Resgatar os valores morais nos mais jovens
16 Ago 2016

Resgatar os valores morais nos mais jovens

Frei Claudino Teixeira Vieira nasceu a 30 de setembro de 1980 em Nova Sintra, na ilha Brava. Os seus pais sempre elegeram os valores morais como os pilares para a educação dos seus filhos. Frequentador assíduo da igreja — que ficava mesmo ao lado da sua casa — o jovem Claudino cedo descobriu o gosto pela oração e pela meditação espiritual. A participação nas atividades da sua paróquia tranquilizavam-no e fortaleciam-no, por isso, era comum vê-lo participar em ações organizadas pelos grupos de jovens cristãos da Brava. A vida dos sacerdotes cativava-o a ponto de, ainda muito jovem, se tornar acólito e acompanhar de perto o dia a dia do pároco da sua freguesia. Não ousava expressar a imensa vocação que sentia crescer dentro de si pois, tal como recorda, “pensava que, sendo eu de origens tão modestas, nunca teria possibilidades de um dia ser sacerdote. O facto de todos os padres que conhecia serem de raça branca também criava algum constrangimento a este meu desejo. Julguei que era algo que não estava ao meu alcance”.

Frei Claudino Teixeira Vieira

 

O percurso vocacional e a formação teológica

Ao ver o jovem Claudino tão empenhado nas aulas de catequese, sempre participativo em todas as missas e com gosto em colaborar nas atividades da paróquia, o sacerdote local convidou-o a participar num acampamento vocacional que se iria realizar na ilha do Fogo. “Foi como que uma dádiva do céu me tivesse atingido. Apenas tinha de convencer os meus pais a me deixar participar. Não sabia muito bem como o fazer, pois tinha noção que era um braço forte lá em casa, e que a minha ausência, mesmo por uns dias, era difícil de substituir, mas enchi-me de coragem e falei com os meus pais”, recorda o jovem pároco. A sua mãe acolheu de bom grado a ideia; o pai demorou mais tempo a persuadir, mas por fim, a mãe acabou por o convencer. Esta primeira viagem haveria de ser decisiva para o seu futuro. Se dúvidas restavam sobre a sua verdadeira vocação, elas ficaram para sempre esclarecidas durante a sua estadia no Fogo. Claudino sabia o que queria para a sua vida e empenhou-se ainda mais em o alcançar.

No ano seguinte, mais maduro e consciente do que realmente perseguia, Claudino Vieira participa no acampamento de Santo Antão. Decide então prosseguir os estudos académicos com o objetivo de abraçar a vida sacerdotal. Com 17 anos parte para São Vicente para frequentar o liceu. Como jovem que era, teve de enfrentar as dúvidas naturais de quem está fora do seio familiar, numa terra diferente, plena de atrativos e distrações. “Foi a altura das tentações. Faz parte do processo de formação. É preciso resistir. Tinha escolhido de livre e espontânea vontade seguir um outro tipo de vida, por isso, agarrei-me á ideia de encará-la segundo outros critérios”, recorda. Após concluir o liceu, voltou novamente para o Fogo, onde trabalhou diretamente com os sacerdotes locais e onde experimentou a vida fraterna.

Em 2003, Claudino Teixeira Vieira foi para Portugal fazer o seu ano de noviciado. “Foi um ano muito trabalhoso e intenso. É durante este período que somos obrigados a decidir se avançamos nos nossos votos. Trabalha-se doze meses. Ninguém pode falhar um dia. Foi duro mas recordo esse tempo com saudade e nostalgia. Foi durante o meu ano de noviciado que fiz formação interna, tive diversas atividades pastorais e fui destacado para várias cidades como ajudante pastoral. Também trabalhei numa quinta e cuidei de uma horta. Em Cabanas de Viriato, perto da cidade de Viseu, aprendi a vindimar e ajudei os meus vizinhos a pisar as uvas que iriam fazer o vinho. Foi uma época muito boa”, recorda.

Já com o hábito da Ordem dos Capuchinhos, Claudino Vieira faz os votos sacramentais por um período de três anos. O passo seguinte foi prosseguir os estudos teológicos. Muda-se então para a cidade do Porto onde inicia os estudos de filosofia. Depois, regressa a Cabo Verde para estagiar durante um ano. Termina os estudos em Itália, onde conclui Filosofia, Línguas e Teologia.

