Germana Gomes – O contributo da independência para a saúde em Cabo Verde
30 Out 2012

Germana Gomes – O contributo da independência para a saúde em Cabo Verde

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Nascida em 1934 em São Vicente, Germana Gomes ausentou-se da sua ilha para estudar na Escola Primária de São Nicolau. Concluído esse objetivo, voltou a São Vicente, para cursar o liceu até ao 2º ano. De seguida, decidiu terminar os estudos na Praia, tirando o Curso Geral de Enfermagem, terminando-o em 1956 com uma boa classificação. Descobriu assim, sem nunca ter entrado num hospital, que tinha nascido para ser enfermeira. 

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Germana Gomes - Revista Nos GentiAntes da independência, havia acesso à saúde, mas, como refere a enfermeira Germana Gomes, “não existiam muitas condições para prestar cuidados às pessoas, por falta de recursos e pessoal especializado”. Em Cabo Verde, existia apenas um cirurgião que trabalhava em São Vicente, e que se deslocava à Praia todos os anos para fazer cirurgias programadas, havendo, contudo, clínicos gerais que tratavam, por exemplo, apendicites agudas Conforme conta, “as cirurgias de grande porte eram feitas uma vez por ano. O cirurgião deslocava-se à Praia e estava ali cerca de um mês a fazer as grandes intervenções cirúrgicas, realizando também as funções de outros profissionais da saúde: anestesista, traumatologista, e muitas outras funções para as quais não haviam especialistas.”

“O hospital de São Vicente chegava apenas a ter dois ou três médicos. Na ilha de S. Nicolau havia apenas um. Os médicos eram em número muito reduzido. Normalmente, havia um médico para cada ilha, mas, a ilha de Maio não tinha médico e na Brava havia um de vez em quando. No Fogo tinha um ou dois, mas não ultrapassava isso”, enumera. “Todas as especialidades eram canalizadas para São Vicente ou para a Praia, onde o pessoal também era escasso e os meios de diagnóstico limitados. Em casos mais urgentes ou quando existiam grandes acidentes, enviava-se os doentes para São Vicente, normalmente de barco. Havia apenas um médico cirurgião, que também exercia, traumatologia e anestesia. Acabei por aprender muito com ele. Na década de 70 e antes da independência, eu era a única pessoa a fazer as anestesias. Só mais tarde começaram a chegar especialistas cubanos”, confidencia. “Antes da independência, praticamente não havia um serviço de saúde. Havia uma medicina curativa, mas a medicina preventiva era muito limitada”, recorda.

Contudo, apesar de todas as limitações, os enfermeiros contribuíram muito para a área da saúde em Cabo Verde. Nos momentos mais difíceis do país, impediram que se perdessem muitas vidas. Exemplos disso foram os anos de fome, em 1940 e 1947, e na época das secas avassaladoras e das epidemias que frequentemente devastavam o país. Os enfermeiros tiveram de lidar com duras provas. Eram transferidos constantemente para diversos lugares sem condições para poderem manter a família, o que fazia com que muitos tivesses de abandonar os lares e partirem sozinhos. Devido à escassez de médicos em todo o território, inúmeras vezes, para poderem salvar uma vida, tinham de efetuar procedimentos para os quais não estavam preparados. Assumiam então as funções de médicos, especialistas, administrativos, técnicos de farmácia, entre outros, que, se por um lado lhes conferia alguma autonomia, por outro, podiam levar, profissional e legalmente, a situações complexas.

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Germana Gomes

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A independência de Cabo Verde e os frágeis recursos humanos e materiais, impuseram uma modificação nos setores da vida pública. Apesar de ser um aspeto importante, nessa altura não se podia falar de uma política de saúde. A escassez de hospitais, de médicos e enfermeiros, impediram a prevenção, a proteção e a promoção da saúde, o que confinava o país à pratica da medicina curativa.

