Carlos Veiga – Ultrapassar as adversidades
30 Set 2012

Carlos Veiga – Ultrapassar as adversidades

Carlos Veiga
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Carlos Alberto Wahnon de Carvalho Veiga, ficará para sempre na história de Cabo Verde como o primeiro primeiro-ministro eleito, em 1991, através de eleições multipartidárias. Nasceu na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, a 21 de outubro de 1949. Concluiu os seus estudos na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa em 1971. Em 1975, exerceu o cargo de Diretor-geral da Administração Interna de Cabo Verde ao que se seguiu a nomeação para Procurador Geral da República, função que exerceu até 1980. Em 1985, Carlos Veiga foi eleito Deputado para a Assembleia Nacional Popular de Cabo Verde, integrando a Comissão de Assuntos Constitucionais e Legais, onde se tornou numa voz de contestação contra o sistema de partido único liderado pelo PAICV. Os seus ideais, estiveram na base da fundação, em 1990, do partido político Movimento para a Democracia (MpD), tornando-se o seu incontestado líder. A 13 de Janeiro de 1991, nas primeiras eleições democráticas realizadas em Cabo Verde, o MpD elegeu 56 dos 79 deputados com lugar no Parlamento. Carlos Veiga foi assim escolhido para primeiro-ministro e formou o primeiro governo democraticamente eleito em Cabo Verde.

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Considera que a luta pela libertação nacional, ocorreu numa perspetiva de independência, ou apenas para, de alguma forma, se poder conquistar mais igualdade e justiça social?

A intelectualidade cabo-verdiana naquela altura, procurou pôr em relevo os princípios que nos identificavam, nomeadamente a nossa cultura, língua, culinária e tradições. Houve uma preocupação do telúrico, isto é, voltada para a própria terra, fazendo com que os cabo-verdianos se orgulhassem de si próprios. A afirmação da nossa identidade cultural enquanto povo, foi bem elucidativo da resistência cultural ao regime. Os resultados dessa afirmação, ficaram claros no momento em que surgiu a oportunidade de se lutar pela independência, onde alguns assumiram essa luta mais cedo do que a grande maioria. No entanto, houve uma resistência comum a toda a população.

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Multipartidarismo Cabo Verde

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Mais do que se falar em lutar pela independência, penso que o que verdadeiramente motivava todos os cabo-verdianos, era a luta por eles próprios. É claro que isso, mesmo ao nível dos intelectuais, gerou muita discussão. Quando se lutava pela própria identidade, mesmo num contexto colonial, estava-se a contribuir para a criação de um conceito de Nação, ao qual, de forma natural, se seguiria o conceito de Estado. Por este motivo, o PAIGC teve a adesão que a história registou, apesar de em Cabo Verde não ter havido luta armada e de todos os focos de luta política terem sido severamente reprimidos pelo regime colonial. 

Carlos VeigaEm que medida o movimento panafricanista e o conceito de unidade defendido por Amílcar Cabral, favoreceu o processo de afirmação de Cabo Verde no seu empenho pela obtenção da independência? Era sustentável a ideia de união de Amílcar Cabral?

Amílcar Cabral tinha os seus seguidores. Fruto do seu trabalho, ele era por muitos considerado como um verdadeiro mito. Os Rabelados, por exemplo, que são comunidades do interior de Santiago, cultivaram uma feroz resistência ao regime colonial. A bandeira desse núcleo de pessoas, que sempre viveu fora das regras impostas pelo regime – não aceitando por exemplo, dar os nomes às autoridades coloniais, não permitindo que as autoridades sanitárias desinfestassem as suas aldeias e que viviam fechados sobre si mesmos – foi precisamente Amílcar Cabral.

Diria que, na classe intelectual cabo-verdiana, mesmo entre os claridosos, muitas das teorias de Amílcar Cabral, não tiveram muita aceitação. No entanto, mesmo assim, do grupo de cabo-verdianos que formou o PAIGC e participou na luta politica clandestina, quer interna, quer externamente, Cabral exercia um grande ascendente, com as suas ideias de união africana a serem bem acolhidas.

Naquela altura, a ideia da unidade, juntando-nos à Guiné-Bissau para, em conjunto, termos mais sucesso na luta de libertação, teve alguma aceitação. Sabíamos que tínhamos de estar integrados num mundo mais vasto, sob pena de perdermos visibilidade e sermos absorvidos novamente pelo regime colonial. Apesar de ser uma ideia sem uma grande adesão nas classes mais baixas da população, proporcionou à classe intelectual e com mais formação, um motivo adicional para a luta de libertação nacional.

