu papel de apoio ao desenvolvimento social dos cabo-verdianos, criando os lucros espetáveis para os acionistas, sejam estes privados ou públicos, é “mantendo sempre pricings adequados àquilo que os seus clientes podem pagar, sem nunca esquecer que, deve manter sempre uma gestão profissional adequada ao mercado, tendo em consideração que os bancos existem porque há clientes e que a sua rentabilidade futura depende da evolução económica e social desses mesmos clientes”.


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