Carnaval do Mindelo – Onde os sonhos se tornam realidade
17 Jun 2012

Carnaval do Mindelo – Onde os sonhos se tornam realidade

A tradição do Carnaval na ilha de São Vicente, vem de tempos longínquos. Embora sem a carga sensual da atualidade, pensa-se que a tradição carnavalesca do Mindelo tenha tido as suas origens no século XII, fruto das influências do Entrudo português. No entanto, à semelhança de outras culturas e tradições, foi evoluindo ao longo dos anos, principalmente devido ao cruzamento de culturas que o Porto Grande se encarregava de unificar.

Carnaval do Mindelo _7_Nos GentiEmbora seja uma festa urbana, tem as suas raízes nos subúrbios do Mindelo. É uma festa que se realiza anualmente, e que reúne a simpatia de todos os habitantes da ilha, mas não só. Muitos cabo-verdianos que habitam noutras ilhas, visitam São Vicente só para poderem viver a singularidade do seu Carnaval. O mesmo acontece com muitos emigrantes, que escolhem essa altura do ano para visitar familiares e, em simultâneo, aproveitarem o esplendor da festa. É considerada uma festa cultural e política, sendo por muitos tida como das mais importantes do arquipélago.

Caracteriza-se por um desfile de carros alegóricos, marchas, música e dança, e integra muitos dos elementos que fazem parte da cultura e da história da ilha. A música é um elemento fundamental, assim como os trajes, o canto e a dança. Para os habitantes de São Vicente, o Carnaval é a altura do ano em que o convite à partilha se alarga a todas as classes.

A mulher cabo-verdiana assume um papel de destaque. Ela é o motivo e o centro das festividades. Ao homem cabe o papel acessório de divertir, e entreter.

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Até ao início do século XX, o Carnaval estava confinado ao Entrudo. Era tudo muito simples e sem qualquer expressividade digna de registo. Com o passar do tempo, foi evoluindo até se transformar no esplendor da atualidade. Muitos foram aqueles que contribuíram para esta evolução. Por volta de 1920, grupos como os Florianos, que possuíam orquestra própria, organizavam grandes bailes por altura do Carnaval. Os seus membros eram essencialmente funcionários públicos e gente da classe média. Mais tarde, em 1939, o grupo Nacional apresenta o primeiro andor, que representava o avião Lusitânia, que tinha levado Gago Coutinho e Sacadura Cabral ao Brasil, 17 anos antes.

Nos dias de hoje, podemos afirmar que há dois tipos de Carnaval, e que ocorrem em simultâneo na ilha de São Vicente: um tradicional – o Carnaval dos blocos – que é imaginado pelas pessoas da cidade, as quais recorrem aos artistas suburbanos para a sua conceção e execução, e o outro, constituído por personagens individuais, sem um figurino comum e que percorrem a cidade cantando e dançando. Os primeiros, vêm quase sempre dos bairros limítrofes e ás vezes até transportam alusões aos locais de onde provêm, com dizeres irónicos, criticas aos costumes ou política nacional. De ano para ano, vão perdendo o sentido da festa, transformando o Carnaval num acontecimento de turismo e luxo. Os segundos, são gente cujo único objetivo é a diversão, a chalaça e a paródia.

Até meados do século passado, todas as pessoas participavam. Mascaravam-se e embrenhavam-se na festa popular. A euforia era maior. Depois, lentamente, o Carnaval do Mindelo foi-se hierarquizando, em função das classes sociais dos seus participantes.

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Os anos 40 e 50 são marcados pela numerosa presença de grupos carnavalescos em São Vicente, entre os quais se destacavam o Nhô Fula, o Lorde, Júnior, Juvenil, Pérola ou Unidos.

Na década de 60 do século XX, as elites do Mindelo faziam os seus bailes no interior dos clubes, que eram de acesso reservado apenas a sócios e nunca saíam à rua para participarem na grande festa popular.

A classe da média burguesia, de pequenos funcionários públicos, de gente letrada e de negociantes, juntavam-se nos clubes desportivos e recreativos para fazerem as suas festas, autorizando apenas a presença dos sócios da coletividade e seus amigos. Eram associações mais abertas, mais familiares. Atualmente, os grupos, de uma forma geral, estão abertos a todos os que pretendam participar, bastando para tal que os seus elementos partilhem do mesmo espírito ou da mesma ideologia de bairro. No entanto, há grupos mais seletivos, como o Samba Tropical ou Os Vindos do Espaço, onde a entrada é feita por convites. São grupos onde predomina a beleza e o luxo.