Um dos fenómenos que se passou nas outras colónias, fruto da instabilidade política que então se registava, foi a famosa ponte de quadros gerais de adidos, que as abandonaram fixando-se na metrópole. Muitos destes quadros altamente qualificados eram cabo-verdianos. Acha que Cabo Verde, a quando da sua independência, beneficiou da competência desses profissionais?

Logo após a independência, o PAIGC, pela voz de Pedro Pires e Aristides Pereira, disse que, para começarmos a construir o Estado, tínhamos que aproveitar as estruturas que existiam, assim como os cabo-verdianos que nelas trabalhavam. Como tal, a construção do Estado foi feita, essencialmente, com as pessoas que aqui estavam, com gente nova que veio em grande quantidade da diáspora, assim como com alguns dos quadros que vieram das outras ex-colónias. Muitos deles instalaram-se em Cabo Verde, participando na administração pública durante vários anos.

Nesse aspeto, Cabo Verde beneficiou, no entanto, o grosso da massa de funcionários que assegurou o funcionamento da administração pública com estabilidade e que permitiu transformar a administração colonial e provincial numa administração independente, foi feito por pessoas que já cá estavam e por jovens quadros que estavam a estudar no exterior.

Após a independência, numa altura em que se vivia a divisão mundial entre dois grandes blocos ideológicos, como é que Cabo Verde de posicionou? Acha que o país soube tirar proveitos desta disputa global?

Apesar de ser capaz de se relacionar com os dois blocos, o facto de, logo a seguir à independência, Cabo Verde se ter posicionado como um país que não se integrava em nenhum dos grupos, penso que nos terá beneficiado. Obtivemos muita cooperação dos países de leste, designadamente da União Soviética, mas também tivemos cooperação por parte do ocidente, precisamente pela nossa postura de não alinhamento, mantendo uma certa neutralidade. Tal comportamento político por parte de Cabo Verde, foi muito importante para que pudéssemos trilhar o nosso caminho, sem influências externas, consolidando assim a criação do Estado.

Muita gente considerava Cabo Verde como um país inviável, no entanto, ao nível externo, a política inteligente que foi seguida nos primeiros anos de independência, apostando na diversificação das nossas relações – apesar de, do ponto de vista ideológico haver uma ligação a um desses blocos – foi crucial para a implementação de ações políticas capazes de proporcionar o desenvolvimento necessário. Também do ponto de vista do relacionamento internacional, esse posicionamento neutral e moderado, permitiu que se estabelecessem diversos contactos e pontes com os dois blocos, o que garantiu a viabilidade do Estado. Por parte da direção política do país, na altura Pedro Pires e Aristides Pereira, foi uma atitude inteligente, que nos trouxe benefícios ao nível da nossa projeção no plano internacional.

Mesmo apesar dessa maturidade demonstrada pelos políticos cabo-verdianos, os primeiros anos de independência não foram pacíficos. Se tivesse que destacar alguma dessas decisões que poderiam merecer um tratamento político diferente, qual escolheria?

A partir dos primeiros cinco anos de independência, era necessário repensar o sistema político. Começou a ser claro que as pessoas quiseram a independência, não só para se libertarem do jugo colonial, mas também para terem liberdade civil. Acho que nessa altura, podiam ter sido tomadas medidas que possibilitassem a abertura do sistema político. Contrariamente ao esperado, não foi isso que aconteceu. Houve inclusive um aumento da repressão, talvez não como em outras partes do mundo, mas o certo é que houve prisões, perseguições e torturas. No momento em que era necessário uma abertura política por parte do regime, disponibilizando-se para ouvir outros ideais, de alguma forma ele endureceu.

Penso que este fechar do regime, deveu-se sobretudo a problemas internos do PAIGC, nomeadamente entre a ala cabo-verdiana e guineense a que se seguiram problemas dentro da própria ala cabo-verdiana no país. Esses problemas levaram a que o regime começasse a ver inimigos em todo o lado, em vez de congregar as vontades que existiam.

A abertura política de Cabo Verde em inícios da década de 1990, terá sido consequência do desmoronar do bloco socialista, ou deveu-se apenas à insustentabilidade do regime de partido único à frente da governação do país?