No início da independência, as doenças transmissíveis, como a hanseníase, a malária e as doenças sexualmente transmissíveis, prevaleciam com taxas muito elevadas devido à insuficiência de serviços de educação para a saúde, às condições de vida das pessoas e ao saneamento básico e saúde ambiental. Além dos dois hospitais que havia na Praia e no Mindelo, os 27 postos de saúde eram, muitas vezes, instalados em casas alugadas, sem quais as condições mínimas, num mau estado de conservação e sem os equipamentos necessários. Em todo o país existiam 13 médicos, dos quais 11 eram nacionais, além de 140 enfermeiros auxiliares e gerais. Também haviam alguns agentes sanitários que tinham o objetivo de erradicar do país a malária e controlar a dengue e a febre amarela.

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Germana Gomes - Revista Nos Genti -

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A experiente enfermeira confessa que, “até certo ponto, pode-se dizer que houve uma mudança rápida após a independência, porque começaram a chegar vários especialistas, vários cirurgiões e anestesistas de Cuba e de Cabo Verde que, entretanto lá se encontravam a estudar”. No campo da saúde, nos primeiros anos de independência nacional, registou-se uma grande cooperação com a Cuba. Os profissionais cubanos, juntamente com alguns portugueses, foram dos primeiros a chegar. Posteriormente, começaram a surgir bolsas para os cabo-verdianos, algo que antes não existia, para fazerem cursos em Portugal, Cuba e Brasil. Mais tarde começaram a regressar ao país, o que contribuiu para as melhorias registadas na área da saúde.

Germana GomesAo longo destes 37 anos de independência, Germana Gomes é da opinião que a saúde cabo-verdiana evoluiu, a ponto de deixar de ser uma saúde primária, tornando-se uma saúde que promove a melhoria de vida e o bem-estar dos cabo-verdianos. Conforme diz, “existe atualmente uma saúde preventiva que funciona. Antes, não se falava na prevenção; apenas se dava atenção à medicina curativa. Hoje em dia, já há uma grande preocupação ao nível da medicina preventiva”, e adiante que, “atualmente é raro encontrar uma criança que não tenha as suas vacinas todas: a poliomielite, o sarampo, a difteria, a tosse convulsa. Hoje, praticamente, erradicámos essas doenças de Cabo Verde. A mortalidade infantil aumentava todos os anos e os partos eram, na sua maioria, difíceis e sem acompanhamento médico ou de técnicos de enfermagem. Demos um salto muito grande na saúde. É sem dúvida, um dos grandes ganhos da independência”, e acrescenta, “embora ainda não estejamos satisfeitos, nem tenhamos tudo. Há ainda uma caminhada longa a percorrer. Temos muitas saídas para o estrangeiro, sobretudo para Portugal”.

Sendo Cabo Verde, antes e no início da independência, comparável a um país subdesenvolvido, Germana Gomes associa o aumento da esperança de vida dos cabo-verdianos, à melhoria da saúde, pois atualmente há uma taxa bastante elevada de idosos na faixa etária dos 70 e 80 anos. Também morriam mais crianças no passado, sobretudo, na época quente das chuvas. Morriam de doenças diarreicas, respiratórias agudas, avitaminoses, doenças nutricionais, febre tifoide, pneumonia, sarampo, desidratação, entre outras. Havia igualmente uma taxa elevada de óbitos em crianças. “Apenas quando as crianças já estavam muito mal é que os pais as levavam ao hospital, só que nessa altura nós já não tínhamos muito a fazer. Por isso a educação é um fator muito importante na área da saúde. Quanto menos analfabetos tivermos, melhor. Hoje já não temos aquela taxa enorme de analfabetismo que havia antes, e isso repercute-se na saúde”, refere.

Uma das grandes preocupações atuais ao nível da saúde é o aumento dos casos de SIDA em Cabo Verde. O problema está, segundo a enfermeira, “no comportamento e na educação, sobretudo na camada jovem. Há muita liberdade na juventude. Não é falta de informação, porque a informação transmite-se regularmente nas escolas; fazem-se palestras e os meios de comunicação social frequentemente abortam esta temática. Só não está informado quem não quer. Toda a gente sabe que a SIDA mata. Toda a gente sabe quais são os meios de transmissão, contudo, a juventude não presta atenção” e conclui dizendo, “um meio para se chegar a esses jovens é a existência de programas de educação em todas as escolas, direcionados especificamente para a saúde”.

