Leão Lopes – Criatividade, interiorização pessoal e firmes ideais
30 Set 2012

Leão Lopes – Criatividade, interiorização pessoal e firmes ideais

Nasceu em Santo Antão em 1948. Doutorado pela Universidade de Rennes II, França, e diplomado em pintura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, é membro fundador do Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura (M_EIA), onde desempenha as funções de reitor. Tem desenvolvido, ao longo dos anos, uma intensa atividade nos domínios da criação artística que passam pela literatura, as artes plásticas, o design e o cinema. Assina a primeira longa-metragem cabo-verdiana com o filme “Ilhéu de Contenda”. Autor e realizador de inúmeros documentários, dos quais se destacam “Bitu” e, mais recentemente, “S. Tomé – Os Últimos Contratados”, desempenhou ainda os cargos de Deputado Nacional e de Ministro da Cultura. 

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14- Leao Lopes - Revista Nos Genti -É um dos expoentes máximos da expressão cultural contemporânea de Cabo Verde. O que é que mais o estimula no seu processo criativo?

Talvez este país, este povo e os desafios que se nos colocam no quotidiano, que me levam a reagir com os instrumentos e os conhecimentos que tenho e que se expressam nos domínios da área cultural ou artística. Penso que a minha motivação, talvez seja a própria vida e o privilégio de a viver como a vivo, de uma forma intensa, mas atenta, tentando de alguma forma compreender os sinais e os problemas – sejam os sociais ou de outra natureza. Depois atuo sem grandes programações. Sou um homem de ação. Prefiro agir a planificar a prazo. O meu quotidiano reflete precisamente esta forma de agir.

Nos domínios da arte e da cultura, em que disciplinas se sente mais confortável?

Se eu tivesse que me definir, talvez me definisse como um criador que atua em espaços disciplinares variados, derivados da minha experiência de vida, da minha formação académica, da minha preparação intelectual e da minha curiosidade em relação ao que pode motivar o meu trabalho.

Nunca vesti a farda de escritor ou de artista plástico. Para mim a arte é ampla, e encontra-se sustentada por várias disciplinas de expressão artística, independentemente da sua especificidade.  Abordo a arte, não no plural, mas única e exclusivamente no singular. Os suportes que melhor me permitem expressar, independentemente da área, são os que no momento elejo. As tecnologias podem direcionar o resultado do meu trabalho, mas o processo criativo recorre sempre aos mesmos instrumentos criativos, quer a nível estético, quer conceptualmente. Por isso, não me inibo muito, nem expresso muita preocupação em me definir como pintor, cineasta ou escritor.

Há determinado tipo de impulsos que no momento me podem direcionar para me expressar numa ou noutra área. Ás vezes, penso em cinema. Apesar de estarmos num país que não facilita a realização como cineasta, eu não tenho angústias quanto a me expressar através dos audiovisuais, pois todos os projetos cinematográficos se iniciam com um processo de criação. Depois passam por várias disciplinas conceptuais, sobretudo a escrita. A partir da ideia, o processo caminha pela escrita até depois passar por outras disciplinas, como as tecnologias, e finalmente obtermos um produto cinematográfico. Sabendo que esse produto pode ser mais difícil de concretizar em Cabo Verde, não me vou angustiar por isso. Eu posso escrever e rapidamente transformar um projeto de cinema, numa história escrita, ou num objeto literário. Se quiser continuar no domínio visual, posso transformá-lo num objeto plástico.

Dou o exemplo do meu filme “Ilhéu de Contenda”, que levou muitos anos a preparar e que ninguém acreditava ser possível de realizar em Cabo Verde. Eu costumava dizer aos produtores, em ar irónico, para não se cansarem muito, pois se não o fizéssemos em cinema, fazíamo-lo em banda desenhada. Tendo a possibilidade de me exprimir noutras linguagens, então essas angústias resolvem-se com alguma facilidade.

Nunca tive o sofrimento de muitos colegas, que não conseguem realizar as suas obras por falta de condições. Contudo, também admito que tive a sorte de ter tido uma educação privilegiada. Na minha geração pode-se encontrar mestres que nos prepararam para uma autonomia criativa, o que aliado a conhecimentos e práticas tecnológicas diversas, nos proporcionam a possibilidade de nos tornarmos versáteis em relação às nossas produções.

Podemos afirmar que o seu género de escrita é cativante e estimula a imaginação dos leitores. Esta forma de escrever é inspirada numa ideia preestabelecida ou é fruto da espontaneidade? 

