António Monteiro – A importância dos valores tradicionais
30 Set 2012

António Monteiro – A importância dos valores tradicionais

Antonio Monteiro
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António Delgado Monteiro, nasceu no dia 9 de junho de 1961 em São Tomé e Príncipe. Os pais, fugidos da fome e da seca que reinava na década de 1950 em Cabo Verde, admitiram o sistema de contratações que o regime colonial português estipulava e mudaram-se para as plantações de cacau daquelas ilhas do Sul. Ainda jovem, parte novamente com os pais ainda mais para Sul, para Angola. Regressa finalmente a Cabo Verde, a 13 de outubro de 1975, já com 13 anos de idade, onde continuou os estudos na Escola Técnica, em simultâneo com o trabalho noturno desenvolvido na então Empresa de Eletricidade e Águas do Mindelo. Com o auxílio de uma bolsa de estudos, completa no exterior o curso de Engenharia Eletromecânica, regressando definitivamente a Cabo Verde em finais de 1991, após a abertura multipartidária do país.
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Porquê a UCID?

A UCID foi fundada a 13 de maio de 1978 na Holanda. Surge fruto da discordância da unidade entre a Guiné e Cabo Verde. Nasceu a partir do chamado grupo dos descontentes, que embora fossem militantes do PAIGC, não estavam de acordo com esta ideia de unificação política entre os dois Estados. O próprio nome do partido, União Caboverdiana Independente e Democrática espelha esse desagrado.

Quando trabalhava como eletricista, na década de 80, tinha um colega militante da UCID. Como éramos muito amigos, ele aproveitava-se do facto de eu estar a estudar, e durante a minha ausência saía e fazia alguns cortes de energia, possibilitando assim que os militantes da UCID, de forma mais segura e resguardada dos olhares da polícia política, lançassem folhetos e pintassem as paredes com palavras de ordem.

Certo dia, a polícia foi ao meu local de trabalho com o intuito de me prender. Eu como não sabia de nada fiquei admirado. Deram-me 24 horas de cadeia sem me dizerem o motivo pelo qual eu estava preso. Só mais tarde é que soube que tinham desconfiado, ser eu o autor dos cortes de energia. A partir dali, ganhei alguma simpatia pelo partido e alguma revolta em relação ao PAICV. Quando terminei o curso, esse mesmo colega convidou-me para entrar para o partido, que, entretanto, já estava oficializado.

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UCID

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A UCID participou em momentos que ficarão para sempre na história do país, nomeadamente a sua associação ao movimento que marca a reforma agrária e o facto de ter falhado as primeiras eleições democráticas em Cabo Verde.

O primeiro momento alto da UCID em Cabo Verde, foi na década de 80, mais concretamente no dia 31 de Agosto de 1981. Nessa altura, a UCID tinha algum peso político em Santo Antão. Com as prisões arbitrárias que ocorriam na altura, devido às questões da reforma agrária, a direção e os militantes do partido no exterior (na altura não podiam haver dirigentes nem militantes da UCID em Cabo Verde pois eram imediatamente presos), decidiram iniciar uma série de movimentações em várias capitais europeias e mesmo em algumas cidades dos Estados Unidos da América, chamando a atenção da opinião pública mundial sobre a forma injusta como muitas pessoas estavam a ser presas e torturadas.

Como resultado dessas movimentações, a UCID conseguiu trazer a Cabo Verde a Cruz Vermelha e a Amnistia Internacional, que visitaram a Cadeia da Ribeirinha e a Cadeia Militar João Ribeiro, em São Vicente, onde puderam testemunhar a situação miserável em que se encontravam detidas essas pessoas.

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UCID

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Foi por causa destas movimentações por parte da UCID que, alguns presos que estavam na Cadeia Militar, conseguiram ser transferidos para a Cadeia Civil de São Vicente. O trabalho meritório dos dirigentes do partido nessa altura, deu a conhecer a realidade da ação da polícia política em Cabo Verde.

Após esses acontecimento, e até 1988, a UCID revelou uma grande dinâmica na ação. Chegou a fazer parte de algumas organizações internacionais políticas, nomeadamente a União dos Partidos Democratas Cristãos, o que do ponto de vista de divulgação internacional, representou um trabalho louvável.

Em 1990, quando se dá a queda do artigo IV da Constituição, em que o PAICV deixa de ser a força orientadora da sociedade de Cabo Verde, a UCID não consegue em tempo útil vir para o país, e com isso perde a oportunidade de se afirmar no terreno, pois o MpD, livre de quaisquer outros concorrentes de peso, consegue implementar-se como a grande força de oposição ao PAICV.