O contexto internacional ajudou. As potências financiadoras do desenvolvimento, isto é, os países doadores, pela voz de François Mitterrand, passaram a condicionar a ajuda a mudanças democráticas. Na sequência dessa declaração de condicionamento houve uma reação rápida do PAICV, através de uma declaração de abertura. No entanto, essa abertura foi imposta de forma condicionada, pois o PAICV queria o controle da situação política no país.

No seguimento dessa declaração, o PAICV decidiu promover a abertura através de eleições, onde de um lado concorreria o partido e do outro, um grupo de cidadãos. Só então, após cinco anos decorridos, é que o PAICV propunha eleições multipartidárias. É neste quadro que surge o MpD

O MpD surge precisamente para afirmar que, a abertura política proposta pelo PAICV, feita a conta-gotas, não era a solução. O problema que se colocava na altura, não era a de continuidade do sistema, mas sim de uma rutura do próprio sistema. Logo, era preciso realizar eleições multipartidárias no imediato. Foi depois dessa altura, que o sistema político cabo-verdiano se desenvolveu.

Fale-nos um pouco do aparecimento do MpD

Era essencialmente um grupo de pessoas, muitas delas que até tinham pertencido ao PAIGC, e que descontentes e dececionados com a evolução da abertura para as liberdades civis, entendiam ser necessário um novo cenário político no país. A partir do momento em que há abertura, o que permitiu que, embora de forma tímida, as pessoas se pudessem reunir, um grupo de quadros com experiência em várias áreas da administração pública e do setor empresarial, começou a esboçar ideias em reuniões que, embora já permitidas, eram sempre muito vigiadas pela polícia política.

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Carlos Veiga

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Mais tarde, apareceu um segundo grupo, que se reunia na Fazenda, e que basicamente reivindicava os mesmos direitos. O mais lógico foi esses dois grupos se juntarem e, de reunião em reunião, em março de 1990, chegaram a uma declaração política.

Fez-se então circular essa declaração. Na Praia, a subscrição foi um sucesso. Em São Vicente e no Fogo, não registou tanto sucesso, mas foi novamente um sucesso em Santo Antão. Em poucos dias, conseguiu-se reunir mais de setecentas assinaturas de pessoas que pediam uma rutura com o sistema instalado, através de eleições multipartidárias imediatas, com a eleição direta do Presidente da República.

Reivindicou-se ainda outras medidas, nomeadamente a despartidarização da comunicação social do Estado, a extinção da polícia política, a extinção dos tribunais populares, a extinção das comissões da reforma agrária, entre outras que o povo entendia irem contra a liberdade civil. Foi um manifesto muito forte sobre tudo aquilo que, representava na vida das pessoas a opressão, a perseguição e o abuso.

Reuniam-se quase todos os dias em plenários, sem corpos dirigentes. Por forma a nos organizarmos, decidimos escolher uma coordenação provisória, da qual eu fui selecionado como o seu coordenador. Resolvemos então testar o regime, apresentando a nossa declaração política ao Sr. Presidente da República. Este mostrou-se agradado pelo surgimento deste movimento na sociedade. A partir desse momento, o movimento ganhou forma e expressão. Começámos por fazer reuniões por todo o país, sentindo que, de facto, as nossas propostas iam ao encontro dos grandes anseios na generalidade da população.

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12- Carlos Veiga - Revista Nos Genti -

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Tinha sido feita uma sondagem conduzida pelo dr. Basílio Mosso Ramos, que é hoje Presidente da Assembleia Nacional, que mostrava que 90% da população estava contente com o sistema que existia e que apenas uma percentagem mínima de aproximadamente 10%, sobretudo nos intelectuais, queria a democracia. Mas o que nós sentíamos no terreno não era isso. Assim, começámos a fazer uma grande pressão, para se mudar o paradigma que tinha sido estabelecido para a transição. A transição dizia que iríamos ter eleições em finais de 1990 com o PAICV e grupos de cidadãos, e nós reivindicávamos que era preciso autorizar a participação de outros partidos políticos, de forma imediata.