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São três dias em que toda a cidade vive um ritmo extasiante e em que todos participam.  No sábado é o dia reservado para os bailes. Os grupos de crianças em representação das respetivas escolas, desfila nas principais artérias da cidade, durante o dia de domingo. Na segunda-feira, um grupo carnavalesco semelhante aos das escolas de samba brasileiras, desfila pelas principais ruas do Mindelo, como que preparando os foliões para o grande desfile de blocos, com estruturas próprias e aos quais se juntam figurantes prazenteiros, que desfila na terça-feira. Este é o momento alto do Carnaval.

Carnaval do Mindelo _9_Nos GentiNo Mindelo, o Carnaval dura três dias, mas, na verdade, a sua preparação, começa muito tempo antes. Com muita antecedência, é discutido pelos artistas dos grupos, o tema que será levado ao público na edição desse ano. Depois, esboçam-se desenhos para os andores, para as vestimentas dos figurantes e, por fim, o vestuário do rei e da rainha do grupo. Dá-se então início à construção das estruturas dos andores, geralmente de ferro e arame. Por fim, revestem-nos com sacos provenientes da indústria panificadora ou papelão. Reciclam-se todos os materiais possíveis, muitos provenientes da edição anterior. Nada se pode desperdiçar. Nos três dias que antecedem o início das festividades, e para que não hajam atrasos imprevistos, muitos até chegam a dormir nos locais da construção dos carros alegóricos.

Em simultâneo, geralmente em casa da responsável pelo grupo, inicia-se a confeção das roupas. Predominam os tons ligeiros e vaporosos, com muitos azuis-claros, rosas e laranjas. Também por esta altura se inicia os ensaios com os músicos e parte da bateria. Ensaiam-se passos de dança ao ritmo de um samba ou uma marcha. Durante o mês que dura o ensaio – nunca menos de uma ou duas horas diárias, todas as noites – dança-se e canta-se, repetindo vezes sem conta os passos e as letras da música escolhida, até que o ensaiador (chamado mestre de cerimónias) considere a atuação perfeita.

Todo o trabalho é supervisionado por uma direção, quase sempre constituída pelos promotores do grupo, os desenhistas e os figurinistas. Têm a responsabilidade de orientar os trabalhos em função do tema escolhido e angariar fundos para os materiais e alimentação dos colaboradores que permanecem, quase que em regime de isolamento, no local da construção dos andores. Cada um destes elementos da direção, procura que o seu grupo seja o mais bem sucedido a quando da apresentação pública da interpretação do tema escolhido.

A música, com forte influência no samba brasileiro, é adaptada à realidade cabo-verdiana. Geralmente aborda temas atuais da sociedade ou da política, podendo, no entanto, expressar questões relacionadas com a história do país, ou acontecimentos globais mais ou menos marcantes. A dança, sincopada pelo ritmo forte dos tambores e bombos, submete as bailarinas, independentemente da classe social a que pertençam, ao mesmo nível interpretativo. Espelha a unidade do grupo, pois, dançando em sincronia, esbate as desigualdades que, no quotidiano, são impossíveis de contornar.

Chega por fim o grande dia: o desfile dos blocos. É o corolário de toda a dedicação e empenho, que cada um, à sua maneira, empregou na realização deste grande acontecimento cultural. A agitação da multidão que assiste, apenas reforça o nervosismo patente em cada um dos participantes. Em causa, além do orgulho pessoal, está o prestígio do bairro que representam. Um júri, atento, cuja constituição é secreta, avaliará o desempenho de cada grupo, desde a sua organização, estrutura, passando pelo canto, pela dança, os trajes, a coreografia, os andores… enfim, tudo é avaliado.

A organização do desfile é da responsabilidade do pelouro da cultura da Câmara Municipal, a qual, além de garantir os aspetos logísticos para a materialização da festa, é igualmente responsável pela escolha do júri, pela decisão do trajeto do desfile, das regras que têm que ser cumpridas e – muito importante para todos os grupos – pelo sorteio que ditará a ordem de saída dos vários blocos. Todos querem evitar ser os primeiros a desfilar.

Após o término do desfile, já com o cair da noite no horizonte, o júri revela, por fim, o grupo vencedor. Todos os anos, as decisões são contestadas, mas isso, como todos bem sabem, faz parte da festa. No entanto, apenas na quarta-feira de cinzas, se dá por terminada a folia, quando finalmente são coroados os vencedores. Os corpos podem agora recuperar forças. O espírito está agora mais leve.

O Carnaval de São Vicente, é o momento do ano em que as gentes do povo, a classe pobre, com pouca ou nenhuma escola, desce à cidade e se materializa num sonho coletivo. Nesse curto, mas reconfortante sonho, podem viver as fantasias que, há muito tempo, um dia imaginaram. Muitos serão reis, outras rainhas e princesas, que ao som do samba e da marcha, jamais irão deixar morrer o espírito do Carnaval do Mindelo, e onde todos os sonhos se transformam em realidade.


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