Lídio Silva - Primeiro Presidente da UCID

Lídio Silva – Primeiro Presidente da UCID

Quando a UCID se tenta legalizar, não consegue. O próprio Lídio Silva, que na altura foi eleito presidente do partido num congresso extraordinário ocorrido em Portugal para tentar legalizar o partido em Cabo Verde, faz uma petição na Assembleia Nacional a favor do reconhecimento da UCID pela importância histórica da sua atuação no passado. Essa intenção não foi aceite, e quando a UCID iniciou a recolha de assinaturas necessárias à sua oficialização através do Supremo Tribunal de Justiça, deparou-se com o constrangimento de todas as assinaturas serem averiguadas. Foram encontradas assinaturas de pessoas que também já tinham assinado pelo MpD, o que fez com que houvesse uma rejeição por parte do STJ da primeira leva de assinaturas entregues. Este facto, impediu que o partido se legalizasse em tempo útil, perdendo a oportunidade de concorrer nas primeiras eleições livres de Cabo Verde.

A partir dessa altura, tivemos grande dificuldade em reaver o protagonismo político que tínhamos atingido no período de 1978 a 1990. Sem esse protagonismo, o MpD destacou-se como o partido da oposição. Perdeu-se assim uma grande oportunidade, logo no início da abertura política, de se ter dado um contributo valioso para a democracia no país. Com essa perda, também se perdeu o fulgor político da altura. Só muito mais tarde, a partir de 2000, é que a UCID volta a ser falada em Cabo Verde.

Atualmente acreditamos que estamos a fazer o percurso que devíamos ter feito anteriormente, e todos os dias trabalhamos com dedicação, para num futuro breve sermos uma força política de peso, capaz de contribuir para a tomada de decisões, ajudando assim na construção de um país melhor.

Em sua opinião, a ideologia das pessoas que defendiam a liberdade, nomeadamente intelectuais cabo-verdianos que conviviam com outros intelectuais de outras colónias, era de facto a obtenção da independência ou apenas a melhoria das condições de justiça e de igualdade do povo?

Do meu ponto de vista, a grande questão que se levantava era a falta de justiça social. A disparidade existente entre aqueles que efetivamente eram os nativos das ilhas e os colonos portugueses, era gritante. O que se pretendia, no meu entender, era um equilíbrio e que não houvessem injustiças, semelhantes às que, ainda em criança, pude presenciar. Penso que a independência foi um instrumento, isto é, uma ferramenta que os intelectuais da altura usaram, para trazer para as colónias portuguesas um pouco mais de justiça. Considero que em Cabo Verde, os intelectuais que lutaram contra o colonialismo, fizeram-no para possibilitar ao povo orgulho, estabilidade social e acima de tudo menos injustiça.

É claro que, houve intelectuais que até ao último momento, não quiseram a independência nacional. Se recuarmos até 1973 e analisarmos a história de Cabo Verde, encontramos movimentos que defendiam ser mais benéfico para Cabo Verde a realização de um referendo político, por forma a averiguar se os cabo-verdianos estariam ou não dispostos a assumirem independência nacional. Falo concretamente da UDC – União Democrática Cabo-verdiana e do UPIC-CV – União dos Povos das Ilhas de Cabo Verde. Como consequência dessa ideia, estes partidos políticos foram rechaçados do país.

Pessoalmente, defendo que a independência tinha que ser feita, pois a própria colonização, isto é, os dirigentes que controlavam as colónias portuguesas, aliados ao espírito fascista do regime em Portugal – que reprimia inclusive o próprio povo português – não iriam nunca libertar as colónias, só porque haviam pessoas contra os seus métodos. Foi preciso efetivamente pressionar e desenvolver a luta. A luta que se travou nas matas da Guiné, de Angola e Moçambique, foi verdadeiramente necessária para que os povos, quer das colónias, quer mesmo de Portugal, pudessem ter a liberdade que tanto ansiavam.

Quando é declarada a independência, tinha 13 anos. Tem recordações dessa altura?

