Helena Vasconcelos – Futebol cabo-verdiano: veículo de união de toda uma nação
30 Jul 2013

Helena Vasconcelos – Futebol cabo-verdiano: veículo de união de toda uma nação

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Mãe, empresária, avó e eterna apaixonada pelo futebol, “Lena” Vasconcelos foi, durante quatro anos, presidente do Vitória Futebol Clube da Praia. Hoje é membro da direção da Federação Cabo-verdiana de Futebol e uma das figuras carismáticas mais acarinhadas do futebol nacional.

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Desde miúda que sempre conviveu de perto com o futebol. Talvez por influência do pai e dos irmãos, também eles fervorosos adeptos da modalidade, Lena Vasconcelos viu-se aos 14 anos a jogar com os rapazes da sua idade na Prainha, na cidade da Praia. Jogava na posição de guarda-redes, o que a destacava ainda mais dos colegas.

A difícil época como presidente do Victória Futebol Clube da Praia

A sua ligação próxima ao futebol e o facto do seu pai ter sido um dos fundadores do Vitória Clube da Praia, fez com que, após grande insistência dos outros membros da direção, aceitasse em 1998 o convite para se tornar presidente do clube. “Foram anos muito complicados, quer devido às enormes dificuldades financeiras que o clube atravessava quer pelo facto de os jogadores não serem profissionais, o que complicou ainda mais a já de si melindrosa situação. Tínhamos de estar permanentemente “em cima” deles, pois nas vésperas dos jogos íam para as discotecas e bebiam. Tinha que andar, junto com o treinador, atrás deles fazendo-os ver que não era a melhor atuação para quem queria singrar no futebol, como tal, apesar de ter aprendido muito, foi uma época difícil.”

A difícil situação financeira do clube, os fracos resultados desportivos e a falta de profissionalismo de dirigentes e atletas fez com que Lena Vasconcelos se saturasse do futebol. “Trabalhei muito, dei tudo o que tinha de mim para que se conseguissem resultados desportivos dentro do Vitória Futebol Clube da Praia, mas o lado financeiro, que é crucial para a vida de um clube de futebol, falou mais alto e acabou por ditar o meu afastamento da presidência do clube. Acabei por ficar saturada dos problemas que todos os dias tinha que resolver e, apesar de haver uma direção, não havia grande cooperação entre os seus elementos, o que fazia com que, uma coisa que deveria dar prazer de fazer se transformasse num fardo”, diz a dirigente desportiva.

Entretanto surgiu um convite do presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol, Mário Semedo, para fazer parte da direção da Federação ao qual Lena Vasconcelos, fruto do gosto e da entrega que sempre teve para com o futebol nacional, não pôde recusar.

Os primeiros anos na FCF

Quando entrou para a direção da Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF), encontrou umas instalações minúsculas, sem as mínimas condições para o desenvolvimento do projeto que a direção tinha em mente. “Eram duas salinhas pequenas no pavilhão gimnodesportivo, amontoadas com caixotes com os equipamentos e sem grandes condições de trabalho. Temos atualmente condições que eram inimagináveis nessa altura”, diz e continua relembrando que, “antigamente, jogava-se apenas para não perder. A seleção ia para os jogos já derrotada. Tudo era diferente: não tínhamos possibilidade de dar prémios aos jogadores, sabíamos que eles davam tudo deles e que deviam ser recompensados por tal, mas o certo é que não tínhamos condições de o fazermos, como tal, era um pouco desmotivador para todos. Estou há dez anos na Federação Cabo-verdiana de Futebol e posso afirmar que não há comparação possível entre a realidade dos nossos dias e aqueles tempos iniciais.”

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Federação Cabo-verdiana de Futebol

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Um dos grandes objetivos da direção da FCF na altura, era conseguir levar a seleção cabo-verdiana a uma fase final do Campeonato Africano de Nações. Tal como diz Lena Vasconcelos, “através do empenho de todos e trabalho desenvolvido por todos, com especial destaque para a total e desinteressada dedicação do presidente Mário Semedo, trabalho do qual a FIFA também se sentiu orgulhosa, acabando mesmo por nos atribuir o projeto Goal que se revelou fundamental para o desenvolvimento da modalidade, ao permitir que conseguíssemos construir o nosso Centro de Estágio, o qual se revelou uma mudança fundamental para os resultados que temos vindo a alcançar”.

Todo esse trabalho, dedicação e empenho foi coroado no início de 2013 com a presença da seleção cabo-verdiana de futebol na fase final do Campeonato Africano de Nações realizado na África do Sul e no qual Cabo Verde atingiu os quartos de final da tão prestigiada prova.