 

São Nicolau

O início do sacerdócio e a atividade pastoral

Terminado o curso, foi ordenado sacerdote a 17 de julho de 2011. Foi colocado na sua terra natal. Dois meses depois, estava novamente de partida, desta vez para São Nicolau. Frei Claudino Vieira é atualmente pároco na freguesia de Nossa Senhora da Lapa e na de Nossa Senhora do Rosário. É ainda o responsável pelas obras dos irmãos Capuchinhos em São Nicolau, o que o leva a ter de coordenar e administrar várias atividades sociais, entre as quais um jardim de infância localizado em Fajã. Com ele, colaboram outros três frades que residem no edifício do antigo Seminário de São Nicolau. Frei Claudino Vieira é ainda o Guardião desta comunidade, o que o obriga a ministrar formação permanente aos seus três companheiros. “Apesar do cansaço, pois é muito trabalho, é uma experiência enriquecedora. Além de coordenar todas as atividades, também vou para o terreno. O contacto e a proximidade com as pessoas é, essencial. O difícil é conseguir tempo para todas as coisas que gostaria de fazer”, desabafa.

Esta proximidade com as populações tem permitido a Frei Claudino Vieira sentir de perto os problemas e as dificuldades sentidas pelas gentes de São Nicolau. As influências do exterior e a globalização, com um acesso ilimitado a todo o tipo de informação, faz com que os valores da ética e da moral dos sanicolauenses também se alterem. Os meios de comunicação de massas, em especial a televisão e a internet, têm, nos últimos anos, contribuído para alterar os padrões morais de algumas famílias cabo-verdianas. Para o Frei Claudino Vieira, “a televisão, por exemplo, mais concretamente algumas novelas brasileiras que são emitidas sem qualquer filtro ético ou moral, têm contribuído para a alteração de algumas mentalidades mais suscetíveis e eticamente menos formatadas. Apesar de a situação ainda ser controlável, obriga a muito trabalho adicional. É imperativo restituir o valor da família tradicional cabo-verdiana”, afirma e adianta que  “estas carências morais têm levado a que as pessoas alterem os seus comportamentos perante as responsabilidades. Não é invulgar presenciarmos situações em que os pais apenas procriam como forma de salvaguardar os seus futuros e usarem os filhos como mão de obra para as suas atividades. Não existe qualquer tipo de planeamento familiar. Não planificam a educação que pretendem para os filhos. Os filhos, por seu lado, perderam o respeito pela autoridade dos pais e, raramente, seguem os seus conselhos. É uma situação que tende a agravar-se e, como jovem padre que sou, procuro ser uma influência positiva para eles. Sempre que possível, tento ouvir os seus lamentos e, dentro dos ensinamentos bíblicos, tento aconselhá-los”, adianta.

A elevada taxa de emigração que se regista em São Nicolau é apontado por Frei Claudino Vieira como um dos motivos para este tipo de comportamento. “Os jovens vivem frequentemente obcecados com a ideia de um dia emigrarem, como tal, não constituem família. Têm relações fugazes e descomprometidas. Pensam mais no futuro longínquo que no presente real”, diz

Aproximar a Igreja ao povo

Com o intuito de alterar esta realidade, Frei Claudino Vieira tem apostado no apastorado de proximidade. “Aproximamo-nos das pessoas que não se interessam pela sua vivência de fé e procuramos mostrar-lhes outros caminhos. Não tem sido fácil. Para que resulte, é preciso que as pessoas se libertem de preconceitos e que sejam humildes. Tal como o Papa Francisco tem vindo a sugerir, a sair dos nossos habitats, dos conventos, e dos lugares fechados para irmos ao encontro das pessoas e, com a nossa presença e o nosso exemplo, tentar traze-los para o nosso seio. Talvez a melhor forma de pedir às pessoas que mudem seja através do exemplo e testemunhar com a própria vivência, que existe uma forma diferente de estar e de ser. É nisso que estou empenhado”, sublinha o padre.