Nessa altura, morava com os meus pais em Angola. Cheguei a Cabo Verde dois meses após a proclamação da independência, contudo, lembro-me perfeitamente do clima de alegria que se vivia. A 27 de outubro, quando cheguei a São Vicente, depois de ter estado uma semana no Sal no quartel militar a aguardar vez para viajar, vi uma grande euforia, com as pessoas felizes e radiantes. Sentia-se como que se uma lufada de ar fresco tivesse chegado às ilhas. É claro que tínhamos grandes dificuldades. O país não tinha recursos e muitos diziam que era inviável a construção de um Estado nas ilhas de Cabo Verde. Com a inteligência dos que tinham a responsabilidade de governar o país, lá se foram criando, paulatinamente, as condições que hoje nós temos.

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António Monteiro

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Recordo a vontade que existia em todo o povo cabo-verdiano em construir um país com melhores condições. No tempo colonial tínhamos filas para tudo: para comprar açúcar, petróleo, leite… tínhamos problemas de água, de energia… enfim, não tínhamos nada. Por isso mesmo, após a independência, sentia-se a vontade dos cabo-verdianos em trabalhar para desenvolver o país. Atrevo-me a dizer que havia uma militância, não partidária, mas pró nacional, que é o que agora nos falta.

Hoje, em parte, estamos a construir esse país, talvez não da forma que eu gostaria que estivesse a ser erigido, mas de todo o modo, o que eu vivi antes da independência, dá-me muita tranquilidade ao encarar os desafios futuros.

Como caracteriza os dois períodos pós independência de Cabo Verde? O período do partido único e o período pós 1991, com a abertura multipartidária do sistema político?

Na primeira República, temos que considerar duas fases: a primeira, vai da independência até ao início da década de 80 e a segunda fase, que engloba os inícios de 1980 até 1990. Na primeira fase, isto é, nos primeiros cinco anos após a independência, houve uma vontade muito grande dos governantes imporem a Cabo Verde uma dinâmica de um país aberto. Nessa altura, justiça seja feita, o PAIGC fez um trabalho excelente, pois ainda não tinha a ideia, que mais tarde se enraizou, de controlar tudo e todos.

Entre 1980 e 1990, senti que havia uma vontade por parte do PAICV em controlar de forma muito apertada tudo no país. Penso que foi nessa fase que ocorreu o maior erro político do PAICV por querer controlar pessoas que normalmente não estão disponíveis para serem controladas. Não nos podemos esquecer que nessa época os cabo-verdianos já tinham muitas influências da diáspora, logo com ideias mais abertas e democráticas. Nessa altura, penso que o PAICV perdeu a oportunidade de se mostrar um pouco mais flexível e provavelmente permitir que as pessoas se pudessem exprimir de forma livre, pois foi para isso que foi pedida a independência. Muitas pessoas eram perseguidas pela então polícia política, criada precisamente para reprimir os que ansiavam a tão prometida liberdade. A partir dessa altura, penso que o sistema ficou irremediavelmente perdido.

Depois, com a abertura política, as coisas modificaram-se para melhor. No entanto, essa abertura não foi isolada. Foi fruto dos acontecimentos políticos mundiais que então estavam a ocorrer, nomeadamente, a queda do bloco socialista que arrastou a queda de muitos regimes políticos semelhantes, noutros países. Cabo Verde foi um desses países. Penso, que se não tivessem havido essas alterações no nível do xadrez político mundial, provavelmente não teríamos a abertura política que tivemos. No entanto, de uma forma inteligente e ordeira, conseguimos aproveitar essa oportunidade internacional e introduzimos o multipartidarismo e o sistema democrático em Cabo Verde.

António Monteiro

Pensa que, em Cabo Verde, a democracia está consolidada?

Não, não está. A democracia cabo-verdiana está num processo de consolidação, mas ainda não está perpetuada. Um dos grandes momentos da democracia são as eleições, no entanto, em Cabo Verde as pessoas ainda não conseguem exercer o direito de eleger os seus candidatos, de forma tranquila e sem pressões. Espero que os partidos políticos, como instituições que têm obrigação de zelar pela defesa da democracia, entendam o perigo dessas pressões para o sistema democrático nacional.

Depois da entrada do MpD no poder, em 1991, generalizou-se a tendência dos partidos quererem eternizar-se no poder, e para o conseguirem, não olham a meios. Vale tudo, inclusive falsear a vontade popular. Quem tem meios financeiros e poder económico, consegue, com menos esforço, com menos ideais políticos e com menos projetos credíveis, ganhar eleições. Isso faz com que a democracia seja falseada.