A participação no CAN 2013

Organizar a logística necessária para a participação num Campeonato Africano de Nações não é tarefa fácil e foi Lena Vasconcelos quem assumiu a liderança desta difícil tarefa. “O orçamento que tínhamos era totalmente incompatível com o que deveríamos ter para participar numa prova como o CAN, mas com o apoio, as amizades e a simpatia de muitos, quer cá em Cabo Verde, quer mesmo no estrangeiro, conseguimos reunir as verbas necessárias para podermos representar Cabo Verde de forma condigna. Destaco o papel do Presidente da República que se empenhou na angariação de fundos, promovendo mesmo uma campanha de sensibilização e que permitiu unir toda a nação em torno desde grande evento”, recorda.

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Lena vasconcelos

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Fruto do empenhamento de todos, a presença dos Tubarões Azuis no CAN 2013 correu sem percalços de maior, apenas condicionada pelo pouco tempo disponível para alguns jogos de treino antes da realização do primeiro jogo.

O relacionamento com os atletas

Para muitos, pela forma como se relaciona com os atletas, os aborda e aconselha, Lena Vasconcelos é a alma da seleção nacional de futebol. “O facto de ser mulher altera tudo. O lado maternal assume um papel fundamental no relacionamento com os atletas. Também o facto de ser uma pessoa sociável, contribui para o clima tranquilo que se vive na seleção”, diz e adianta que, desde que está no futebol cabo-verdiano, quer ao nível dos clubes quer na seleção, nunca teve problemas de qualquer espécie com nenhum jogador. “Já passei por várias fases da seleção, com vários jogadores, mas com todos eles sempre tive uma relação fantástica. Tento sempre, de forma subtil e em jeito de brincadeira, abordar os problemas… sempre com muito tato. Nunca tive nenhum problema com nenhum jogador. Sempre nos demos bem, e eles têm aceite todos os meus conselhos e sugestões, independentemente do facto de ser mulher. Não quero que me vejam como uma mulher, apenas quero que me vejam de igual para igual. Sempre fui, desde o tempo do Vitória Futebol Clube da Praia, delegada aos jogos; sempre me sentei no banco e sempre frequentei os balneários dos atletas”. Também o facto de Lena Vasconcelos ser extremamente sociável e afável acaba por cativar todos na FCF.

Captar atletas para a Seleção Nacional

A procura de melhores condições de vida acaba por levar muitos bons talentos nacionais a procurarem outros destinos para jogar, muitos deles acabando mesmo por se naturalizarem cidadãos desses países de acolhimento. Esta situação, tantas vezes repetida, levanta sérios problemas à Federação Cabo-verdiana de Futebol, que se vê assim impedida de poder recrutar muitos desses consagrados atletas. Lena Vasconcelos encara este problema como não sendo exclusivo de Cabo Verde, mas também de outros países. Segundo a dirigente, “uma das formas de combater esta perda de recursos humanos por parte de países como Cabo Verde, seria através da sensibilização e da motivação desses atletas para não representarem outras seleções que não a do seu país de origem,  no entanto sabemos que é difícil, pois a Federação não tem como contrariar essa situação, pois todos têm o direito de procurar uma vida melhor”, e adianta que, além dos que integram outras seleções, há ainda jogadores que adiam a sua presença na seleção nacional pois o país que os acolheu também lhes prometeu um lugar (que nunca chega) na seleção desse país, o que impede o atleta de poder representar Cabo Verde. “A situação foge um pouco ao controle da Federação. Aquilo que podemos fazer para tentar minimizar essa situação é sensibilizar e tentar condições capazes de motivar mais os atletas, no entanto, acho que com esta nossa ida ao CAN e com toda a publicidade que isso nos trouxe, muitos dos nossos jogadores que estão no estrangeiro, irão pensar duas vezes. Acho que agora têm interesse em marcar presença na seleção nacional, pois conseguem a notoriedade que tanto almejam e que nas outras seleções não conseguem obter”, diz Lena Vasconcelos.

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Lena Vasconcelos

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Desejos para o futuro do futebol e do desporto cabo-verdiano

O maior sonho de Lena Vasconcelos “é que o futebol cabo-verdiano cresça e que os jogadores que estão no estrangeiro viessem representar o seu país, elevando bem alto o nome de todos os cabo-verdianos. Também desejo o melhor para o desporto de Cabo Verde, sem esquecer que o desporto, e o futebol em particular, é algo que mexe com o país e que é motivo de união do nosso povo. Nunca vi cabo-verdianos tão unidos como na nossa participação durante o CAN 2013, por isso, desejo que assim continue, pois Cabo Verde necessita de momentos como este, onde a alegria supere as dificuldades do dia-a-dia, e a seleção nacional de futebol pode ser um bom veículo para essa alegria e união povo, o qual através do futebol, poderá sentir a força da nossa jovem nação.”


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