 

São Nicolau

Para permitir que esta nova abordagem da Igreja tenha sucesso, Frei Claudino tem contribuído na criação de grupos de jovens cristãos preparados para irem ao encontro de outros jovens e, assim, transmitir os ensinamentos bíblicos. Tal como explica, “os padres não podem fazer nada sozinhos. Queremos e precisamos de contar com os leigos. As pessoas que fazem parte da igreja têm que tomar consciência da sua importância. A Igreja não se solidifica apenas com o sacerdote que vai dizer algumas coisas no altar. Mesmo que se esforce, o padre não consegue chegar a todos. Então, os leigos responsáveis têm que renovar a sua mentalidade e modificar a sua forma de ser, pois só assim conseguiremos os objetivos de termos uma Igreja renovada. Embora possamos correr riscos não nos podemos fechar em nós mesmos, lamentando as saudades do passado.”

A colaboração com as autoridades

A restituição dos valores morais e éticos à sociedade é uma empreitada que deverá ser encetada por todos, em especial pelos que têm responsabilidades ao nível da educação pessoal mas também familiar. Embora a Igreja seja uma dessas entidades, não é a única. O Estado e as entidades civis deverão fazer parte ativa deste movimento. Frei Claudino tem plena consciência que não é um processo fácil, “mas que só com a estreita colaboração entre Estado e sociedade, se poderá obter resultados promissores. É preciso reunir todos em torno desta causa: Governo, Polícia Nacional, educadores, professores, psicólogos e a Igreja. É necessário promover a reflexão e ter coragem para combater, de forma direta e implacável, muitos dos problemas que estão na origem da perda dos valores morais nos mais jovens. Acima de tudo, é necessário voltar a promover a família, pois ela é o pilar da sociedade”, relembra o sacerdote e adianta que, “se desistirmos de perseguir estes objetivos, estamos a promover a delinquência e a hipotecar o futuro dos nossos jovens. O momento de agir é agora. Temos que continuar a fomentar as boas práticas, os princípios morais e a investir na educação dos mais novos. A Igreja tem que continuar a valorizar a catequese como uma escola de doutrina, onde se ensina às crianças a importância da família, o que ela significa no contexto social do país e qual o nosso dever na sua promoção, preservação e unificação.”

 

Frei Claudino Teixeira Vieira

Crescer e espalhar a mensagem

Fundada em 2004, a Diocese do Mindelo, à qual pertence Frei Claudino, está em franco crescimento. Já formou diversos padres e conta atualmente com alguns formandos que, a curto prazo, deverão ser ordenados. Juntar-se-ão assim a outros que estão já no apastorado em outras freguesias de Cabo Verde. Além da Diocese do Mindelo, Cabo Verde conta ainda com a antiga Diocese de Santiago e com as comunidades religiosas dos Capuchinhos e dos Salesianos. Através da formação, estas comunidades religiosas também colaboram na vida consagrada e preparam jovens para a vida eclesiástica.

Este crescimento é, para Frei Claudino, “fundamental para a continuidade da obra espiritual em Cabo Verde”, contudo, também alerta que o crescimento deverá ser sempre feito “de forma gradual acautelando sempre a correta formação dos mais jovens, pois é a formação e as várias fases que ela envolve que trarão a maturidade e a preparação espiritual. Se tentarmos apressar a formação dos mais jovens, podemos correr o risco de não os prepararmos convenientemente e, em última análise, retrocederem nas suas vocações. É preciso que haja certezas. Não pode haver hesitações e isso requer tempo”, afirma.

 

São Nicolau


Nós Genti

Comentários

  1. Maria do Rosário Marques Diz: Dezembro 14, 2016 at 12:58 am

    Parabéns Frei Claudino! Li tudo com atenção e fiquei rendida ao seu percurso de vida já muito enriquecedor para um jovem da sua idade. Incrível! Se estivesse agora na sua presença fazia-lhe uma vênia,com todo o gosto.Assim acredito que o mundo melhore com pessoas como Frei Claudino a trabalhar para esse fim. Agradeço sinceramente pelo seu trabalho intenso, que dará bons frutos seguramente!Obrigada de coração!

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