Criar sinergias para potenciar o crescimento da Brava
12 Ago 2016

Criar sinergias para potenciar o crescimento da Brava

Orlando da Luz Vieira Balla intitula-se emigrante. Em 1961, parte à conquista do mundo e de melhores oportunidades de vida. Fixou-se primeiro em Dakar, onde ficou apenas seis meses e depois na Holanda, onde residiu durante três anos. Finalmente parte para os Estados Unidos da América, país que o acolheu durante quarenta anos. Em 2004, Orlando Balla regressa a Cabo Verde, mas só em 2010 decide voltar definitivamente. O desejo de fazer algo pela sua Ilha Brava e pelo seu povo, levam-no a entrar na política. É, atualmente, o presidente da Câmara Municipal da Brava.

Orlando Balla 

O amor que sente pela Brava e pelo seu povo levaram-no, em 2012, integrado na lista do MpD, a concorrer e a ganhar as eleições autárquicas para a presidência da Câmara da Brava. Para Orlando Balla, “esta é uma oportunidade de, com seriedade e dedicação, tentar resolver alguns dos problemas que afligem os bravenses e melhorar as suas condições de vida.”

Após 48 anos fora de Cabo Verde, primeiro na Europa e depois nos Estados Unidos da América, a perspetiva dos problemas que se sentem na Ilha Brava altera-se. Segundo o autarca, “prioriza-se a resolução de determinadas questões que, no meu entender, são vitais para o bem-estar do povo e para o desenvolvimento da comunidade, relegando para segundo plano o que não é tão urgente nem importante”. Esta visão e esta aproximação às necessidades reais do povo permitiram-lhe, após o seu regresso ao País, uma fácil integração na comunidade. “Sempre me senti bravense e, por isso, não me perturbaram as diferenças na qualidade e no modo de vida que experimentei quando regressei. Em algumas áreas até obtive melhorias: menos stress, uma vida mais saudável e mais tempo livre para as coisas que gosto e que considero importantes”, refere.

 

Ilha da Brava - Cabo Verde

 

Desde 1981 que Orlando Balla tem trabalhado na área da gestão o que, para o autarca, não é muito diferente dos desafios que agora enfrenta na liderança dos destinos da Câmara Municipal. “Estou habituado a decidir, a interagir com as pessoas e a executar, como tal, não é assim tão diferente do que já tinha feito anteriormente. A grande diferença é mesmo ao nível das mentalidades. Em Cabo Verde as pessoas colocam sempre expectativas muito altas e isso é desafiante. Depois há uma elevada percentagem de população que se sente desencorajada ou dependente e que recorre sistematicamente a apoios sociais, tornando o sistema bastante assistencialista, o que nem sempre é bom para o desenvolvimento e para as dinâmicas de crescimento que se pretendem implementar”.

Para se alterar esta mentalidade, há que atuar ao nível do Poder Central por forma a fomentar o empreendedorismo privado. “Somos um povo capaz, por isso temos obrigação de crescermos enquanto Nação. Uma pessoa que se sinta capaz, confiante e com capacidade para resolver os seus problemas sem recorrer, de forma frequente, a apoios sociais, é uma pessoa com mais-valia para o crescimento da sociedade e deverá ser elogiada e incentivada por isso. Como tal, defendo o princípio do Estado Social, mas não ao ponto de quase transformar os cidadãos em pedintes.”

 

Orlando Balla

 

O empenhamento da comunidade na cooperação e no fomento do espírito de entreajuda é, para Orlando Balla, um compromisso que deve ser incentivado, pois como diz, “sempre houveram pobres e continuarão a haver, no entanto, temos que, dentro das nossas possibilidades, ensinar a pescar e não apenas nos limitarmos a dar o peixe. É fundamental para o nosso desenvolvimento que, de uma vez por todas, acabemos com a ideia de que somos coitadinhos. Somos uma sociedade com grandes desafios materiais, financeiros e com falta de recursos, mas também somos fortes e sempre soubemos ultrapassar as dificuldades. Se todos nos empenharmos no crescimento, certamente que ultrapassaremos mais estes desafio”.