Após a independência, Germana Gomes passou para o ramo do ensino da enfermagem, “uma vocação que desconhecia”. Para a enfermeira, não pode haver uma dissociação das duas vocações. Conforme diz, “gostei de tudo. Costumo dizer que nasci para ser enfermeira. Vivi quase toda a minha vida no hospital e agora que já lá não estou, sinto que não sou a mesma pessoa”.

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Germana Gomes

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No entanto, para Germana Gomes, atualmente nem tudo é positivo. Conforme refere, “há uma perda de valores na classe profissional dos enfermeiros da atualidade. Eu fui professora de quase todos os enfermeiros que estão no hospital. Formei 450 enfermeiros, mas há coisas que não me agradam. Quando oiço o que dizem e vejo o que fazem, sinto uma frustração. Antes éramos poucos no hospital, mas dedicávamo-nos muito mais aos doentes do que agora. Havia um sentido de missão. Hoje em dia, apenas há um sentido do dinheiro. Não tínhamos preocupação com as horas de saída, ao contrário de hoje. Sinto-me triste por já não ser como era.” Se atualmente tivesse de sugerir alguma mudança comportamental na classe dos enfermeiros em Cabo Verde, as sugestões “seriam de natureza ética. O aspeto humano é fundamental e eu costumava dizer isso aos meus alunos. Não é só dar uma injeção e um comprimido ao doente”. O calor humano e o interesse pela pessoa, é meio caminho para a cura”, e conclui que, “quando uma pessoa se queixa, entra a parte humana, que muitas vezes vale muito mais para o doente que a parte técnica. No último curso que abrimos em enfermagem, em que estive, apareceram quase 1000 candidatos. Estão há procura de um emprego. É isso o que está a acontecer”, reclama, “o doente é visto como um objeto, um número.”

Atualmente, os médicos e enfermeiros estão cada vez mais especializados, contudo, a enfermeira pensa que no passado havia muito mais interesse do pessoal de enfermagem em aprender. “Hoje há uma ânsia extrema em ganhar dinheiro e não há a preocupação de ver o doente como um ser humano que precisa de apoio e de carinho. A maioria das pessoas que se candidatam ao curso de enfermagem vão há procura de uma profissão. É por isso que eu digo aos estudantes de enfermagem que, temos de acarinhar as pessoas e tentar sempre compreendê-las.”



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Comentários

  1. Odete Matos Pereira Diz: Janeiro 21, 2016 at 7:44 pm

    Foi para mim uma honra conhecer e trabalhar ao lado desta grande Senhora Caboverdiana e foi muito fácil tornarmo-nos amigas. Desejo portanto manifestar-lhe uma vez mais o meu grande apreço e a minha consideração pelo seu trabalho abenegado e contínuo pelo desenvolvimento da saúde e da enfermagem em Cabo Verde.

  2. Mise Monteiro Rodrigues Diz: Janeiro 20, 2016 at 3:26 pm

    Prima Germana uma enfermeira da primeira e sempre pronta para ajudar o seu povo nos momentos mais difíceis! Parabéns prima e beijinhos!

  3. margarida prado Diz: Julho 18, 2015 at 6:25 pm

    Nha madrinha querida

  4. Bethânia Gomes Diz: Fevereiro 27, 2014 at 9:45 am

    Tia Germana. Grande exemplo de mulher e profissional.
    Tia muito querida.
    Te amo

  5. Elias monteiro Diz: Fevereiro 27, 2014 at 8:54 am

    I love you tia Germana beijinhos

  6. Isabel lopes strait Diz: Fevereiro 26, 2014 at 7:02 pm

    Hello Tia

  7. Mi e Caboverdiano mas feliz de Mundo!
    Porque quando um ta oia pessoas moda Dona Germana que dedica se vida pa da nos pove vida um ta fca sabe Jovens e pa bzote tma es ezemple dela

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