Filomena Fortes – “É urgente apostar no desporto feminino”
30 Jul 2013

Filomena Fortes – “É urgente apostar no desporto feminino”

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Natural de Luanda, Angola, Filomena Fortes escolheu Cabo Verde para trabalhar. O facto de Cabo Verde ser a terra de origem da sua mãe, avós maternos e avô paterno foi decisivo no momento da escolha. Chegou a Cabo Verde em 1983 concluindo aqui os estudos secundários. Depois, partiu para Cuba, onde se licenciou em desporto. Conclui o mestrado em desporto na cidade do Porto e o doutoramento em Ciências da Educação em Lisboa. Atualmente é Coordenadora Nacional de Educação Física e Desporto Escolar do Ministério da Educação e Desporto e presidente da Federação Cabo-verdiana de Andebol.
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O andebol está-lhe no sangue. Ainda em Luanda, depois de ter experimentado várias modalidades, optou pelo andebol. Começou por jogar na equipa do 1º de Agosto e depois no Ferrovia. Entretanto veio para Cabo Verde e consigo trouxe a paixão pela modalidade, continuando a jogar e a treinar, primeiro em Santiago, depois em São Vicente.

O que representa para si o associativismo desportivo? 

Para alguém estar no associativismo é preciso gostar, pois não é fácil num país como este, com fracos recursos. É preciso ter grande vontade de fazer algo de construtivo.

Porquê o andebol? 

Talvez porque em Luanda era o desporto mais praticado a nível feminino. O gosto pela modalidade ficou e foi aquela à qual mais me dediquei.

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Selecção Cabo-verdiana de Andebol Feminino

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No que diz respeito às condições oferecidas aos atletas, como vê o desporto de alto rendimento em Cabo Verde? 

Sou um pouco crítica em relação ao desporto de alta competição em Cabo Verde, talvez por não ter estado sempre cá e ter tido outra vivência do que é o desporto de alta competição. Para mim, o desporto de alta competição é algo que se faz durante todo o ano e que necessita de uma planificação mínima de quatro anos em relação aos jogos olímpicos e a tudo o resto. Em Cabo Verde isto não se faz; não há programação de desporto ao nível de alta competição.

Está-se agora a dar alguns passos. Acho que temos tido sorte em algumas modalidades, nomeadamente no futebol, mas temos que nos recordar que a maior parte dos jogadores trabalha lá fora e, portanto, trazem consigo outro tipo de disciplina desportiva que cá ainda não existe. O basquetebol também já tem tido alguns resultados positivos, mas também aqui, a maior parte dos jogadores joga em campeonatos no estrangeiro.

O que precisa de ser feito em Cabo Verde é um trabalho de base no desporto e isso só é possível com o desporto escolar. Costumo dizer que é preciso adotar o modelo dos Estados Unidos – não uma cópia; refiro-me à importância que o desporto assume nas escolas e depois, mais tarde, nas universidades. É necessário ter desporto desde a base e dar condições para que os alunos se interessem pela sua prática. Um dos graves problemas de implementação do desporto escolar em Cabo Verde neste momento são as infraestruturas. Temos muitas vezes escolas do ensino básico sem infraestruturas, sem espaço de recreio onde as crianças possam despender as suas energias através de qualquer atividade física, independentemente da modalidade que possam eventualmente aproveitar. Tem que se trabalhar o desporto escolar para que as federações possam dele retirar os seus futuros campeões.

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Filomena Fortes

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Como se aplica a Lei Laboral ao atleta de alto rendimento? 

Há dois anos, um atleta – que é funcionário de uma empresa privada – foi representar Cabo Verde numa prova internacional. Quando voltou, não tinha o vencimento correspondente ao tempo de ausência enquanto representou o seu país. A empresa justificou-se dizendo que se tinha limitado a atribuir a licença de jogador, mas se não trabalhou, não recebeu. Tivemos que acionar mecanismos, falar com a Direção Geral de Desportos e mostrar que o Estado teria que pagar.

Em Cabo Verde, ninguém recebe: o jogador não recebe, o treinador da seleção não recebe. Qualquer treinador que chame para treinar a seleção é por boa vontade, recebe zero! Quando estivemos nos jogos em Moçambique, em conversa com os atletas angolanos, nos nossos jogadores tiveram noção do dinheiro envolvido com os seus colegas e ficaram perplexos.  Nós nem ajudas de custos temos! Fomos campeãs da zona dois a viajar parte do percurso de avião e parte de autocarro; a chegar de manhã e a jogar às quatro da tarde… É de tirar o chapéu a toda a gente que pratica desporto em Cabo Verde, pois é gente que avança e luta, mesmo sem condições e sem esperar gratificações.

