Cesária Évora  – A Rainha da Morna
17 Jun 2012

Cesária Évora – A Rainha da Morna

Na música cabo-verdiana, a voz é um elemento fundamental. A voz complementa os instrumentos e ambos, em cadência, dão corpo à expressão cultural, tão característica de Cabo Verde. A conjunção destes elementos, encontrou em Cesária Évora o expoente máximo, jamais alcançado por qualquer outro interprete. A voz de Cesária tornou a música de Cabo Verde numa referência mundial, fruto da harmonia melódica que transporta e do sentimento que transmite.

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Tudo começou com as gravações na já extinta Rádio Barlavento, promovidas pelo exímio homem das Coladeiras, Gregório Gonçalves – Goy. Estávamos nos anos 60 do século passado, e pela primeira vez, Cabo Verde assistia ao aparecimento na cena musical, de uma voz com um estilo pessoal e um modo de interpretação que a todos atraía. Cesária Évora, então desconhecida fora da ilha de São Vicente, revelava-se como uma notável interprete das Coladeiras de Goy.

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Cesária Évora nasceu a 27 de agosto de 1941, na cidade do Mindelo, em São Vicente. Descendente de uma família ligada à música (o pai, primo de B.Léza, tocava violão e violino), cedo começou a cantar. Cantava aos domingos na igreja e após a morte do pai, foi para o Orfanato Mota Carmo, experiência curta, pois a sua personalidade, não se adaptou ao rigor das normas exigidas. Convencendo a avó de que tinha assombrações, conseguiu sair do orfanato.

Aos 17 anos, Cize (como por todos era conhecida) já era elogiada nas suas interpretações musicais. Fez o seu primeiro espetáculo para o público, no Cinema Éden-Park. Era acompanhada por músicos locais, dos quais faziam parte o omnipresente Goy, amigo que viria a zelar pelo seu progresso artístico.

Quando começou a cantar, chegou a receber 25$00 por cada gravação, no entanto, durante quase vinte anos, cantou sem nunca receber nada em troca. Naquele tempo, ninguém assinava contratos com os músicos, que sobreviviam da generosidade dos seus admiradores.

Apenas frequentou a escola até à 2ª Classe da Instrução Primária. Aos 18 anos, teve o seu primeiro filho, fruto do relacionamento com um português que a abandonou sem nunca mais dar notícias. Cize assumiu sozinha a maternidade. Esta viria a ser a sua sina, pois mais tarde, teve uma filha, cujo pai, cabo-verdiano, também partira sem mais dar notícias.

Cesária gostava da sua independência. Contrariando a maioria das mulheres cabo-verdianas da época, cedo assumiu esta sua sede de emancipação, o que na época chocava uma sociedade extremamente conservadora.

Com o declínio do Porto Grande, intensificado com a independência do país em 1975, a vida noturna cabo-verdiana entra numa fase de calmaria. Muitos músicos emigram para Portugal, Holanda, França e Estados Unidos.

CesariaEvora _8_Nos GentiNos bares, quase vazios, Cesária continua a cantar a troco de algumas bebidas. A família era ajudada financeiramente pelos envios regulares que, três dos irmãos que estavam emigrados, costumavam fazer. Eram tempos difíceis, que a faziam atuar em bares e festas, na procura de um precioso complemento ao magro orçamento familiar.

A sua voz singular e elevado poder interpretativo, já deliciava quem a escutava, mas o reconhecimento internacional, esse ainda estava longe de ser alcançado.

No ano da independência do país, Cesária muda radicalmente de vida. Afasta-se de tudo e de todos, e tranca-se em casa da sua mãe, de onde só sai para ver o mar. Este isolamento durou dez anos. Sentia-se angustiada e por todos abandonada.

Com o aparecimento da música eletrónica, o papel da mulher vai-se esbatendo do panorama musical cabo-verdiano. As suas atuações estavam agora apenas confinadas às serenatas, aos bares típicos do Mindelo e da Praia, ou a alguns espetáculos esporádicos. Tal afastava-a do circuito da edição discográfica, que de forma geral, permite de forma rápida, o alcance da tão almejada popularização. No entanto, este tempo em que esteve “afastada”, permitir-lhe-iam uma maturação do estilo, resguardando a autenticidade e as raízes da Morna e da Coladeira. Estas duas expressões musicais, encontram na voz de Cesária Évora, o veículo ideal para se revelarem ao mundo, em todo o seu esplendor.

