Juary Livramento – Preservar as raízes da música de Cabo Verde
08 Mai 2014

Juary Livramento – Preservar as raízes da música de Cabo Verde

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Sente-se com o dever de manter acesa a música tradicional da sua terra, e a morna, essa expressão cultural que orgulha todos os cabo-verdianos, foi o género musical de eleição. Como boavistense e cabo-verdiano, o jovem Juary Livramento tem a morna e os ritmos tradicionais de Cabo Verde no coração. Dono de uma voz profunda e melodiosa, sente o peso da responsabilidade quando muitos o comparam ao “novo Ildo Lobo”. 

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Juary Livramento é um jovem natural da Boa Vista. A sua paixão pela música iniciou-se aos 17 anos, altura em que começou a aprender violão. A magia que sentiu quando começou a juntar as letras das mornas tradicionais cabo-verdianas aos recém-conquistados acordes musicais tocaram profundamente a alma deste boavistense. Já com um trabalho discográfico editado, Juary Livramento sonha poder conquistar com as novas sonoridades da morna e da coladeira os quatro cantos do mundo.

Em 2008 realizou uma das suas maiores ambições: editar o seu primeiro trabalho musical. O disco, intitulado “Santa Budista”, é um tributo à morna, à coladeira e ao batuque, estilos incontornáveis da música tradicional de Cabo Verde. “Santa Budista” reúne onze temas musicais, alguns dos quais de compositores da ilha da Boa Vista. “Ter editado este disco foi a realização de um sonho. Foi um momento especial e único no qual vi materializado o fruto do trabalho de anos de esforços e sacrifícios”, diz.

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Juary Livramento

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Como intérprete, Juary Livramento sente grande responsabilidade na preservação dos estilos tradicionais do seu país, pois, como afirma, “é responsabilidade das novas gerações preservar e difundir as nossas raízes musicais”. Apesar de considerar que a música de fusão “é uma inevitabilidade da globalização, podemos resistir à tentação de deturpar o tradicional das nossas sonoridades através de misturas e experiências sonoras que nada acrescentam à morna, pois caso contrário, corremos o risco de a extinguir. São os jovens que têm o dever de a preservar e de a manter fiel aos seus princípios”, afirma.

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Juary Livramento

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No ano em que a morna foi proposta a Património Imaterial da Humanidade, é com orgulho e satisfação que Juary Livramento assiste ao reconhecimento deste género musical como digno representante de toda uma cultura, contudo, é com alguma mágoa que observa o crescente desinteresse da juventude pelas tradições do seu país. Para reverter esta situação, o jovem músico é de opinião que “é necessário um grande trabalho de base, nomeadamente junto dos mais jovens, educando-os e dando-lhes a conhecer as tradições e o que está na génese da nossa cultura sob pena de, um dia mais tarde, tudo se perder”, lamenta adiantando ainda que, “daqui por dez anos se nada for feito, a morna cuja origem teve precisamente lugar na Boa Vista poderá simplesmente desaparecer. Não vejo a juventude com vontade de divulgar as nossas tradições e quanto aos músicos, apenas os mais velhos mostram ainda algum interesse em perpetuar a morna.” Apesar de jovem, Juary Livramento pretende manter-se fiel ao estilo original das suas tradições. “Nós temos uma música muito rica que revela as nossas raízes, a nossa identidade, os nossos usos e costumes e toda a nossa cultura, como tal, não temos necessidade de lhe adicionar jazz ou blues para lhe dar outra dimensão”, afirma.

Outra das condicionantes para uma maior divulgação da morna é, para Juary Livramento, “o facto de já haver poucos músicos a dedicarem-se a compor e a escreverem mornas. Também ao nível da poesia para a morna se regista um défice. Se no tempo dos claridosos apareceram muitos poetas que engrandeceram a morna, nomeadamente Baltazar Lopes da Silva, Eugénio Tavares, B.Léza entre muitos outros, atualmente, também ao nível da poesia, o panorama não é muito animador”, desabafa o jovem músico.

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Juary Livramento

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Para contrariar esta situação, Juary livramento sugere que os governantes do país deem mais atenção ao ensino da cultura e tradições cabo-verdianas. “É necessário começar a incutir nas crianças os nossos valores e as nossas raízes. Deve-se começar a incentivar as crianças a conhecerem a verdadeira música cabo-verdiana e é a juventude que tem de dar continuidade ao trabalho dos nossos antepassados, dos nossos avós e bisavós. A cultura é isso, é tradição que vem de geração em geração. Na minha geração nota-se uma estagnação em relação à musica tradicional, em particular à morna. Não falo só da Boa Vista, viajo para o Sal, São Vicente e Santiago e vejo que os jovens não estão ativamente ligados à morna. É um trabalho que tem de ser feito para não perdermos a nossa verdadeira identidade”, desabafa.

Dono de uma voz melodiosa, grave e profunda, Juary Livramento é, por muitos, considerado “o novo Ildo Lobo” de Cabo Verde. Esta comparação deixa-o feliz pois Ildo sempre foi o seu grande ídolo, no entanto, admite que tal comparação traz-lhe “ainda mais responsabilidades como intérprete quer a nível nacional, quer internacionalmente”, refere.

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Juary Livramento

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Ao nível nacional destacam-se as suas participações no Centro Cultural Francês e no festival Badja Cu Sol, ambos na cidade da Praia, mas também em festivais realizados um pouco por todo o país, de São Vicente ao Sal, passando, como não podia deixar de ser, por atuações na sua querida Boa Vista. Ao nível internacional, o jovem artista já cantou e encantou mercados como a Itália, Suíça, Alemanha e Portugal. O seu sonho é continuar a poder levar a música tradicional de Cabo Verde aos quatro cantos do mundo.

Apesar de considerar que o momento, devido à crise financeira e à dificuldade em conseguir apoios e patrocínios, não é o melhor para pensar em novos trabalhos discográficos, não descarta a possibilidade de começar a trabalhar em novo material para um segundo disco. Até lá, pretende continuar a promover “Santa Budista” e a mostrar aos mais novos “que é possível, através da música tradicional cabo-verdiana e da genuína morna tradicional, concretizarmos os nossos sonhos e tornar internacionalmente conhecida a nossa cultura e os nossos valores”.

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