É essencialmente uma construção que parte da espontaneidade. Nunca procurei um estilo de escrita. No entanto, identifico-me com uma determinada escrita, que eventualmente é a minha. Naturalmente quando se escreve e tem-se pretensão a que outro leia, gostamos que a escrita, de certa maneira, toque de alguma forma quem leia.

1- Leao Lopes - Revista Nos Genti -Procuro escrever de forma a que eu entenda o que quero dizer. Se eu não entender muito bem o que quero dizer, é suposto que o leitor também não o entenda. Mas não é um tipo de escrita consciente, trabalhada, com regras de estilo, ou colada nesta ou naquela linguagem literária, neste ou naquele autor.

Quem escreve, tem de ser, antes de mais, leitor… e se possível, bom leitor. Desta forma, acabamos por ser o resultado de tudo o que lemos. Pessoalmente, não tenho bem a consciência estética da minha escrita. Recordo-me de um doutoramento que fiz em França, onde na parte da defesa, estava presente um professor de uma universidade italiana e que fazia parte do júri. A determinada altura, ele diz para a sala que não se lembrava de ter lido uma tese com tanto prazer. O facto é que eu não tinha a consciência de ter escrito uma tese que dava gosto ao leitor. É censo comum que uma tese é uma coisa chata, muito científica, mas conforme referiu o dito professor, o estilo que utilizei na escrita daquele documento, foi para ele como se estivesse a ler um guião de um filme. Eu não tinha essa consciência, o que ilustra que a articulação de toda a minha abordagem científica, do percurso da minha investigação e pesquisa, acabou por passar para este meu estilo.

Se tivesse que eleger uma das suas obras literárias à qual se tenha sentido, na sua conceção, preso de forma apaixonada, qual escolheria?

Eu escrevo pouco, por isso é uma pergunta difícil. Tudo o que escrevo é feito com muito gozo, pois não tenho obrigações. Até hoje só tive a obrigação de escrever a tal tese. As outras coisas são feitas por puro prazer. Na escrita, eu estou muito próximo da infância e da juventude, e talvez por essa razão, qualquer dos meus objetos literários me tenham dado imenso prazer de realizar. Acho que todas as minhas peças literárias se entrecruzam, como se todas elas fizessem parte da mesma obra.

Tal não terá sido, consequência de uma boa juventude, ou talvez da necessidade de reconhecer que a melhor fase da nossa vida é quando somos crianças e jovens, quando procuramos o novo, o sonho e a paixão?

Tenho alguma dificuldade em pensar nas coisas que faço. Não costumo dedicar grande tempo de reflexão em torno do que faço. Faço, e ás vezes até esqueço que o fiz. Frequentemente, dou conta que recorro muito à minha infância. Não sei bem porquê. Tenho boas memórias de infância. Talvez seja por isso que, de forma inconsciente, tenho o impulso de confirmar essas memórias. Tenho muito presente essa vivência da juventude, daí a necessidade de a contar, de forma espontânea, nem que seja só para mim.

Lembro-me que há uns anos, saiu uma prova nacional de português para o ensino, com um determinado texto, onde não aparecia o autor. Os meus colegas começaram a especular sobre de quem seria o texto, até que, facilmente, chegaram a mim. Eu na altura nem sabia que o texto tinha saído numa prova nacional. Não foi por causa do estilo da escrita, mas sim, por causa do tema. Era um tema da nossa infância, o que acabou por despertar a memória desses colegas, e, dadas as vivências conjuntas, facilmente chegaram até mim.

A escrita e outras áreas da expressão, possibilita-nos desenterrar as memórias que não são apenas dos autores, mas que pertencem a uma geração e isso é fascinante.

2- Leao Lopes - Revista Nos Genti -Santo Antão é referenciado inúmeras vezes nas suas obras. Quais as razões que o levam a escrever tantas vezes sobre esta ilha, e em particular sobre o Porto Novo?

As minhas referencias a Santo Antão, não são sobre a ilha, mas sim sobre vivências passadas na ilha. É essencialmente sobre o que Santo Antão desperta em mim. Podem ser memórias, emoções ou fantasias. Os meus contos infantis são um exemplo disto. Eu só poderia localizá-los em Santo Antão, pois foi precisamente lá que a minha maneira de ser foi formada. Por isso é natural que a ilha assuma um papel omnipresente nesses meus trabalhos. No entanto, não me inibo em relação a nenhum outro espaço vivencial, onde a minha experiência como pessoa me tenha marcado. O espaço serve apenas de referência. Normalmente não tenho muita apetência para a descrição dos cenários. Penso que é mais importante o que sai de dentro do cenário, que o cenário em si.

