Gil Querido Varela – A independência na linha da frente
30 Set 2012

Gil Querido Varela – A independência na linha da frente

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Nascido em 1935, Gil Querido Varela (Kid) esteve sempre em Cabo Verde na luta de libertação. A sua relação com os seus camaradas de luta – Fernando dos Reis Tavares (Toco), José Querido (Zequi), Emanuel Braga Tavares (Shanon) e José Aguiar Monteiro (Zézé) – depois do 25 de abril e da Proclamação da Independência, manteve-se sólida e cúmplice, como antes, em que a palavra de ordem era confiança. 

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Depois de São Vicente, Santiago foi o palco da luta contra o colonialismo português. A saída de muitos estudantes para prosseguirem os seus estudos universitários em Portugal, esvaziou São Vicente dos seus principais ativistas políticos. Na década de 1960, já se colocava a hipótese de se iniciar a luta armada em Cabo Verde. No dia 21 de julho de 1963, Amílcar Cabral enviou um comunicado aos cabo-verdianos e guineenses, bem como “aos combatentes, responsáveis e militantes do partido”, onde chamava a atenção para a necessidade de intensificar a luta em Cabo Verde, passando-a da fase política à fase da ação direta da luta armada.

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5- Querido Varela - Revista Nos Genti -

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Em 1968, a PIDE lançou o primeiro golpe às estruturas clandestinas do PAIGC, com a prisão dos seus principais dirigentes, seguindo-se Gil Querido Varela e os seus companheiros Fernando dos Reis Tavares, José Querido, Emanuel Braga Tavares e José Aguiar Monteiro, todos eles tendo trabalhado a favor do PAIGC na ilha de Santiago, e cuja principal missão era preparar o desembarque de Amílcar Cabral, sob orientação de Reis Tavares. Foram presos e torturados na cadeia civil da cidade da Praia, tendo sido julgados apenas dois anos depois. O internamento nessa cadeia era caracterizado por interrogatórios, torturas físicas e psicológicas e pela formulação dos processos de condenação – registo da condenação e definição do último destino de cumprimento da pena num campo de trabalho.

Relatórios e informações da PIDE/DGS da delegação da Guiné e de Cabo Verde mostram que Cabo Verde vivia sob a ameaça de uma luta armada executada pelo PAIGC, afirmando que possuíam três barcos de nacionalidade russa, com os quais planeavam uma operação de ataque terrorista em Cabo Verde.

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Gil Querido Varela - Revista Nos Genti -

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Gil Querido Varela conta que, antes da Independência, a época era muito difícil por causa da PIDE e dos informadores. “Era difícil confiar em alguém” relembra, “mas nós, aqui em Sta. Catarina, confiávamos uns nos outros. Depois da vinda de Toco da França, começámos a levar a luta a sério. Passámos a combater organizados, mas foi uma época bastante difícil.” Para ele, o momento mais marcante da época foi a notícia da morte de Amílcar Cabral. Conforme refere, “ouvi a notícia na rádio. Quando me fui deitar, o meu irmão já estava a dormir e só de manhã é que tive coragem de lhe contar o sucedido.” Depois desta tragédia, Gil Querido Varela confidencia que, sempre teve esperança que alguém sucedesse Cabral e não deixasse a luta cair. Quando conheceu os novos líderes do partido, continuou a acreditar que este era o caminho certo para levar Cabo Verde à independência.

No período da revolta dos capitães de abril, Varela explica que “a sensação era de vitória, uma vitória já alcançada”. No Dia da Independência Nacional, a 5 de julho de 1975, quando viu baixarem a bandeira colonial portuguesa e hastearem a primeira bandeira cabo-verdiana, ao som do discurso da independência, afirma que sentiu “a alegria inexplicável de uma luta vencida. No entanto, conforme refere, “sabia que se aproximava outra luta: a da guerra do desenvolvimento.”

Para Gil Querido Varela, a vida dos cabo-verdianos e Cabo Verde depois da independência, com um país novo e uma História nova, evoluiu e melhorou muito. “De um país inviável passou a ser considerado viável, com prestígio no mundo, apesar do seu tamanho”, e acrescenta que, “tornou-se uma referência de boa governação, mesmo com as diferenças internas. Isto é uma grande responsabilidade para um país pequeno e de poucos recursos. É preciso ser responsável, porque, apesar da nação cabo-verdiana já estar consolidada, é imperativo continuarmos a trabalhar”.

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Gil Querido Varela - Revista Nos Genti -

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Acredita que a geração mais nova, a geração da independência, está preparada para dar continuidade ao esforço que, em conjunto com os camaradas do seu partido, fez para que se pudesse alcançar a independência nacional e o Estado que hoje Cabo Verde representa, “porque eles devem continuar a História, que ainda não está acabada”, explica.

Varela é da opinião que as várias mudanças políticas que Cabo Verde conheceu nos últimos 37 anos – começando com o Partido Único, o Estado Social, seguindo-se a democracia num modelo diferente daquele que foi pensado inicialmente e agora com uma maturidade de partilha das diferenças políticas – “ainda poderão ser melhoradas”, afirma. Crê, também, que Cabo Verde poderá ser um país de referência, “criando e educando gente estruturada, orientada e em que os seus governantes estejam direcionados para a gestão do bem comum e da causa pública”.

O corajoso lutador apela para que os jovens “pensem em maneiras de levarem o país a avançar ainda mais, porque, apesar de tudo, Cabo Verde é um país frágil e é sempre preciso ter cuidado para que não regrida. Por outro lado, as pessoas são fortes. Podemos ver pela importância que Cabo Verde tem no mundo. É um país pequeno, mas tem muito prestígio, pois teve homens que souberam granjear esse respeito mundialmente”.

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No entanto, conforme afirma, “o desenvolvimento traz consequências”, acrescentando que, “houve perda de certos valores. Os valores da moral, do respeito pelos mais velhos, da ética, do respeito pelo bem comum, diminuíram bastante e, no mesmo grau, aumentou a criminalidade”. A mensagem que este bravo combatente transmite aos mais jovens, é que, “continuem fortes, firmes e lutem constantemente por Cabo Verde.”


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