Desde sempre andou descalça. Mesmo quando a “etiqueta” exigia outra condição, Cesária, fiel à liberdade de espírito que sempre manteve, fazia questão de “provocar” e “chocar”. É famosa em São Vicente a sua teimosia em querer cantar descalça num sarau do Grémio Recreativo Mindelo – um local de elevada reputação, frequentado pela elite da sociedade mindelense durante o tempo colonial. A pressão foi tanta que Cize acabou por ceder. Sobre este assunto costumava dizer: “Calcei os sapatos duas vezes. Uma para cantar no Grémio e a outra para cantar no navio-escola Sagres”. Aliás, andar descalça viria a transforma-se na sua imagem de marca, que sempre a acompanhou em toda a sua carreira.

Em 1983, o jornal Voz di Povo já a intitulada de “A rainha das Mornas”. 1985 viria a revelar-se um ano marcante na sua carreira. Foi para Lisboa gravar o Lp Mar Azul. A sua interpretação neste disco seria a rampa de lançamento da sua brilhante carreira.

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Corria o ano de 1988 quando se deu um encontro que viria a mudar por completo a vida de Cize. Enquanto cantava numa discoteca do Bana, em Lisboa, conheceu José da Silva que se mostrou muito interessado no estilo de Cesária. Djô da Silva, proprietário da então recém criada editora Lusáfrica, arrisca uma carreira internacional para Cesária, e marca uma tournée por toda a França com espetáculos da artista. Mas o seu primeiro concerto ao vivo naquele país, no 1º de outubro de 1988 no New Morning de Paris, não atraiu público.

Dois anos depois, fruto de um contrato que manteve com Bana, edita o disco Destino di Belita, trabalho considerado de transição, uma vez que misturava mornas acústicas com música eletrónica, o que, segundo alguns, não fez justiça ao seu verdadeiro valor.

CesariaEvora _4_Nos GentiEm 1991, o trabalho Mar Azul, remete-nos para o processo musical que mais lhe agrada: totalmente acústico, com cavaquinhos, guitarras, piano, clarinete e violão. Acompanhada pela Mindel Band, regressa ao New Morning de Paris, que, uma vez mais, continuava desoladamente vazio. No entanto, a sua sorte estava prestes a mudar: poucos dias depois, no Festival d’Angoulème, a 2 de junho de 1991, chama a atenção da imprensa especializada, surpreendida pela originalidade de postura e pela voz suave e profunda da cantora cabo-verdiana. A sua música começa a passar nas rádios francesas, especialmente as que se dedicavam a divulgar a world music. A 14 de dezembro, finalmente o New Mornig regista uma enchente, constituída principalmente por público entusiasta francês, que aplaude com emoção a rainha da morna.

Em 1992, a “diva” encontra-se em digressão pela Europa. França foi um marco em toda a sua carreira. A sua digressão neste país europeu foi assinalada nos mais prestigiosos jornais, como o Le Novel Observateur e Liberation. Em Paris, ficaram famosos os seus espetáculos no Theatre de la Ville e, talvez o mais marcante, o do Olympia. Depois destes espetáculos em Paris, Cesária viria a actuar mais duas noites (a 17 e 18 de dezembro) na cidade de Amiens. Tal como referido pela imprensa da época, Cize tornara-se objeto de um culto particular em França. Nesse mês de dezembro de 1992 o sucesso de Cesária Évora arrancava em definitivo e de modo imparável. Um ano depois, Cesária testemunharia toda a devoção dos franceses, não só pelo interesse que os seus espetáculos despertam, mas também pela venda, em poucas semanas, de quase 200 mil unidades do seu álbum Miss Perfumado. Este trabalho esteve em primeiro lugar em França, numa lista de 25 artistas que incluíam Sister Act, Jimmy Hendrix ou Bob Dylan entre muitos outros.

Em abril de 1993, atua em Lousanne e no festival Printemps de Bouges. Maio, em Clermont Ferrant, St. Malo, Coutances, Nice e Montreaux; em junho, Mulhouse, Poitier, Bordeaux, Villeurbanne; em julho, Fourgéres e Boulogne; em setembro encontra-se em digressão pelo Japão e para os últimos dois meses do ano, estavam previstos mais de 30 espetáculos pela Europa.

Esgota todas as salas por onde passa, ganha discos de ouro e faz o mundo descobrir as mornas nascidas num país até aí pouco conhecido.