E que vivências foram essas que o motivam a recorrer frequentemente a Santo Antão?

Possivelmente terá a ver com o tempo da infância, e a forma com que o contexto nos acolheu, educou e conduziu. Tem a ver com as pessoas comuns que me influenciaram e que deixaram marcas na minha formação como pessoa. São memórias fortes que acabam por ser recorrentes. Lembro-me de uma vivência, alargada a todos os meninos, que se traduz nas brincadeiras, nas relações com os nossos pais e que são, por fim, a base da nossa personalidade.

Na sua opinião, como se caracteriza o atual panorama da literatura cabo-verdiana?

Estamos numa fase interessante. É uma fase pretensamente de rutura com toda a herança legada da fase claridosa. Eu próprio devo fazer parte deste momento de rutura. No entanto, penso que desta rutura, também deverão fazer parte os claridosos, pois são ainda a grande referência da escrita cabo-verdiana, embora tematicamente ultrapassados. Na altura, havia uma proposta estética clara. Duvido que a geração contemporânea tenha essa lucidez estética com o que pretende deixar como marco para o futuro.

A proposta dos claridosos era de tal forma forte, que ainda hoje a podemos vivenciar e identificar tudo o que conformou os seus propósitos. A própria obra dos claridosos não se esgotou na literatura. Eu próprio defendo em tese, que o movimento claridoso arrastou outras disciplinas e que deixou marcas noutras áreas, devido exatamente à sua forte proposta estética. Não sei se hoje o estamos a conseguir tão bem como eles o conseguiram, daí que a sua presença ainda seja muito forte.

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No campo musical, as mornas do B.Léza, que foram um dos produtos do movimento – até porque ele era um dos do grupo – contêm todos os seus pressupostos estéticos. O que reparamos hoje em dia, é que, setenta anos depois, esta composição, com o sucesso que todo conhecemos, ainda é uma das nossas melhores expressões culturais. Na literatura, mesmo autores consagrados, têm produções que muitos desconhecem. Manuel Lopes, por exemplo, tem contos de uma atualidade que ainda hoje nos impressiona. Lembro-me de um conto dele intitulado “O Galo Cantou na Baía”, que quando o li, fui de imediato falar com ele e comentei que o conto parecia um cenário de cinema, ao que ele me respondeu que, de facto, tinha utilizado a linguagem cinematográfica de campo contracampo. Foi buscar uma área para a literatura. Não conheço um autor cabo-verdiano atual com esse tipo de recurso. Além de ser muito curioso é também muito interessante. O Aurélio Gonçalves, por exemplo, servia-se da pintura. Há todo um património dessa geração que ainda está para ser trabalhado e compreendido.

Acredita que, pelo facto de vivermos num mundo globalizado, mais consumista e totalmente desatento aos sentimentos da alma, faz com que os artistas cabo-verdianos tenham perdido um pouco da interioridade com a qual nos espantaram durante vários anos?

É inquestionavelmente uma consequência dos tempos. O mundo está em constante transformação e Cabo Verde, fazendo parte do mundo, também. No entanto, penso que continuamos com alguns privilégios. Apesar da facilidade de comunicação dos dias de hoje, perdemos a liberdade de gerir inteligentemente o consumo de tudo o que nos chega de fora. Dependerá do que pretendemos desenhar para o futuro do país, mas acredito que ainda temos a possibilidade de formatar o nosso futuro em função do que quisermos dele fazer.

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Costumo pensar que, mesmo nos dias de hoje, é possível visitar Santo Antão e viajarmos para dentro de nós e descobrirmo-nos um pouco, tal como as nossas gerações anteriores se descobriram. Cabo Verde ainda nos oferece esse privilégio, no entanto, temos que saber gerir todo o impacto do que nos chega de fora, assim como os apelos à alienação de determinados valores e potencialidades que ainda encerramos em nós. Pelo facto de vivermos em ilhas e termos essa história cultural interessante, devemos preservar este manancial criativo e imaginário, de inestimável valor. Para tal, basta que estejamos atentos ao que o arquipélago tem para nos oferecer, e dele podemos absorver.

Tem, certamente, projetos na área da cultura. O que é que podemos esperar para os tempos mais próximos?

