Helena Leite – São Vicente, tudo para dar certo
15 Jun 2012

Helena Leite – São Vicente, tudo para dar certo

Uma pedra rara! Um diamante em bruto com muito por lapidar para poder mostrar, em todo o seu esplendor, o brilho imenso que, mais dia, menos dia, rasgará a estranha e incomum inanidade sobre a ilha para resplandecer de beleza, energia e progresso.

Que lhe são reconhecidas características ímpares; que tem um quê de exclusivo na atmosfera que a diferencia das suas nove ilhas irmãs; que se lhe conhecem referências que a distinguem no teatro, na literatura, na música, na boémia; que campeões mundiais lhe cobiçam as potencialidades para os  desportos náuticos; são constatações que já não podem ficar-se por isso mesmo.

Neste cenário de ilha aprazível e tranquila, onde o agreste dos montes e montanhas se suaviza nas encostas e vales em beleza magistral; e as chuvas de verão vestem de verde a paisagem nua, para dar ainda mais encantamento à ilha, S. Vicente apresenta-se-nos – ainda – como uma folha em branco que se nos oferece atrevida, desafiadora e disponível, para nela fazermos o exercício da nossa ousadia e escrevermos, com inspirações no passado mas em linhas modernas a prosperidade do futuro.

Mindelo - São VicenteA história colonial na arquitetura dos edifícios da cidade; os segredos por desvendar que as ruas e ruelas da zona histórica de Mindelo escondem nas esquinas do nosso passado, complementam a lista de potenciais razões para impulsionar S. Vicente a levantar-se, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Com as imponentes montanhas de Sto. Antão a acenar com o turismo rural e o excursionismo de aventura, falta-nos no entanto lubrificar os instrumentos da nossa vontade individual e coletiva para sair da inércia a que S. Vicente parece encostada. A alegria eletrizante do povo que de per si conquista e seduz; a originalidade da nossa essência simples e espontânea; a nossa inata capacidade para vencer vicissitudes e galgar barreiras por esse mundo afora para recusar e superar as mínguas a que a natureza adversa sempre nos quis subjugar, mostram que somos capazes e merecemos mais para a altiva  ilha de S. Vicente.

Longe da retórica dos fóruns e discussões em salas fechadas para discutir as soluções para dinamizar o turismo e revitalizar a economia de S. Vicente e a cosmopolita cidade de Mindelo, afigura-se-me como  imperiosa uma  mudança de atitude, com efeitos de choque capaz de mobilizar a cidade para um novo ciclo.

Helena LeiteO tempo, já não é o de nos resignarmos à fatalidade para a qual desde sempre houve quem quisesse acreditar ou fazer crer que S.Vicente está fadada. O tempo é de aproveitar as oportunidades que competem em quantidade com o mar que nos circunda e aguardam que as transformemos em vantagens ganhadoras. Mas as vagas não ficarão à espera  que as revertamos a favor de S.Vicente  porque os ventos sopram dinâmicos e há sempre outros portos, outros aeroportos e outros povos.

Já para não falar dos Paquetes e grandes Cruzeiros que atracam cada vez mais amiúde no Porto Grande, somos privilegiados com uma das dez mais belas baías do mundo, em cuja novel marina aportam centenas de embarcações todos os anos; e onde se amontoam barcos de recreio sobretudo nos meses de Novembro, Dezembro e até Janeiro.

Ávidos de novas culturas, o foco dos turistas – sobretudo dos que chegam por mar –  é a zona histórica da baixa mindelense, o que decerto será comum em todos os portos onde amarram as suas embarcações. É que esses são os locais com mais e interessantes histórias para contar sobre o passado e o percurso de um povo. É aí que qualquer turista quer começar por saciar a vontade de conhecer mais de uma terra nova. E tudo o que querem, para começar, são pratos da cozinha tradicional que praticamente não existem, enquanto argumentam que se estão em Cabo Verde, não querem menos do que o típico da gastronomia e souvenir’s de artesanato local. Mau grado as expectativas, acabam, em regra, induzidos nas ruas da cidade a levar para casa, gato do Senegal por lebre de Cabo Verde, impelindo o visitante a desvirtuar a  “carga” da lembrança pela sua falsa origem  e a levar na bagagem, no regresso a casa, um souvenir que promoverá um outro país.

Imagino o quanto poderíamos ir ao encontro dos nossos próprios anseios e das expectativas dos nossos visitantes a quem tanto queremos agradar e impressionar se pudéssemos apresentar a rua da Praia – mesmo às bordas da Baía, na entrada do centro histórico  da cidade – como cartão de visitas de S. Vicente. Se em lugar das lojas de plásticos, de roupas e objetos chineses, exibíssemos nessa artéria movimentada de nacionalidades, ateliers de instrumentos de música, de pintores, artesãos, escultores e oleiros. Se se melhorassem as calçadas das ruas ascendentes até aos paços do concelho onde se juntam em harmonia, os edifícios históricos da Câmara Helena Leite _5_Nos GentiMunicipal e da Igreja matriz. Se na espaçosa  rua de Sto. António se instalassem restaurantes, bares, cafés e esplanadas onde não faltasse nas mesas, entre as iguarias da terra, a  suculenta, nutritiva e saborosa cachupa  fresca; se por entre o cosmopolitismo das gentes, artistas pudessem pintar e criar ao ar livre e mornas e melodias crioulas   soar  na rua   para surpreender residentes,  visitantes e turistas estrangeiros ensinados com Cesária Évora a deixarem-se encantar pelas mesmas melodias com que a nossa diva levantou plateias e arrebatou ovações.  Se  na Rua de Matijim se encontrassem soluções para a dignificar sem a descaracterizar da sua fama de rua de “passa sab” e, finalmente, se o esplendor do Carnaval não se ficasse pelos três dias de Fevereiro e, fora de época, se exibisse em todo o seu  fulgor  o apogeu da criatividade dos sanvicentinos  nessa manifestação cultural e assim  mostrar  às rotas turísticas mais viajadas que, à dimensão da ilha,  o Carnaval de S. Vicente nada fica a dever ao Brasil.

Provavelmente é sonho, mas enquanto esperamos pelos grandes empreendimentos e investimentos de tantos biliões de dólares repetida e cansativamente prometidos para S. Vicente de há uns anos a esta parte, Mindelo poderia ir tentando  por vias mais modestas e humildes, intensificar e diversificar a promoção da sua cultura; dinamizar o seu comércio local e recuperar e estimular a confiança em si própria e criar assim, uma nova atmosfera cultural e de negócios. Temos é que fazer por isso!

Helena Leite


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Comentários

  1. Carlaroque Diz: Outubro 28, 2012 at 1:34 am

    Transmitiu pela escrita o que eu senti,quando estive em fev/mar dsete ano emS.Vicente,passados 37 anos de ter estado na minha terra.Uma estagnação emorne e tanta coisa por fazer.Falta de vontade?falta de opoios?não sei mas fartei-me de ouvir nos restaurantes “catêm”!

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