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Sobre esta aura que se desenvolve em torno da artista, a jornalista Heléne Hazera, escreveu: “Existem cantoras com performances explícitas: cantam mais alto ou mais baixo que outras, ou com mais força. Nada disso acontece com Cesária: o seu timbre é único, a sua singularidade não necessita de nenhuma proeza. Tudo se passa claramente, na medida certa, um modo especial de alimentar uma tenra emoção, de a fixar… antes de se sentir o coração arranhado pelas unhas. Um trabalho de precisão quase impercetível”.

Em 1995, o álbum Cesária é editado em 20 países, e rapidamente se torna disco de ouro em França. Vende mais de 150 mil exemplares só nos Estados Unidos, onde é nomeada para os Grammy Awards.

Madonna, Caetano Veloso, David Byrne e Branford Marsalis, tornam público o seu fascínio pela interprete cabo-verdiana, que, ainda nesse ano, grava o tema Ausência para o filme Underground de Emir Kusturica.

CesariaEvora _19_Nos GentiEm 1996, realiza cerca de uma centena de concertos. Em França foram 40, na Alemanha 11, Estados Unidos 30. Também puderam assistir aos espetáculos da rainha da morna, o Canadá, a Suíça, Bélgica, Brasil, Hong-Kong, Itália, Suécia, Senegal, Costa do Marfim e Inglaterra.

O álbum Cabo Verde é então gravado no intervalo das suas atuações. É mais uma prova da sua grande vitalidade musical. Este disco conta com um vasto naipe de músicos cabo-verdianos, que desta forma, puderam contribuir para a divulgação definitiva de Cabo Verde no Mundo.

Através do sucesso de Cesária, Cabo Verde ficou mais conhecido. Cesária Évora contribuiu sem dúvida, para a divulgação de vários aspetos da nossa cultura, história e tradições.

Em 1999, Portugal agraciou Cesária Évora com a medalha da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

O galardão Les Victoires de la Music para Melhor Álbum de World Music foi-lhe atribuído por duas vezes, a primeira em 2000 pelo trabalho “Café Atlântico” e em 2004 pelo álbum Voz d’Amor.

Este mesmo disco Voz d’Amor, foi igualmente premiado em 2004 com o Grammy para o Melhor Álbum de World Music.

Em 2009, o presidente francês Jacques Chirac distinguiu-a com a medalha da Legião de Honra de França.

Em dezembro de 2010, no Rio de Janeiro, o Presidente Lula da Silva, condecorou Cesária Évora com a medalha de Ordem do Mérito Cultural 2010.

Foi igualmente distinguida com o prémio carreira na gala dos Cabo Verde Music Awards 2011

Seria o seu destino? Como ela mesmo disse, “Eu não sei o que é o destino. Não acredito no destino e não sei onde nasceu, nem onde ele morreu”.

Graças a ela, o mundo descobriu a cor de um canto único e uma mulher cuja imagem demonstra que está em paz com o seu destino. Uma mulher única, de voz única. As cantoras que procuram segui-la, podem ter vontade e talento para atingirem o sucesso, mas irá faltar-lhes sempre aquela postura de voz que só quem viveu o que canta, conhece. E o seu canto não mente.

Morreu no Mindelo, a terra que a viu nascer e a qual tanto amava, no dia 17 de dezembro de 2011, aos 70 anos de idade.

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O seu percurso foi feito de inúmeros momentos de glória, entre discos e tournées, os quais coroaram, de forma inigualável, a sua carreira artística. Cesária Évora foi, e continuará a ser, a maior e mais emblemática embaixadora da cultura, do sentimento e da musica de Cabo Verde, nos quatro cantos do mundo. Por todos, será sempre considerada como A Rainha da Morna.

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Comentários

  1. Silvio de Abreu Diz: Fevereiro 15, 2017 at 11:32 pm

    Boa noite, não consegui conhece-la pessoalmente, mas pelos videos foi uma dona de uma linda vóz, não consigo deixarde ouvir suas músicas, quando achei na net pensei que era brasileira, más fiquei surpreso quando vi que era angolana, pois o rítimo é igual do Brasil, me apaixonei por ela.
    É pena que já se foi tão cedo, más gostei de conhecer seus trabalhos.parabens Cesaria Evora, descanse em paz.

    • Olá Sílvio.
      Apenas uma correcção ao seu comentário, que desde já muito agradecemos: a Cesária Évora era cabo-verdiana e não angolana.
      Um abraço.

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