Emília das Dores Santos — “Esta é a minha história”
16 Ago 2016

Emília das Dores Santos — “Esta é a minha história”

“Nitinha” sempre cresceu com apetência para o negócio. Desde muito cedo que o comércio faz parte da sua vida. Fez o seu primeiro negócio aos dez anos de idade e, desde essa altura, nunca mais parou. Dona de uma memória prodigiosa, Emília das Dores Santos “Nitinha” é uma mulher feliz e realizada. Com esforço, dedicação e muito trabalho, conseguiu realizar o sonho de construir o seu próprio negócio. Atualmente é proprietária da Bela Sombra, um complexo turístico no coração da cidade da Ribeira Brava. Esta é a história da sua vida, feita de trabalho, amor, honestidade e simpatia. 

 

Emília das Dores Santos

Nasci na localidade da Fajã a 20 de setembro de 1939. Com quatro anos de idade, vim com a minha mãe para a Vila da Ribeira Brava. Quando chegou à altura de ir para a escola, a minha mãe regressou a Fajã e eu fiquei entregue a umas pessoas amigas. Fiquei com elas até terminar a segunda classe. Depois a minha mãe voltou para a vila e eu fiquei junto dela.

Quando completei a quarta classe, os meus parentes deram-me dezassete escudos como recompensa. Com esse dinheiro, fui a Fajã, à casa da minha avó, e comprei-lhe cinco dúzias de ovos. Como queria muito um cordão de ouro e a minha mãe não tinha possibilidade de me comprar um, engendrei um estratagema para o conseguir comprar. Vim para a vila onde costumava estar um caixeiro-viajante que comercializava produtos entre São Nicolau e São Vicente. Quando o vi, fui ter com ele e dei-lhe os sessenta ovos para ele os vender em São Vicente. Quando regressou, quis dar-me o dinheiro da venda, mas eu apenas quis novamente os dezassete escudos para voltar a comprar mais cinco dúzias de ovos. Pedi-lhe para ele juntar o lucro das vendas até conseguir dinheiro suficiente para comprar o cordãozinho de ouro. Mandei várias vezes ovos até que, na última vez, ele disse-me que já tinha dinheiro suficiente para comprar o cordão de ouro. Fui à casa Domingos António Duarte e comprei o cordão por 331 escudos e cinquenta centavos, não sem antes garantir que ficava com dezassete escudos.

Depois vi que precisava de uma medalha para o meu cordãozinho e continuei a mandar ovos até conseguir comprar a medalha da Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Custou-me 106 escudos. Continuei a mandar-lhe ovos e ele continuou a vendê-los. Então pedi-lhe para que, quando sobrasse dinheiro suficiente, me comprasse um tecido para eu fazer um vestido para levar à festa de Nossa Senhora do Rosário. Ele trouxe-me um tecido comprado em São Vicente, muito bonito, amarelo com uns cavalinhos e uma barra em azul-escuro. A minha mãe fez-me o vestido e eu pude estriá-lo na festa, junto com o meu cordãozinho de ouro. Estava toda “bazofa”. Ainda hoje os tenho guardados. Têm, para mim, um valor especial: foram comprados com o fruto do trabalho do meu primeiro negócio. Tinha na altura uns dez anos de idade. Nunca mais parei de fazer negócios.

Sempre fui inteligente. Não precisava de estudar muito para tirar boas notas. Fixava todas as matérias que a professora ensinava. Na turma de admissão ao liceu, era das melhores alunas. Quando chegou o momento de fazer o exame não quis ir para São Vicente; preferi ficar em São Nicolau a fazer negócios. Até hoje não me arrependo.

Vivemos na Ribeira Brava até aos meus 16 anos, altura em que fui prestar serviço numa mercearia que um dos meus tios possuía em Fajã. Fiquei lá durante 30 meses.

Entretanto, os meus pais conseguiram uma licença para abrirem uma farmácia na vila e eu regressei à Ribeira Brava para os ajudar no negócio. Trabalhei na farmácia durante 36 meses.

Depois engravidei e tive que parar de trabalhar, mas três meses após a minha filha ter nascido já estava novamente a trabalhar no comércio. Fui funcionária do Sr. Joaquim Soares durante 13 meses. Depois empreguei-me na casa do Sr. Adelino Santos Silva, também um respeitado comerciante da vila. Aí fiquei quase quatro anos. Depois fui trabalhar na famosa Casa Alves, talvez a casa comercial mais antiga e conhecida de São Nicolau. Trabalhei lá durante vinte e cinco anos menos quatro dias. Quando de lá saí, resolvi que estava na altura de montar o meu próprio negócio. Assim foi.

Comecei por servir almoços na minha casa. Os meus primeiros clientes foram os funcionários dos TACV e da Administração Pública que vinham em missão a São Nicolau. O meu primeiro almoço foi servido no dia 30 de maio de 1972. À medida que fui tendo mais clientes, verifiquei que já não conseguia servir todos esses almoços e jantares dentro de casa. Em 1991, falei com o meu genro para me ajudar a construir um espaço maior dentro do meu quintal. Precisava de um lugar onde pudesse sentar mais pessoas de cada vez, pois não suportava a ideia de ter os clientes em pé à espera de mesa para se sentarem. O meu genro contactou o arquiteto José Luís Lopes que veio propositadamente de São Vicente para estudar as condições existentes e sugerir as alterações necessárias para o funcionamento do restaurante. Desenhou o projeto e entregou-me todos os estudos e ideias que tinha elaborado. Na altura ainda não estava preparada para tamanha empreitada, pelo que aguardei melhor oportunidade.