Os meios de consciencialização social são a educação e a justiça. Acha que melhorando essas áreas, os cidadãos poderão afirmar mais convictamente as vontades políticas?

Acho que sim. Um país vale pela educação do seu povo. Quanto maior for o seu nível de instrução, maior será a sua capacidade de entendimento, compreensão e análise. Em Cabo Verde, somos fruto dessa instrução. Mesmo no tempo colonial, o nível de educação dos cabo-verdianos foi superior ao de outras colónias, pelo que, conseguimos de forma menos arrogante, assumir determinadas posições que têm permitido que Cabo Verde se desenvolva, apesar dos seus recursos limitados.

Costuma-se fazer muitas críticas à educação que atualmente temos em Cabo Verde, contudo, essas criticas têm essencialmente a ver com a qualidade do ensino que aqui se pratica, principalmente no que diz respeito ao ensino superior. Considero que, os sucessivos governos desde a independência até aos dias de hoje, sempre deram uma atenção muito especial à área educativa. Esse cuidado que foi dado à educação, tem permitido aos cabo-verdianos adquirir mais conhecimentos, o que os faz distinguir o que realmente é importante, dentro do panorama político nacional.

No que diz respeito à justiça, houveram sem dúvida, grandes avanços nestes últimos 37 anos. Lembro-me que em São Vicente, havia apenas um juiz e um procurador. Tínhamos um tribunal sem quaisquer condições para funcionar. Hoje o cenário é completamente diferente. A justiça melhorou muito em Cabo Verde. No entanto, a celeridade e a influência do poder político na justiça, são questões que ultimamente me têm preocupado, pois essa imiscuição pode travar o próprio desenvolvimento de Cabo Verde. Atualmente, verifica-se que há quem esteja na justiça sem a convicção de que faz parte um poder autónomo e que deve apenas respeitar a sua consciência e o que está estipulado nas leis. Alguns estão a ser permissíveis a influências políticas que poderão manchar a própria justiça cabo-verdiana, com as consequências nefastas que tal acarreta num Estado de direito.

Acha que a globalização tem contribuído para a quebra de identidade cabo-verdiana, tão marcada e valorizada na altura da independência, podendo mesmo colocar em causa a estabilidade e os ganhos alcançados nestes 37 anos?

Esse é um dos grandes problemas com que atualmente nos deparamos. A UCID, como partido que defende os princípios cristãos, reconhece que nos últimos anos, a sociedade civil cabo-verdiana tem perdido algumas das suas referências. A família, a justiça, o respeito e solidariedade são alguns dos valores que têm desaparecido por pressões externas e por não termos tido a capacidade de nos protegermos dessas influências. Estamos a ser absorvidos pela globalização que, infelizmente, está assente na vertente económica e financeira, deixando de lado o que realmente é importante para as pessoas.

Para se combater essa perda de valores, os partidos, o governo e a própria comunicação social, têm de ter um papel mais ativo, na divulgação dos valores que a cabo-verdianidade sempre demonstrou. O facto de termos uma sociedade extremamente desequilibrada, com um fosso bastante acentuado entre os mais pobres e os mais ricos, influência negativamente essa perda de valores. A desigualdade faz com que, os mais pobres, também queiram a equidade a qualquer preço, o que faz com que os valores morais fiquem em segundo plano. Atualmente, as pessoas não olham a meios para atingir os objetivos materiais que vêm nos outros, o que invariavelmente conduz a práticas ilícitas prejudiciais para o desenvolvimento do país. Se não se controlar este fenómeno, teremos a curto prazo problemas muito maiores para resolver. Fomentar os valores cristãos e tradicionais dos cabo-verdianos, é, por isso, primordial nas políticas dos governos e nos comportamentos da própria sociedade civil, sob pena de colocarmos em risco a nossa própria cabo-verdianidade.

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António Monteiro

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Como encara o futuro de Cabo Verde?

Independentemente de ainda termos muitos problemas para resolver, temos de acreditar no nosso país. Acredito que Cabo Verde conseguirá ultrapassar os problemas que tem, defendendo a nossa cultura e a nossa forma de estar no mundo. Para tal é preciso que os políticos digam, de forma permanente, a verdade ao povo, para que estes se mantenham empenhados na construção do Estado. Só com o esforço de todos os cabo-verdianos, quer no arquipélago, quer na diáspora, se poderão manter vivas as raízes e os valores pelos quais sempre nos guiámos, pois essas são as heranças mais importantes que poderemos deixar às novas gerações.


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