Domingos Luísa – Tornar visível e palpável a criativa força interior
30 Nov 2013

Domingos Luísa – Tornar visível e palpável a criativa força interior

Domingos Luísa

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Domingos Luísa é um artista plástico autodidata. Desde a infância que sempre admirou o trabalho dos renascentistas. Tem nos trabalhos de Leonardo da Vinci e Miguel Ângelo as suas referências criativas. Com um perfeito domínio da técnica, Domingos Luísa expressa nas suas obras variadas dimensões do ilusório. Da escultura à pintura, do realismo ao surrealismo; estilos e técnicas que têm em comum a materialização do seu imaginário.

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Domingos Luísa, nascido em 1961 no Paúl, Santo Antão, assume-se como um instrumento de captação do real. Representar a sua visão do mundo é algo que muito o fascina, pois tudo o que faz é reflexo de algo mais maravilho e inexplicável. Apesar de não ser um homem religioso, Domingos Luísa é temente a Deus, atribuindo a esse facto a sua sensibilidade para descortinar mais além.

Enquanto representante da cultura cabo-verdiano, qual a experiência que mais o marcou ao longo da sua já longa carreira?

Foram várias, mas destacaria a minha participação na Expo 98 em Portugal, pois foi como que um trampolim para a minha carreira profissional. Integrado como cenógrafo do grupo Sementeira, fui para Portugal por ocasião da Exposição Mundial de 1998 que se realizou naquele país. A convite do então presidente da Câmara Municipal de Oeiras, tive a oportunidade de fazer a estátua do Trabalhador Africano que se encontra em Carnaxide. Tive a possibilidade de ficar dois anos em Portugal, o que fez com que os meus horizontes artísticos se ampliassem, aproveitando a oportunidade de conhecer obras de grandes artistas, o que foi muito importante para mim.

Tem obras expostas um pouco por todo Cabo Verde. O que sente depois de terminar uma obra e a deixar exposta nos vários espaços públicos do país?

Já fiz inúmeras obras em Cabo Verde. Da estátua de Amílcar Cabral, na ilha do Sal, ao poeta Pedro Cardoso no Fogo, passando pela Cesária Évora em São Vicente, ao Homem de Pedra, Baltazar Lopes da Silva, Eugénio Tavares, B.Léza, a Mulher Cabo-verdiana, em Porto Novo, o Santo António no Paúl que é uma obra com dez metros de altura, o Papa em Santiago… enfim, um cem número de representações que nos recordam quem contribuiu para sermos quem hoje somos.

Quando dou uma obra por terminada sinto um orgulho e uma satisfação plena. Infelizmente, em Cabo Verde, as encomendas são quase sempre feitas sobre enorme pressão de tempo, o que retira um pouco o prazer da criação. A título de exemplo, a estátua de Cesária Évora exposta no aeroporto internacional em São Vicente, teve, por força dessa pressão, que ser concluída em menos de um mês.

Fazer arte exige calma, estudo e ponderação. Gosto de criar e deixar o tempo evidenciar os pontos fracos da obra. Assim permite que se façam melhorias que são sempre importantes para o produto final.

Ao nível da escultura, o processo de trabalho em Cabo Verde é diferente do realizado noutros pontos do globo?

Aqui, temos mais limitações, a começar pela matéria-prima. Ainda estou à espera da primeira encomenda de uma estátua de bronze! Por isso, utilizamos essencialmente a pedra como base do nosso trabalho. Aliás, a pedra faz parte da identidade dos cabo-verdianos. Nascemos e a primeira coisa que vemos quando saímos à rua são as nossas casas e ruas feitas de pedra. Depois emigramos para trabalhar com pedra, na construção. Finalmente sonhamos em um dia retornarmos para construirmos uma casa… de pedra. Por tudo isto, a pedra faz parte da nossa cultura, da nossa identidade e da nossa vida.

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Domingos Luísa

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Retratar, através de esculturas, tão ilustres nomes da cultura cabo-verdiana, as quais estiveram presentes durante períodos distintos e em contextos diversos da história do país, não é tarefa fácil. Como é que escolhe o momento que melhor caracteriza o personagem por forma a que a escultura consiga transmitir a sua verdadeira essência?

Tinha sete anos quando saí de Cabo Verde e parti rumo à Guiné Bissau. Durante os 14 anos que estive na Guiné, fui assimilando a maneira de estar e de se portar daquele povo. Quando voltei a Cabo Verde, tinha então 21 anos de idade, identifiquei no povo cabo-verdiano características distintas daquelas que tinha visto na Guiné. O movimento dos cabo-verdianos era mais solto, com passos mais longos – devido às rochas onde se movimentavam – e com uma postura mais reta e rígida do corpo. Ao invés, o guineense andava com os pés mais rentes ao chão – lá a terra é plana – e menos hirto. Se colocássemos um cabo-verdiano, um guineense e um europeu a andarem, só pelo seu movimento eu os conseguiria distinguir. Confirmei isso quando, em Portugal, estive com o David Levy Lima que, na altura, já não vinha a Cabo Verde há mais de 25 anos. Vi as suas pinturas e reparei que ele pintava cabo-verdianos com o movimento dos europeus. Disse-lhe que ele tinha que vir a Cabo Verde; ele veio e deu-me razão.