Entre o desporto escolar e o de alto rendimento, há o papel importante dos clubes. Como caracteriza hoje os clubes cabo-verdianos e quais são os resultados da sua atuação, não só no aspecto desportivo, mas também ao nível social?

A nossa realidade é um pouco complicada. Por exemplo, no andebol são poucos os clubes que têm sedes e que funcionam como clube – eu costumo chamar-lhes equipas. Para mim, um clube é algo muito diferente, com uma organização séria e que faz um trabalho a fundo no desporto. Em Cabo Verde temos pessoas de boa vontade e que se engajam; muitas vezes o presidente do clube é o treinador, o seccionista, o árbitro, enfim, é tudo… isso não é ideia de clube; há pessoas com muita vontade que querem trabalhar e gostam de o fazer e que são as mais sacrificadas. Em relação à família, esta participa de alguma forma: o facto de deixar o filho sair para ir treinar, e de muitas vezes contribuírem no transporte ou mesmo na aquisição dos equipamentos desportivos, etc.

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Andebol Feminino

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O desporto tem um papel social. Ainda recentemente se discutia no âmbito de um projeto denominado Escola Promotora da Saúde e eu dizia que não se pode idealizar um projeto dessa natureza sem a existência de desporto nas escolas. O desporto tem que estar na escola, tem que começar na escola, até para que as crianças e adolescentes não se desviem para lados problemáticos da sociedade. Vejo o desporto como forma de ocupar os tempos livres das crianças e dos jovens, ajudando-os a tirá-los dos malefícios que esta nossa sociedade globalizada acarreta. Cada vez mais as crianças deixam de praticar desporto ou qualquer atividade física para ficarem em casa nos jogos, ou no facebook, sem qualquer dispêndio de energia física.

Acredita ser possível que em Cabo Verde se consiga ter um andebol de referência africana e que este se torne uma modalidade com capacidade de gerar atletas capazes de despertar o interesse de clubes internacionais?   

Se não acreditasse não estaria aqui! Acredito que, pelo menos em termos femininos, possamos dar um salto ao nível de África, aproximando-nos do nível de Angola (que é o topo de África no andebol feminino) mas é preciso, que se comece a trabalhar ao nível da base e que haja vontade política de se apostar mais no desporto.

Cabo Verde tem moldura humana para crescer. Não há em Cabo Verde menina que não saiba jogar andebol. Fomos campeãs da zona 2 ao nível de sub-20 com a primeira seleção que saiu de Cabo Verde e apesar de ninguém nos conhecer, somámos vitórias e fomos campeãs. Fizemos um grande trabalho com um treinador francês, o Pierre, e que agora está no Interclube de Luanda, como tal, temos que ter alguém na Federação Cabo-verdiana de Andebol a tempo inteiro e que faça esse trabalho, para assim podermos sair do marasmo a que o andebol nacional chegou. O Governo tem que apostar mais nos escalões de formação, não pode só comparticipar no escalão sénior. Esta é a nossa luta sempre que vamos discutir um contrato programa com o Governo. Temos que aproveitar as parcerias que temos com Angola e seguir o bom exemplo do 1º de Agosto, o clube onde comecei.

Como consegue programar, sem clubes e sem estrutura jurídica, campeonatos regulares nacionais e interilhas que permitam ter um ano intenso de atividades? Como é possível com parcos recursos ter a qualidade que ainda há pouco referiu? 

Pelo facto de as pessoas estarem envolvidas e amarem a modalidade. O campeonato nacional de andebol resume-se a dois fins de semana que é o que é possível fazer neste momento. Para mim um campeonato nacional pressupunha que cada ilha pudesse disputar entre si vários jogos, mas isso tem custos. Por exemplo no futebol isso acontece, mas há a FIFA por trás. Além disso, é o desporto-rei e, por isso, recebe mais recursos do Governo.

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Andebol Feminino Cabo Verde

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Em Santiago Sul é onde o campeonato é mais intenso. Realiza-se durante quase todo o ano. A Federação organiza apenas a fase nacional. Desde a nossa tomada de posse, temos tentado estudar o melhor modelo a utilizar para o andebol, com menos custos possíveis. A primeira vez, fizemos um torneio onde estiveram cá todas as ilhas durante uma semana – isto não é rentável para Cabo Verde. Somos ilhas e já nenhuma equipa aceita viajar de barco de uma ilha para outra e, como tal, o dinheiro que mais gastamos é em transportes. A Federação paga tudo e isto não é normal em nenhum país. Lá fora, os clubes pagam o transporte e o alojamento e em Cabo Verde isto não acontece.