Normalmente a minha vida é muito preenchida no dia-a-dia. Tenho sempre muita coisa encadeada, mas nunca faço planos para este ou aquele projeto em particular. Como não tenho obrigações e não trabalho com encomendas, posso gerir a produção dos meus trabalhos à medida que deles vou sentindo falta. Tenho o privilégio de ser absolutamente livre na minha produção, o que me permite fazer várias coisas em simultâneo e que acabam por sair, sem grandes compromissos.

Falou muito em memórias. Realizou, à relativamente pouco tempo, um filme relacionado com a comunidade cabo-verdiana que se encontra um pouco esquecida em São Tomé. O que o levou a contar essa história?

Precisamente a história daquela gente, que é também a nossa história, expressa no drama da emigração. Fui convidado a conhecer São Tomé e apenas aceitei o convite com a condição de poder vir a conhecer esta nossa comunidade lá residente. No regresso, percebi imediatamente que havia de voltar para fazer esse filme.

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Foi doloroso fazer esse filme. Uma emigração com aquelas características, onde as pessoas foram enganadas, tiradas do seu lugar e empurradas pelo drama da existência, foi um ato de extrema violência. Uma vez lá chegadas, descobrirem que tinham sido enganadas e que não havia retorno. Deve ter sido algo muito duro. É algo que me toca profundamente.

Fale-nos um pouco da sua passagem pela governação, em que se viu envolvido nas questões políticas de orientação de um país.

Em termos pessoais, foi uma experiência bastante interessante… aprendi muito. Contudo, a determinado momento, foi assustador. Dei conta que, num concelho de ministros – onde há pessoas com as sua fraquezas, com as suas frustrações, as suas preparações, com os seus ideais e valores – o destino das pessoas pode ser desenhado para o bem ou para o mal. Assustou-me, pois apesar de sempre bem-intencionados, acabamos por decidir sobre o futuro de um povo que nos elegeu e pelo qual decidimos, sem os estarmos a ouvir, naquele preciso momento. Apesar de serem tomadas decisões, e de todas elas serem bem-intencionadas, podem-se revelar como más decisões para o futuro. No dia em que percebi que estava a desempenhar o papel de decisor de todo um futuro de um povo, senti-me atemorizado. No entanto, foi uma oportunidade de aprendizagem da natureza humana, da forma como investimos nas nossas convicções e às vezes da irracionalidade da sua defesa, perante as convicções de outrem.

Creio que, a partir dessa experiência, adquiri o privilégio de poder observar e analisar dos dois lados. Tenho o privilégio de ter tido uma experiência alongada, também do outro lado do poder, o que, associado a essa experiência governativa, me possibilita analisar e por vezes melhorar os meus pontos de vista em relação à vida, aos problemas e aos fenómenos culturais. Tento usar esse conhecimento no meu dia-a-dia.

Acredita que hoje a política está a atravessar uma crise ideológica?

Penso que sim. Quando os ideais começam a ficar vazios de sentido, isso reflete-se não só na cultura política, como no desempenho do político. As causas estão hoje muito confusas em relação aos seus próprios valores. A noção do coletivo, já não é a mesma de antigamente. No início da Independência, a nossa causa era sem dúvida Cabo Verde, este povo, e o país como um todo. Atualmente assistimos a várias causas a tentarem-se conciliar entre si, para tentarem construirem o país de hoje e muitas vezes essas causas até são individualistas ou pertença de um grupo restrito. Tudo isso perturba e põe em causa os ideais mais tradicionais, ou se quiserem, os mais nobres. No caso cabo-verdiano, acabamos por ser diluídos na dinâmica deste mundo sem causas, e sem grandes ideais.

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Eu, à semelhança um pouco da minha geração, considero-me um homem de ideais. São os ideais e os valores que nos foram transmitidos pelos nossos pais. Se na política não pudermos sentir estes ideais, receio que poderemos estar a construir um país anómalo, o que é assustador. Quando não conseguimos identificar de forma clara as estratégias políticas, as políticas públicas de alguns setores mais sensíveis – nomeadamente ao nível social e económico – e não nos revermos nesses ideais, então podemos sair fragilizados e temos tendência para nos deixarmos “ir na enxurrada”. Isso é preocupante.

