Lúcio Antunes – Colocar Cabo Verde numa fase final de um Campeonato do Mundo
30 Jul 2013

Lúcio Antunes – Colocar Cabo Verde numa fase final de um Campeonato do Mundo

Lucio Antunes

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Nasceu a 10 de setembro de 1966 em Santiago, na cidade da Praia. Fez os seus estudos em Cabo Verde até completar o ensino secundário, altura em que foi para Portugal frequentar o curso de controlador de tráfego aéreo. Terminado o curso, regressou a Cabo Verde para trabalhar e viver na Ilha do Sal, onde permanece até hoje. É, desde 2010, o selecionador de futebol de Cabo Verde, e um dos obreiros da qualificação dos “Tubarões Azuis” para a fase final do Campeonato Africano de Nações 2013.

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Como é que nasceu a sua paixão pelo futebol?

Acho que já nasceu comigo. Não apenas a paixão pelo futebol, mas também pelo andebol, basquetebol e ténis de mesa, modalidades em que fui internacional por Cabo Verde e nas quais ganhei vários troféus. Como tal, penso que é uma paixão pelo desporto. Sou oriundo de uma família de desportistas, alguns dos quais também praticantes em várias modalidades. Talvez seja genético.

Antes da seleção teve um percurso profissional em alguns clubes. Que clubes é que treinou?

Comecei no Santa Maria do Sal. Depois passei pela Académica e pelo Académico do Sal, onde fui dezassete vezes campeão regional, duas campeão nacional e onde conquistei também a Taça Inter-ilhas. Posteriormente trabalhei com a equipa nacional dos sub-20 e sub-21, escalões com os quais participei nos Jogos da Lusofonia em Macau e onde ficámos em terceiro lugar. Em 2007, comandei a seleção dos residentes na Taça Amílcar Cabral, em Bissau, onde alcançámos o segundo lugar. Em 2009, e também em sub-21, ganhámos os Jogos da Lusofonia que se realizaram em Lisboa. Neste momento, Cabo Verde é o detentor da medalha de ouro em sub-20.

Desde 2010 que treino a seleção principal de Cabo Verde e onde, fruto do muito trabalho de todos os envolvidos, conseguimos a qualificação para o Campeonato Africano das Nações 2013, que se realizou na África do Sul, e no qual conseguimos atingir os quartos de final dessa importante competição internacional, o que nos deixa a todos muito orgulhosos.

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Lucio Antunes

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O Lúcio faz parte de um projeto, já com alguns anos, da Federação Cabo-verdiana de Futebol. Fale-nos um pouco desse projeto.

Sim, a Federação tem um projeto denominado Cabo Verde 2008-2014. Contudo, eu entrei na Federação Cabo-verdiana de Futebol em 2006, por isso, quando o projeto surgiu, eu já estava na Federação. Apesar de não fazer parte da conceção inicial do projeto – que é um projeto iniciado pelo professor João de Deus – dei alguns contributos para o melhoramento do mesmo.

A seleção teve um percurso atribulado até atingir o apuramento para a fase final do CAN. Neste percurso de apuramento, o Lúcio terá certamente momentos marcantes. Quais os momentos que mais o marcaram enquanto treinador? 

Nós sabíamos que tínhamos um bom grupo. Sabíamos das qualidades dos nossos colegas. Também sabíamos que as outras equipas africanas e os seus jogadores não eram superiores, quer à nossa equipa, quer aos nossos jogadores individualmente.

O sorteio que nos ditou os Camarões foi fundamental, pois fizemos o primeiro jogo aqui, em Cabo Verde. Esse primeiro jogo foi realizado em setembro, que é uma altura em que os jogadores cabo-verdianos já se encontram bem rodados. Nessa altura vi que a equipa dos Camarões era uma seleção que estava perfeitamente ao nosso alcance. Os nossos jogadores interiorizaram que eram capazes de chegar a uma fase final do campeonato, o que foi fundamental para o trabalho que posteriormente desenvolveram. Trabalharam em prol de um grupo, de um objetivo e de uma nação, como tal, o desejo, a vontade e a determinação de vencerem e elevarem o nosso país a um patamar de prestígio dentro do futebol africano, foi fundamental para se atingirem os objetivos que todos ansiavam ver alcançados.