Também nos debatemos muito para que as eleições presidenciais fossem feitas depois das legislativas. Conseguimos que estes temas entrassem na agenda, apesar da posição desfavorável do PAICV a qualquer uma destas propostas. Com as manifestações de apoio a crescerem de tom de dia para dia, acabou por se criar um ambiente de entendimento, no que a estes pontos dizia respeito. Por todo lado, o número de apoiantes das nossas ideias crescia como nunca se tinha visto antes. Em qualquer ilha, inclusive no Fogo, éramos recebidos por milhares de pessoas que partilhavam dos nossos ideais. Nós, que tínhamos partido de uma posição em que esperávamos eleger apenas um terço dos deputados na próxima Assembleia Constituinte, depois dessa calorosa receção por parte das populações, tivemos a convicção que tínhamos atingido a maioria governativa.

Nessa altura, foi possível chegar-se a uma situação de negociação com o PAICV para um entendimento sobre o processo de transição. Reviu-se a lei por forma a se poder permitir, de forma imediata, constituir partidos políticos, assim como a necessidade de eleições diretas para a escolha do Presidente da República. Também se acordou que as eleições legislativas ocorreriam antes das eleições presidenciais e que os emigrantes podiam votar e ser deputados. Apesar de um ou outro problema, depois desse entendimento, foi relativamente fácil fazer-se a transição. No cômputo geral, todo o processo correu muito bem.

Foi inclusive necessário fazer uma rutura com a Constituição existente, avançando-se para uma outra que conseguisse congregar todos esses desejos do povo. O processo do modelo Constitucional encontrado, com a separação de poderes e que é ainda hoje a base da democracia, foi difícil de atingir?

Nesse período de transição, foi feita apenas uma revisão mínima da constituição, por forma a permitir efetuar as eleições. No entanto, no que respeitava às competências, o sistema continuava mais ou menos o mesmo. Houve a necessidade de se alterar o ponto relativo ao Presidente da República, que deixava se ser o presidente do PAICV, para passar a ser eleito diretamente. Também foi introduzida a possibilidade da existência de outros partidos políticos, através de uma lei aprovada em setembro de 1990. No entanto, dado os prazos que o PAICV estipulou, houveram partidos que não conseguiram legalizar-se em tempo útil, o que fez com que não pudessem concorrer às eleições. A UCID foi um dos partidos que não conseguiu concorrer por falta de tempo na sua estruturação. Nós, no MpD, só o conseguimos fazer porque tínhamos um corpo de juristas muito forte, com alguma capacidade e facilidade na mobilização da sociedade.

Após as eleições, decidimos que iríamos mudar a Constituição, oficializando a mudança de regime político em Cabo Verde. Em finais de 1992, depois de um debate com toda a sociedade, mudámos efetivamente o regime. Passou a haver separação de poderes com interdependência, que, apesar de não ser tão perfeita quanto o desejado, faz com que a decisão de uns possa, de alguma forma, influenciar as decisões de outros.

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Esta mudança foi boa para Cabo Verde, pois garantiu estabilidade política, alternância e governabilidade. Sempre tivemos governos democraticamente eleitos, que governaram por legislaturas completas. Ao nível nacional, nunca tivemos eleições antecipadas, o que mostra bem a estabilidade política do país. A Constituição permitiu essa estabilidade. Foi com as alterações ao nível da Constituição que pudemos avançar com a implementação do poder local, o que também se revelou de vital importância para o desenvolvimento nacional.

Acha que hoje, depois desse exercício de cedência e de ganhos de poder, os cabo-verdianos na generalidade e os políticos em particular, conseguem interpretar rigorosamente as diferenças de opinião, balizadas nos órgãos e instituições que supervisionam e regulam a atividade do Estado?

Normalmente sim. Uma parte do “sucesso” de Cabo Verde, também se deve, desde a independência, à sua classe política. De um modo geral, a classe política dedicou-se, com sentido de Estado e de serviço público, ao desenvolvimento do país. Embora o que conseguimos até agora não seja suficiente, devemos ter orgulho no que já alcançámos, com parte desse crédito a pertencer, por pleno direito, à classe política cabo-verdiana. A maior parte dos políticos vai ganhando maturidade e capacidade de aceitar diferentes opiniões, o que num Estado de direito, é importante.

Contudo, há ainda muito trabalho pela frente que tem de ser feito para a melhoria da imagem de muitos deles. Assiste-se hoje a um fenómeno de compra de votos, que é culpa exclusiva dos políticos. A curto prazo, tem de haver um entendimento comum para erradicar este fenómeno, que já foi longe demais e que já ultrapassou o tolerável, com consequências que podem originar retrocesso, podendo mesmo colocar em risco o sistema democrático.