Há clubes que pagam bolsas de estudo aos atletas e alguns até pagam vencimentos. Quando chegam ao nacional já não têm dinheiro para poderem comparticipar. Há dois anos, em Assembleia Geral da Federação, decidiu-se que os clubes teriam também que comparticipar. Neste momento, a Federação paga o transporte e o clube paga, ou o alojamento, ou a alimentação. A Federação tem custos com os árbitros, com aluguer de espaços e tudo isso é muito caro. Temos um orçamento de 4 mil contos para fazer um campeonato feminino e masculino e só de passagens aéreas gastamos mais de 3 mil contos.

Quantos praticantes de andebol federados existem em Cabo Verde?

Atualmente são mais de mil. Fizemos um censo em todas as ilhas e detetamos que este número tem vindo a diminuir, sobretudo no universo feminino. Estamos a ficar sem andebol feminino! Neste momento, não há andebol feminino no Fogo, na Brava, no Maio e no Sal – uma ilha que foi sete vezes campeã nacional em masculino. Lutamos para se investir mais no desporto feminino. No próximo ano, qualquer equipa para se apresentar no campeonato regional terá que ter equipa feminina.

E porque é que isso está a acontecer? 

O desaparecimento de equipas femininas está a dever-se a questões culturais e a novas alternativas. Antigamente, ou se praticava desporto ou não havia mais nada. Hoje há imensas alternativas. Com as novas tecnologias as meninas tendem a ficar mais em casa… estamos a perder um pouco a relação humana, o toque com todos os problemas que isso pode acarretar. Ao nível do ensino básico e secundário temos mais meninas que rapazes, mas as meninas estão a abandonar o desporto – não é só no andebol, é em todas as modalidades.

Que desejos tem para o futuro do andebol em Cabo Verde?

Gostava de um dia poder dizer que comecei um trabalho que já deu frutos. Como candidata ao Comité Olímpico Cabo-verdiano, ouvi colegas dizer-me que ainda não posso largar o andebol, porque ainda não apareceu nenhum “doido” como eu… Eu acho que neste momento o andebol já tem pernas para andar, já ocupámos o lugar que ambicionávamos e já nos demos a conhecer. Ninguém conhecia o andebol cabo-verdiano e, neste momento, a nível nacional, ao se falar de modalidades de renome, fala-se de futebol e depois de andebol. O andebol, a nível nacional, está bem e ao nível de África já há um grande respeito pelo andebol cabo-verdiano! Apenas a continuidade me preocupa, pois estamos com atletas muito velhos…

Como revelou uma candidatura ao Comité Olímpico, qual é a sua opinião sobre a solidariedade olímpica, qual o papel e responsabilidade do Governo como responsável representativo junto do Comité Olímpico Internacional e que expectativas tem para fazer do olimpismo cabo-verdiano uma referência? 

Espero que um dia seja referência no meu país, que seja conhecido e tenha força cá dentro. Precisamos de nos organizar internamente para depois dizer: vamos ter alguma projeção ao nível de África.

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Filomena Fortes

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Há responsabilidade do Governo, pois se há um Comité Olímpico é porque há um Governo e se há um Governo, também tem de haver uma responsabilidade. Até agora o Comité Olímpico tem trabalhado sem grande engajamento do Governo o que faz com que não tenhamos aproveitado mais a solidariedade olímpica.

A ideia da minha candidatura é aproveitar da melhor forma possível a solidariedade olímpica que é dada a todos os Comités Olímpicos. A solidariedade olímpica é importante na questão da formação e no que diz respeito ao desporto feminino, que é uma das nossas apostas, é uma das áreas que poderia ser mais bem aproveitada por Cabo Verde. Estamos a ficar sem praticantes no feminino e poder aproveitar toda essa vontade da solidariedade olímpica internacional e do Comité Olímpico Internacional só nos traria vantagens.  Não é preciso muito dinheiro para fazer campeões! Cabo Verde não tem recursos económicos, mas tem recursos humanos e esses são os melhores. Cuba foi uma lição de vida para mim: vi fazerem muito com muito pouco! Cabo Verde pode fazer o mesmo, e o olimpismo e a solidariedade olímpica, em conjunto com o Governo, podem fazer a diferença para o futuro do desporto nacional.


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