Essa confiança foi fundamental para o jogo inaugural, onde defrontámos a equipa anfitriã. Depois seguiu-se Angola e Marrocos, que são duas seleções habituadas a grandes jogos, com jogadores de topo e orçamentos milionários. Defrontámo-las de “peito aberto”, pois sabíamos que a nossa equipa não era inferior a nenhuma delas.

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Lúcio Antunes

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Alguma vez teve dúvidas quando, antes da fase de qualificação, teve de escolher os jogadores que iriam fazer parte da seleção nacional?

Existem sempre dúvidas, no entanto, também sabia que qualquer um dos vinte e três que fosse à África do Sul, iria dar garantias de uma boa prestação. A determinada altura, eu como responsável máximo e líder da equipa, pensei que alguns jogadores poderiam ficar aborrecidos por não participarem no CAN, mas a escolha tinha que ser feita e apenas 23 poderiam ser selecionados, como tal, em consciência e em conformidade, escolhi aqueles que, do meu ponto de vista, melhor integravam a estratégia que tinha preparada para a nossa participação. Penso que, apesar de algumas dúvidas iniciais, a nossa prestação veio comprovar que as escolhas tinham sido as acertadas.

Como foi o período de preparação da seleção?

Foi a fase mais complicada de todo o projeto, pois não fizemos a preparação ideal. Fizemos a preparação possível, que esteve longe de ser a ideal. Tivemos que viajar de um lado para o outro à procura de melhores condições, à procura de recursos financeiros capazes de nos manter condignamente no campeonato e tudo isso destabilizou um pouco a equipa, como tal, a nossa preparação não foi a desejável.

A título de exemplo, chegámos à África do Sul apenas quatro dias antes do primeiro jogo, quando já haviam lá equipas há mais de duas semanas. Até esse primeiro jogo apenas tínhamos realizado nove treinos e os nossos adversários, tal como Angola, já tinham realizado mais de 20. Findámos a primeira fase com doze ou treze treinos, pois passámos o tempo todo a viajar e a andar de um lado para o outro.

Aqui jogou a vantagem da seleção ser homogénea?

Sim, o facto de ser um grupo muito uniforme foi determinante para a união de todos.

Como é possível conseguir-se formar um grupo homogéneo de jogadores, apesar das grandes assimetrias entre eles, muitos dos quais vêm de realidades totalmente diferentes?

A base do nosso grupo vem das camadas jovens. São jogadores que já os conheço desde muito jovens, como tal, torna-se mais fácil lidar com eles. Os jogadores que formam o núcleo duro da equipa também têm o mérito de saber receber os novos jogadores. Quando entra um jogador novo, mesmo tendo uma ideia diferente da dos colegas, não se pode desviar do comportamento do grupo, pois sabe que se o fizer será excluído do grupo, como tal, penso que se torne mais simples a integração de novos elementos dentro da equipa.

Também a forma de estar da equipa técnica, dos diretores e do presidente da Federação contribuem para unidade do grupo, pois são pessoas simples que trabalham todas com o mesmo objetivo, sem protagonismos nem interesses individuais. Apenas procuramos o bem do nosso futebol e o bem do nosso país. Quando é assim, tudo se torna mais fácil e natural.

Já estou na seleção há mais de sete anos e nunca tive um caso de indisciplina ou de desrespeito.

Como é que foi o jogo inaugural com a África do Sul?

Foi um jogo fabuloso, num Estádio fantástico e com mais de 90 mil pessoas incríveis. Esse ambiente extraordinário motivou-nos ainda mais. Sabíamos que o jogo era transmitido para todo o mundo e sabíamos que tínhamos uma nação inteira ao nosso lado a torcer pelo nosso sucesso, como tal, não poderíamos defraudar quem estava connosco. Trabalhámos para estarmos presentes numa grande competição em África e, jamais podíamos deixar ficar mal o nosso país, como tal, demos tudo por tudo para dignificar o nosso hino, o nosso país, a nossa bandeira e as nossas gentes.