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A maturidade política dos cidadãos votantes não diferencia e castiga essas práticas?

Condicionará cada vez mais, à medida que o nível de formação das pessoas aumentar e se for generalizando, uma vez que esse mercado de compra e venda de votos se reflete sobretudo nos jovens desempregados, sem acesso à formação, com problemas sociais graves e com comportamentos desviantes. O eleitorado mais antigo e mais pobre, sem grandes acessos à formação, tem um voto de convicção.

Com todos os ganhos obtidos por Cabo Verde nestes 37 anos, considera alcançados os pressupostos da independência?

É um facto que evoluímos muito, mas não podemos dar-nos por satisfeitos. Há muitos arquipélagos no mundo com estágios de desenvolvimento muito superiores ao nosso. Em muitos dos pontos fundamentais do progresso, quando comparados com esses outros arquipélagos, continuamos na cauda do pelotão. Por isso não nos podemos dar por satisfeitos, pois até agora ainda não atingimos o desenvolvimento. As pessoas ainda vivem com muitíssimas dificuldades.

Há neste momento uma franja da juventude, que ideologicamente não se interessa por nada. Atingiram um ponto de descrença tão grande, que apenas vivem o dia-a-dia, aproveitando as oportunidades que lhes surgem, sem quaisquer barreiras, limites ou valores. Esta é uma das grandes preocupações com que a sociedade cabo-verdiana se debate atualmente. O atual modelo governativo, é feito a pensar apenas nas próximas eleições, e isso não pode acontecer.

O facto de ter que haver fortes ajustamentos financeiros no país até 2015, aliado ao agravamento da crise financeira mundial, poderá originar um retrocesso na qualidade de vida já alcançada por parte dos cidadãos?

Avizinham-se dias difíceis, no entanto acredito nos políticos cabo-verdianos e na sua capacidade de encontrar soluções para os problemas. A previsão realizada, diz-nos que seremos obrigados a baixar o nosso défice, que está atualmente em mais de 10%, para os 3%, já em 2015. Tal redução vai exigir um ajustamento muito forte. Não se pode continuar a vender ilusões ao povo cabo-verdiano, sob pena de se criarem expectativas que depois geram deceção.

Os resultados das presidenciais e das autárquicas, apesar do mérito dos vencedores, espelha já essa deceção. Vamos ter pela frente anos difíceis, que deverão ser aproveitados como a oportunidade para mudarmos a linha de governação. Temos o desemprego a subir com uma pobreza persistente. Continuamos a não ter o território cabo-verdiano unificado; o produtor do Fogo, por exemplo, não consegue colocar os seus produtos na Boa Vista ou no Sal. O de Santo Antão, não consegue escoar a sua produção para Santiago ou para o Maio. Para irmos a São Nicolau é um problema. Não resolvemos ainda o problema da energia nem do abastecimento de água. Não se fizeram ainda as grandes reformas estruturais necessárias na educação; apesar de termos aumentado para quase cem por cento o grau de alfabetização e de termos aumentado substancialmente o acesso ao ensino secundário, deparamo-nos agora com o problema da qualidade desse ensino. O próprio ensino superior está aquém do nível exigido, o que se reflete no problema da empregabilidade. Há muita formação profissional, há muitas pessoas licenciadas mas, em áreas que não têm procura no mercado real. Não há uma ligação entre as universidades e as empresas. Não resolvemos ainda o problema da gestão dos portos, nem da nossa companhia aérea, cujas privatizações estão ainda bloqueadas. São situações que podiam ter sido resolvidas e estão a ser proteladas.

Carlos Veiga

No entanto, os ajustamentos que terão de ser feitos, resultam de apostas estruturais nas infraestruturas do país. Acha que se conseguia atingir os níveis de desenvolvimento obtidos sem esses investimentos?

Criaram-se infraestruturas, mas isso só, não chega para o desenvolvimento. Ninguém se consegue desenvolver tendo apenas por base a construção de infraestruturas. Gastámos 3,5 bilhões de euros nestes últimos onze anos, e quando se analisa o crescimento da economia, o desemprego e a dinâmica do setor empresarial, os resultados são dececionantes.

Investiu-se tudo num só dos fatores, esquecendo-se outros igualmente importantes. Podia-se ter investido a um ritmo mais lento, mas mais equilibrado. De que nos vale ter um porto marítimo se não o conseguimos gerir? É isso que está atualmente a acontecer.