Com isto quero dizer que os movimentos e os gestos são adaptáveis ao meio ambiente em que nos encontramos. Para podermos retratar numa escultura a plenitude de um personagem, temos que o colocar no seu meio ambiente e dar-lhe o movimento que naturalmente flui dessa simbiose. É o que tento fazer nas minhas obras.

Mas nem só de esculturas é feita a sua obra. A pintura e o desenho são outras áreas que merecem destaque. A linha criativa é a mesma ou redimensiona todo o seu pensamento em função do suporte final onde será exibida a criação?

A escultura é mais complexa. É necessário dominar o espaço tridimensional, o que nem sempre é fácil. No entanto, quem dominar o desenho, tem mais vantagens aos nível da projeção volumétrica das formas, exigindo mais conhecimentos de anatomia e proporcionalidade multidimensional.

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Amilcar Cabral / Domingos Luísa

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A pintura é essencialmente um jogo de luz e sombras. É uma ilusão de ótica, que permite maior liberdade criativa. Dentro da pintura prefiro vaguear por vários estilos, não gosto de me sentir limitado, no entanto, devido à sua versatilidade, é um meio que exige grande domínio técnico.

Todos os artistas têm as suas fontes de inspiração. Onde se inspira para a criação das suas obras?

Há várias fontes de inspiração. Um tronco de uma árvore, por exemplo, pode não criar qualquer sentimento a determinada pessoa, no entanto, conjugado com o espaço-tempo, um tronco pode funcionar como catalisador de uma criação. O meu quadro a terceira dimensão, é algo que se revelava no meu interior e que só eu conseguia visualizar. Tendo a técnica e o conhecimento, consigo torná-lo visível e palpável aos olhos humanos, embora tenha a plena consciência de que, outra pessoa que o veja, fá-lo de maneira diferente da minha.

Muitos artistas sentem necessidade de se isolarem da sociedade por forma a melhor interpretarem o que os inspira. Também sente essa necessidade durante o processo criativo das suas obras?

Depende dos trabalhos que estou a criar. Se estiver a pintar, prefiro fazê-lo à noite, durante o silêncio. No entanto, se estiver a desenhar a carvão ou a trabalhar numa escultura, prefiro fazê-lo de dia. Penso que a necessidade de isolamento depende da introspeção que temos que fazer no momento criativo.

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Estatua do Papa - Cidade da Praia / Domingos Luísa

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Quando pinta começa com uma tela em branco. Nesse momento da primeira pincelada, consegue saber exatamente o que vai encontrar depois do trabalho pronto?

Normalmente, antes de iniciar um quadro, eu visualizo-o já pronto! Depois é só preencher o quadro com tinta! Essa visão está no meu interior, só precisa de ser transposta para o exterior.

Pode-se já falar num estilo de pintura tipicamente cabo-verdiano?

Ainda não temos uma pintura característica. Se formos ver a pintura chinesa reconhecemos logo como pintura tradicional daquele país. A pintura africana tem características que até uma criança distingue, mas falarmos de estilo cabo-verdiano ainda é algo que tem que surgir. Leva tempo e ninguém o pode impor.

Teve obras expostas internacionalmente, sobretudo ao nível da pintura. Gostaria que nos falasse um pouco sobre a opinião internacional desses seus trabalhos.

Já representei Cabo Verde na Coreia do Norte, já expus na ex-União Soviética, França, Luxemburgo e Estados Unidos.

Há uns quatro anos, veio cá uma equipa de professores universitários dos Estados Unidos da América ver as minhas obras e disseram-me que foi a melhor descoberta que fizeram nesse percurso pelas pinturas africanas. Quase não conseguiam acreditar que as obras eram minhas, que conseguia dominar as técnicas de desenho, pintura, escultura. Prometeram-me que iriam fazer de tudo para que eu fizesse uma estátua nos Estados Unidos para mostrar aos cabo-verdianos que eles têm um génio (risos).

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Domingos Luísa

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Em Cabo Verde há reconhecimento pelo trabalho desenvolvido pelos artistas plásticos?

Há o devido reconhecimento, mas é o artista quem tem de se mostrar e mostrar a sua capacidade. É ele que tem que conquistar, através de persistência e dedicação, o seu público e por fim, o seu reconhecimento. Se eu vou vender um produto tem que ser de qualidade. Antes de tentar ser exigente com os outros, tenho, em primeiro lugar, que ser exigente comigo mesmo.

Que desejos é que tem para as suas criações e para os profissionais que se dedicam à criação artística em Cabo Verde?

Porque estamos cá por pouco tempo, o meu desejo é deixar ficar obras para os que se nos seguem apreciarem. Todo o artista quer deixar obra, principalmente o escultor.

Para todos os que produzem arte, desejaria que conseguissem alcançar essa realização; deixarem algo que testemunhe a nossa competência e a nossa existência.


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