Depois da boa exibição do primeiro jogo, a equipa soltou-se e como tal, sabíamos que dificilmente não iríamos atingir a fase seguinte, pois a motivação era enorme.

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Lúcio Antunes

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Como é que a eliminação, frente ao Gana, afetou o grupo? Como foi perder aquele jogo?

Foi triste, pois sabíamos que a equipa do Gana não era superior à equipa cabo-verdiana, nem em termos individuais nem em termos coletivos. Jogámos para ganhar pois sabíamos que podíamos chegar às meias-finais. Apesar de não o termos conseguido, demos tudo de nós e penso que tudo fizemos para atingir esse objetivo, como tal, abandonámos a prova de “cabeça erguida”, pois promovemos honrosamente Cabo Verde e todos os cabo-verdianos e provámos a nós próprios que era possível.

Começa um novo ciclo: o Campeonato do Mundo. Abre-se uma nova expectativa. Perante este novo desafio, como é que motiva e prepara os seus atletas? Acredita que é possível atingir este novo desafio?

É muito complicado chegar ao Campeonato do Mundo. Em primeiro lugar pela diferença de pontos para o líder do grupo, a Tunísia. Depois porque não dependemos apenas de nós. No entanto, depois do CAN, sabemos que podemos ganhar a qualquer adversário e em qualquer campo. A vontade e a determinação de ganharmos, foi um dos maiores ganhos que trouxemos da África do Sul.

A média de idade destes jogadores é de 24 anos. Está assim assegurada a continuidade do projeto?

Sim, estes resultados que agora estamos a colher, fazem parte de um trabalho iniciado em Macau. Quando integrei a seleção, a média de idades dos jogadores era de 29 anos, agora baixamos para os 24, o que quer dizer que, até ao Mundial de 2018, teremos um grupo forte de trabalho. Também o facto de haverem bons jogadores muito novos que jogam na Europa e que demonstram vontade de integrar a seleção é sinónimo que a continuidade do projeto estará assegurada.

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Federação Cabo-verdiana de Futebol

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Depois do Lúcio ter saído do “anonimato”, certamente que é hoje um treinador referenciado para trabalhar em outros clubes e seleções. Se tivesse de decidir, o que é que escolheria em termos de trabalho?

Continuar a trabalhar na Federação Cabo-verdiana de Futebol, contribuindo para o crescimento do grupo e do país. É um projeto que me agrada bastante, e como tal, quero continuar a sonhar em um dia estar na fase final do Campeonato do Mundo, por isso, não o irei abandonar. Até ao final deste ciclo estarei totalmente empenhado nestes objetivos.

Sem clubes, não há seleção nacional. Fale-nos um pouco da relação entre o selecionador nacional e os clubes nacionais.

Todos sabemos que o modelo que utilizamos não é o ideal, mas atualmente é o modelo possível. Nem a Direção Geral dos Desportos nem a Federação Cabo-verdiana de Futebol possuem verbas disponíveis para implementar o modelo desejável, como tal, temos que trabalhar com as condições e os recursos que possuímos, trabalhando com os clubes, as equipas técnicas e os possíveis jogadores que podem representar a Seleção Nacional.

É claro que o ritmo competitivo é baixo; não tem nada a ver com o ritmo que os jogadores que fazem parte da seleção têm, uma vez que muitos deles vêm de campeonatos muito competitivos, de clubes treinados por técnicos de muita qualidade o que faz com que, 90% dos atletas que fazem parte da seleção venham de clubes estrangeiros.

Que desejos tem para o futuro?

Conseguirmos estar presentes numa fase final de um Campeonato do Mundo. É um objetivo difícil, mas já provámos que o conseguiremos atingir.

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Lúcio Antunes

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