No dia 20 de Janeiro de 1992 — feriado nacional — o meu genro, no intuito de começar as obras, mandou dois rapazes começar a demolir os anexos que tínhamos. Meteu-se o projeto na Câmara Municipal e esperei a sua aprovação. A resposta tardava em vir e eu comecei a ficar preocupada. Afinal já tinha começado a demolir parte da minha casa e ainda não tinha certeza de poder fazer as obras para o tão ansiado restaurante. Finalmente, chegou a resposta do gabinete técnico: tinha-me sido dada a autorização para poder demolir e voltar a construir. Respirei de alívio.

 

Emília das Dores Santos

Em onze meses a obra estava feita, apenas faltava colocar os portais, só que eu já não tinha dinheiro para continuar o projeto. Decidi então parar tudo até conseguir juntar o resto do dinheiro necessário à conclusão da obra. A minha filha, que na altura trabalhava num banco, falou com o gerente do balcão que foi de opinião que, no ponto em que a obra estava, seria um erro parar; tanto para mais que não havia nenhuma casa do género na Ribeira Brava com as condições que eu estava a idealizar. Sugeriu-me fazer um empréstimo bancário para concluir as obras. Sempre me tinha oposto à ideia de pedir empréstimos, por isso, fiz uma livrança de 300 contos e consegui colocar os portais no prédio. Fiz nova livrança de 300 contos e avancei nos acabamentos. Depois de já ter pago as duas livranças, precisava de comprar o mobiliário. Fiz então uma nova livrança de mais 600 contos. Nessa altura já tinha o restaurante a funcionar. Era o único restaurante de São Nicolau e todas as pessoas que visitavam a ilha vinham cá almoçar e jantar. O movimento que gerava ia-me permitindo pagar todos os empréstimos.

Chegou finalmente o dia em que a minha filha me disse que todos os encargos bancários estavam pagos e que, a partir desse momento, a casa era unicamente minha. Fiquei muito feliz.

Nunca tinha imaginado poder vir a abrir uma residencial. O meu gosto era o restaurante. Um dia, andava nas lides da casa quando dei comigo a pensar que tinha quatro quartos no rés-do-chão da minha casa e mais três no primeiro andar. Como não tinha mais ninguém a morar comigo capaz de ocupar tantos quartos (a minha filha já estava casada e tinha a sua casa e os meus sobrinhos não tinham intenções de vir morar comigo) achei por bem alugar os quartos. Desta forma, podia juntar o restaurante ao aluguer dos quartos e oferecer um serviço complementar aos muitos clientes que vinham de fora e não tinham onde dormir.

Eu e o meu genro voltámos a falar com o arquiteto e ele voltou a São Nicolau — agora para desenhar a parte da residencial. Com o projeto nas mãos, deixei amadurecer a ideia até que, certo dia, decidi que estava na hora. Mais uma vez meti o projeto à apreciação do departamento técnico da Câmara Municipal e, após algumas cedências que tive de fazer, o projeto foi aprovado. Construí então mais um andar por cima dos dois já existentes e onde fiz mais seis quartos. Finalmente tinha o projeto todo concluído: no andar de baixo o restaurante e por cima os quartos da residencial. É um projeto do qual muito me orgulho.

Era chegado o momento de dar nome ao complexo. Lembrei-me então da história do meu avô, que tinha sido emigrante nos Estados Unidos da América. Quando ele regressou a Cabo Verde conheceu a minha avó e casaram-se. Ficaram a morar em Fajã e lá nasceram os seus filhos. A casa que o meu avô construiu ficava junto da estrada num local com muitas plantas que davam sempre muita sombra nos dias de sol escaldante. Para ter espaço para construir a casa, o meu avô teve de arrancar todas essas plantas, o que lhe deu muita pena. Em jeito de homenagem às plantas que tinha acabado de remover, deu àquele lugar o nome de Bela Sombra. Como eu também nasci nesse belo lugar, quando chegou o momento de dar nome ao meu restaurante nem hesitei: ficou com o nome com que o meu  avô batizou o lugar onde nasci: Bela Sombra. Quando nasceu a minha neta Dalila foi outra alegria. Por isso, no momento de juntar o restaurante Bela Sombra à nova residencial o nome do projeto há muito que estava escolhido: ficou Bela Sombra Dalila.

Esta é um pouco da história da minha vida. É a história de alguém que se orgulha de sempre ter trabalhado de forma simples, mas honesta. De alguém que se orgulha de sempre ter tratado com respeito, carinho e simpatia todos os seus clientes. É a história de alguém que se sente recompensada por Deus. Esta é a história da “Nitinha”. Esta é a minha história.


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