O capital humano é uma das vantagens que poderão fomentar o crescimento económico da Ilha Brava. “O Japão, à semelhança de Cabo Verde, não tem recursos naturais próprios, contudo, tem capital humano qualificado. Como tal, também nós devemos trabalhar o nossa capital humano para podermos ultrapassar as adversidades. Devemos cultivar a ideia do bem comum e não apenas dos interesses de alguns. Se juntarmos as nossas capacidades, certamente que venceremos o desafio do desenvolvimento”, sublinha o autarca.

 

Ilha da Brava - Cabo Verde

 

Apostar na cooperação privada, na presença de organizações estrangeiras e no estreitamento das relações com o Poder Central foi a estratégia que motivou o autarca a se candidatar. Se ao nível do Poder Central a estratégia tem corrido conforme planeada, o mesmo já não se pode dizer relativamente à cooperação internacional. Conforme explica, “se antigamente era possível conseguir-se financiamentos diretos junto de organizações internacionais para determinados projetos, agora essa cooperação passa toda pelo Poder Central, o que nos dificulta o acesso a esses mesmos financiamentos”, e adianta que, “por vezes, os bravenses ficam com a impressão que, mesmo as necessidades mais urgentes, apenas obtêm uma fatia muito pequena de financiamento por parte do Governo Central.”

É precisamente a falta de capacidade financeira do Município que limita a implementação de uma estratégia sustentada de desenvolvimento. “Encontrámos uma Câmara Municipal muito endividada que nos obrigou a renegociar todas as dívidas. Neste momento, o nosso custo de financiamento é superior à nossa capacidade de receita. Mesmo as poucas receitas que podemos angariar, como é o caso do Imposto Único sobre o Património (IUP), por exigência do Governo Central foi-nos cortado para metade. Todas estas dificuldades obrigam-nos a ter que redesenhar o nosso plano inicial. Espero que, dentro de dois anos, consigamos equilibrar as contas para depois podermos pensar  na criação de postos de trabalho, na criação de riqueza e no crescimento económico da ilha. Conseguindo isto, acredito que a Brava se desenvolverá de forma mais célere e sustentada”, afirma o presidente da Câmara Municipal.

 

Ilha da Brava - Cabo Verde

 

O plano de desenvolvimento da Ilha Brava passa, segundo Orlando Balla, “pela enorme capacidade que tem para se tornar um destino turístico de referência, mais vocacionado para a natureza e a cultura, o que acarreta um enorme valor acrescentado. Mas, para se atingir esse patamar, há que ultrapassar várias etapas.” Para o autarca, a Ilha Brava encontra-se num período de transição que, apesar de lento, tem de ser encarado como passageiro. “A Brava dependia da agricultura e da pecuária. Infelizmente, devido a um período de fortes secas, as pessoas perderam o interesse por essas atividades e os terrenos deixaram de ser cultivados, contudo, ainda temos a possibilidade de reverter essa situação. O mesmo se passa com as pescas que perderam a importância que outrora tiveram. Em cada setor de atividade, da agricultura à pecuária, da pesca ao turismo, passando pela cultura e pela nossa história, há oportunidades de negócio, de se criar riqueza e, com elas, criarem-se empregos e melhorar o nível de vida dos bravenses. Numa ilha com seis mil habitantes e com todo o potencial económico que encerra, apenas temos de convencer as pessoas das suas reais capacidades para ultrapassarem as dificuldades, pois o potencial existe, apenas tem de ser explorado”.

O desenvolvimento efetivo da Brava passa por criar melhores condições para a fixação de potenciais investidores, no entanto, há ainda muitas deficiências que continuam a condicionar a instalação de capitais externos à ilha, nomeadamente ao nível dos cuidados de saúde, de melhores condições de acessibilidade para pessoas e bens, de aperfeiçoar a rede rodoviária existente, assim como as relativas ao reforço dos meios de segurança existentes. Sobre estas áreas essenciais, Orlando Balla sente-se impotente, pois como afirma, “são setores que se encontram dentro das competências do Poder Central e nos quais a Câmara Municipal não tem qualquer tipo de intervenção direta, como tal, limitamo-nos a desenvolver projetos de menor dimensão que, apesar de importantes para as populações, pouco impacto trazem ao desenvolvimento global da Brava”.