O setor aeronáutico é outro dos exemplos: não somos competitivos no setor aéreo, porque não fazemos um esforço para competir, por exemplo, com o Senegal. Nos primeiros anos de independência, apesar de não ter sido fácil, conseguimos conquistar o mercado aeronáutico ao Senegal. Agora perdemo-lo novamente por falta de competitividade. Há, por isso, muito trabalho que ainda tem de ser feito, por forma a podermos encarar os anos difíceis que se avizinham com mais esperança.

Se tivesse que eleger um novo modelo de desenvolvimento para Cabo Verde, quais seriam as áreas estratégicas a que daria mais importância?

Fala-se muito do turismo, que é uma área em que temos grande potencial. No entanto, o turismo desligado dos setores produtivos, não gera as receitas esperadas e essa situação está à vista. A falta de unificação do território que se falou à pouco, tem levado a que os produtos agrícolas e piscícolas cabo-verdianos, não sejam potenciados por esse mercado turístico. A cultura, por exemplo, é um outro produto que é exportável, gerador de riqueza e que não está a ser aproveitado pela indústria turística.

Temos também que encontrar novas formas de financiamento à economia. Temos que criar uma instituição financeira parabancária pública, competente que seja capaz de captar os financiamentos fora do circuito dos empréstimos constitucionais que existem um pouco por todo o mundo, sob pena de colocarmos em causa o nosso próprio desenvolvimento e a nossa própria viabilidade.

Acha que é possível perpetuar no tempo, o exemplo das boas práticas e da boa governação de Cabo Verde e que têm, inclusive, servido de exemplo para outros países africanos?

Temos que ser capazes de manter essas práticas. É uma questão fundamental da qual não podemos abdicar. É um ativo que nos orgulha. Mesmo onde essas boas praticas ainda não se verifiquem, temos de conseguir melhorar, pois só assim poderemos continuar a ser ouvidos, considerados e apoiados pelos outros. Só mantendo essas boas praticas, poderemos ser considerados como destino de investimentos. Contudo, há áreas onde temos de ser muito mais exigentes. A administração pública é uma delas, fazendo mais parte da solução, que do problema. Temos de fazer uma rutura total com o modelo de recrutamento, seleção e formação dos dirigentes administrativos. Devemos ser capazes de separar a função política da função de direção administrativa. Atualmente, usa-se um modelo partidarizado, em que os dirigentes chegam aos postos de administração por escolha política, sem qualquer formação específica para a liderança administrativa. Para além das bases técnicas que essas pessoas eventualmente possuam, há exigências suplementares que deviam ser respeitadas. Esse recrutamento, tem forçosamente que passar a ser feito por mérito, com pessoas altamente qualificadas, capazes de liderar ao nível das funções de direção administrativa, e acima de tudo, com uma ética a toda a prova.

É impensável termos ministros a assinar papeis; os ministros são eleitos para a promoção da elaboração de políticas de interesse nacional. Deverão reunir recursos humanos e logísticos para que essas políticas sejam aprovadas e finalmente, garantir que sejam executadas nos termos que foram aprovadas, isto é, avaliar a sua execução tirando as consequências ao nível da sua eficácia, cumprimento e impacto. Essa é a função do governante. Depois há a direção administrativa, que se deverá ocupar da gestão do dia-a-dia. A burocracia deve parar no diretor geral. Se ele decidir contra a lei, deverão existir órgãos competentes para o julgar de forma funcional e ágil. É fundamental, à semelhança do que acontece já noutros países, que consigamos fazer essa separação entre a função política e a função de direção administrativa.

Passados estes 37 anos, que mensagem deixaria a todos os cabo-verdianos?

Acima de tudo, uma mensagem de confiança e de não conformismo. Devemos ambicionar, nos próximos cinco a dez anos, estar entre os primeiros cinco Estados insulares do mundo, quanto ao nível de desenvolvimento atingido. Estamos hoje muito longe desse objetivo. No entanto, para o atingirmos, devemos ter plena consciência que vai ser necessário por parte de todos, muito esforço, trabalho e sacrifício.

Contudo, ao olharmos para a nossa história, encontramos a inspiração necessária para despendermos dessa força, labuta e suor, pois sempre mostrámos capacidade de resistir lutando contra todas as adversidades, as quais sempre conseguimos ultrapassar. Certamente que no futuro, não irá ser diferente.

 

 


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