No meu ponto de vista, e no contexto atual das opções políticas que Cabo Verde tem vindo recentemente a tomar, estas não traduzem o que o povo, de alguma forma, espera e reclama. Penso que deveríamos ter a capacidade de traduzir o contexto global em que vivemos, mas sem nunca nos esquecermos de obter respostas em função das características específicas de um país, como são as de Cabo Verde.

Acha que esse desinteresse globalizado tem a ver com o facto de a sociedade ser mais materialista e menos humanista? É possível mudar esta forma de agir?

Temos mesmo que a mudar. Conforme dizia António Gedeão, “o mundo está em perpetuo movimento”, e essas fórmulas esgotam-se no momento em que nos deixarmos de identificar com a nossa história e com determinados caminhos que já estão esgotados. Nessa altura, o ciclo passa para outro estágio de amadurecimento e de transformação. A experiência artística, de alguma forma ajuda-nos a compreender esses processos. A própria humanidade, os fenómenos económicos, sociais e políticos do mundo, provocam as suas próprias ruturas internas. Só assim podemos criar a dinâmica de evolução e inovação. Creio que a humanidade vive da renovação de si própria e a política pode ser a disciplina que deveria ter visão para esses fenómenos, antecipando e preparando a rutura, que mais tarde ou mais cedo, será inevitável.

Atualmente, e falo de Cabo Verde, estamos tão distraídos a consumir o que nos chega de fora com tanta facilidade, que acabamos por nos fragilizar em relação ao que nos está a transformar. Não nos estamos a preparar, nem sequer a antecipar essa rutura, provocando-a no momento que nos for mais conveniente, o que num país economicamente tão fragilizado como Cabo Verde, acaba por ser de alguma forma uma irresponsabilidade. Temos de ser mais criativos, mais conscienciosos, por forma a antecipar os fenómenos que podem ser drásticos, principalmente os de ordem económica, que mexem com a existência básica deste povo.

10- Leao Lopes - Revista Nos Genti -Atribuí essa incapacidade de antecipar a inevitável rutura à qualidade dos políticos ou ao seu desinteresse pela causa comum?

Não é pela qualidade dos políticos, mais sim, pela falta de qualidade das pessoas que vão para a política. Penso que não seja por falta de vontade, mas o certo é que hoje em dia qualquer pessoa pode estar na política. Agora temos que questionar: será que essa pessoa tem qualidades para estar na política? No meu entender, para se ser político tem que se ter sentido de missão e ter causa, caso contrário é uma profissão como outra qualquer. Infelizmente nem sempre isso acontece.

Em que é que isso pode afetar o futuro do país?

Veja-se o caso da nossa juventude. Como sou reitor numa universidade de artes, é um caso que conheço bem, pois convivo com ela todos os dias. Posso afirmar que os jovens cabo-verdianos estão a viver um tempo “sem norte”. Tudo se lhes apresenta muito cinzento. Penso que chegam já fragilizados por todo um sistema que está enraizado. Encontram-se despidos de um pensamento próprio. É nossa obrigação mudar esse abstracionismo. Contudo, não é nas poucas horas que passam nas universidades que se consegue suprir essa lacuna, pois esse pensamento formata-se e consubstancia-se antes, nomeadamente no período da adolescência. O nosso sistema educativo tem merecido grandes investimentos, mas os resultados da massificação deste sistema estão à vista. Penso que não foram devidamente ponderados a seu tempo. Estamos a produzir uma geração angustiada e frustrada. Os recentes fenómenos sociais de violência, alcoolismo e de utilização de drogas por parte da nossa juventude, são provas disso mesmo.

Como é que o resultado do investimento no ensino se traduz nestes resultados?

Eventualmente, teremos que analisar os outros fenómenos sociais que vieram interferir na formatação desses jovens. Há uma série de novos apelos que não existiam antigamente. Tal como costumo dizer, todos nós descendemos do mesmo tipo de família. Cabo Verde é um país construído da pobreza, onde as pessoas tiveram de usar de criatividade para algumas das soluções dos seus problemas. Isso não mudou muito, o que mudou foi a permeabilidade e o imperativo de Cabo Verde se inserir no mundo. Este fenómeno tem que ser interpretado pela política e tem que se encontrar uma resposta nas próprias políticas. O certo é que nem sempre estamos a acertar nas medidas e estratégias no combate a estes problemas específicos da nossa sociedade atual.

Qual o seu maior desejo para Cabo Verde?

Que seja um país de uma boa referência para todos nós, proporcionando-nos uma existência criativa e serena, e que acima de tudo, se consiga realizar em pleno.


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