 

Ilha da Brava - Cabo Verde

 

A falta de equipamentos de saúde é um dos motivos apontados pelo autarca para o baixo nível de retorno dos emigrantes à Brava. Conforme explica, “a Brava é uma ilha de emigrantes, a maior parte deles a residir nos Estados Unidos da América. Quando chegam à idade de reforma, poderiam regressar à Brava e, assim, contribuirem para o seu desenvolvimento, contudo, a falta de serviços de saúde com qualidade faz com que muitos não voltem, preferindo viver o resto dos seus dias nos países de acolhimento e, para nós, isso é mau. A título de exemplo, a Brava apenas possui duas freguesias: Nova Sintra e Nossa Senhora do Monte. Nesta última, existe apenas um posto sanitário com um enfermeiro e um médico que só dá consultas à quarta-feira. Também ao nível da segurança, apesar de não sermos uma ilha insegura, necessitávamos de reforço policial em Nossa Senhora do Monte, mas, por exigências da lei, não é permitido a construção de um posto de polícia que, obedece a um número mínimo de população que não temos. Também ao nível das acessibilidades já trouxemos uma empresa especializada para se estudar a possibilidade de termos um aeroporto. O processo foi entregue ao primeiro-ministro mas, até agora, não obtivemos qualquer resposta. São tudo situações que não dependem de nós, mas dependemos da sua existência para podermos crescer”, e termina afirmando que, “nesses casos concretos, apenas temos que provar que a Brava tem capacidades e potencialidades de ser uma ilha modelo em Cabo Verde, mas têm que nos facultar o mínimo para podermos arrancar”.

A educação tem sido uma das apostas do edil para o crescimento da ilha. Atualmente, a Câmara Municipal da Brava subsidia mensalmente quase 500 contos para que os seus jovens tenham acesso a cursos superiores. No entanto, “pouco ou nada usufruímos desse investimento, pois os nossos jovens quando terminam a sua formação no exterior e regressam à Brava não encontram trabalho, como tal, voltam a partir. Apesar de não ser um investimento perdido, pois ganha o País, podia ser melhor rentabilizado pela houvessem outras sinergias apostadas no crescimento da Brava. Por que não apostar numa universidade na Brava? O que leva a que não se impulsione a criação de um aeroporto ou um aeródromo? Por que não podemos ter um hospital aqui? Não posso aceitar que se pretenda desenvolver a Brava quando para se ter uma simples consulta médica de especialidade tenhamos que nos deslocar ao Fogo. Se a isto juntarmos a falta de transporte diário, os custos envolvidos nas deslocações e o facto de muitas vezes terem de enfrentar um mar horrível, ficamos com a impressão de que estamos entregues apenas a nós próprios. Um doente que daqui saia, mesmo que não enfrente uma doença muito grave, quando chega ao Fogo, depois de uma viagem marítima, o seu estado passa a ser grave ou de morte. É algo de inadmissível. Porque motivo tem de haver um hospital que apoie o Fogo e a Brava em simultâneo? São tudo questões que podemos colocar e que tardam em obter respostas”, lamenta o autarca.

 

Ilha da Brava - Cabo Verde

 

Para Orlando Balla, muitas das soluções para os problemas que a Ilha Brava enfrenta passam por uma maior autonomia financeira do Poder Local, onde cada município tem de ser capacitado para, posteriormente, se tornar menos dependente do Governo. “A Brava não é só um município, é também uma ilha do arquipélago com potencial de resolver os seus problemas e capacidade de criar melhores condições para o seu povo. O Governo apenas deve alavancar esse potencial e essas capacidades, responsabilizando depois os autarcas pela sua execução”, afirma.

 

Orlando Balla

Para o futuro da Ilha da Brava, o presidente da Câmara Municipal de Nova Sintra desejaria ver a Ilha Brava transformada numa referência em Cabo Verde e motivo de orgulho de todos os bravenses, quer os residentes na Brava quer os emigrados. “Temos de acreditar que, se nos unirmos em torno desta causa comum, iremos conseguir resolver os desafios que agora enfrentamos. A Brava tem oportunidades, tem potencial. Pode contribuir, de forma significativa, para o crescimento do Cabo Verde. Apenas precisamos que acreditem nas nossas capacidades”, conclui.

 

Ilha da Brava - Cabo Verde


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