Ferro Gaita — Os embaixadores do funaná
29 Jul 2016

Ferro Gaita — Os embaixadores do funaná

Os Ferro Gaita nasceram em 1996. Vivia-se na altura o renascer do funaná tradicional, em que os instrumentos eletrónicos que fizeram furor nos anos 80 começam a dar lugar aos tradicionais, num regresso às origens. Da reunião da “gaita” com o ferrinho, devidamente condimentado com a bateria e o baixo, assiste-se a uma explosão do funaná que, liderado pelo grupo Ferro Gaita, atinge patamares de sucesso nunca antes alcançados. Os Ferro Gaita conquistam rapidamente um enorme sucesso e prestigiam a nova música de Cabo Verde nos circuitos internacionais. Entra-se assim numa nova fase da música cabo-verdiana.

 

Ferro Gaita

Falar-se de funaná é falarmos das raízes da música cabo-verdiana. Na época da escravatura, os escravos domésticos tiveram os primeiros contactos com instrumentos musicais através de alguns exemplares que foram trazidos da Europa pelos patrões. Com algumas adaptações, foram dominando a sua execução. Depois havia a necessidade de marcar o ritmo. Como os instrumentos de precursão eram difíceis de arranjar, utilizavam um pedaço de metal onde, com uma faca, marcavam o ritmo e a cadência musical. Pensa-se que tenha sido assim que nasceu o funaná. Contudo, como género musical, o funaná é relativamente recente. “Badjo di Gaita” parece ter sido a sua designação inicial. Encontram-se ainda algumas referências a este género, algumas delas com mais de 60 anos, as quais o apelidavam de “Fuc Fuc”.

O funaná é um género musical que viveu durante muitos anos no meio rural, até um pouco desprezado e à parte da sociedade. Como era dos mais reprimidos pelos colonos, era dos mais vivos, acabando invariavelmente por animar as festas dos camponeses do interior da Ilha de Santiago. Conforme afirma Iduino Tavares, “o funaná é como uma música revolucionária. Como foi proibida, acabou por se tornar um hino à libertação do jugo colonial. É por isso um género de música reivindicativa.”

Este tipo de música, proibido e marginalizado durante a época colonial, apenas conhece expressão após a independência de Cabo Verde, em 1975. “Mesmo durante o regime de Partido Único que vigorou até 1992, as letras do funaná tiveram sempre uma conotação social, refletindo sobre a realidade e as dificuldades dos cabo-verdianos. Ainda hoje é assim”, afirma o músico e compositor.

Exemplo deste tipo de confrontos sociais é o tema “Bem di Fora”, magistralmente interpretado pelos Ferro Gaita, em 2006, e integrado no álbum comemorativo do 10º aniversário da formação do grupo. O tema, composto por Catchás e Jorge “Pimpa” Martins, relata a rivalidade que até hoje existe entre as pessoas que moram na cidade e as que habitam no campo. A tensão permanente entre polos distintos da sociedade não é, contudo, tema exclusivo do funaná. Outros géneros musicais, que também tiveram origem na segregação e na repressão social, tal como a tabanca e o batuque, que partilham as mesmas mensagens, variando apenas o ritmo. Aliás, durante muitos anos, quer a tabanca quer o batuque, foram géneros musicais que se impuseram ao funaná. Para Iduino Tavares, “este cenário apenas viria a ser revertido fruto do grande trabalho de pesquisa dos Bulimundo, e concretamente de Catchás que, introduzindo novas sonoridades à guitarra, fez progredir o estilo do funaná, o que contribui para o sucesso que o estilo tem hoje em dia”, refere. Foi precisamente essa nova sonoridade introduzida pelos Bulimundo que fez despertar o interesse de Estêvão “Iduino” Tavares pelo funaná.

Iduino Tavares

Estêvão “Iduino” Tavares há muito que procurava fazer renascer o funaná na sua fórmula mais simples e tradicional. Habituado a ouvir os grandes grupos eletrónicos da altura, como os Finaçon e mais tarde os Bolimundo, Iduino Tavares não partilhava da opinião de fundir as sonoridades tradicionais do funaná com as novas tendências musicais tão em voga na década de oitenta. Era preciso ir às raízes, até então adormecidas e em vias de caírem no esquecimento, e tornar a dar a importância merecida ao funaná.

Dando continuidade a alguns trabalhos de funaná que havia realizado, Iduino juntou o acordeão ao ferro acompanhados pelo ritmo forte e marcado da bateria e do baixo. Nasciam assim, em 1996, os Ferro Gaita, nome que provém dos instrumentos que dão corpo à musicalidade do funaná.

Nascido nos arredores da cidade da Praia, em Chã Cruz, o jovem Estêvão desde sempre conviveu com a música. O pai tocava acordeão o que fez despertar ainda cedo o interesse pela música. Com a partida do pai para Portugal, Estêvão acabou por ficar entregue, mais tarde, aos cuidados do padrasto, que era trompetista. O natural foi o jovem adotar esses dois instrumentos musicais e explorar novos caminhos e novas sonoridades para a música cabo-verdiana. Sempre sentiu vontade de criar e, por isso, fundou vários agrupamentos musicais, em vários estilos de música, do reggae à coladeira, do batuque ao funaná. Contudo, foi com os Ferro Gaita que obteve maior notoriedade.

Elemento fundador do agrupamento e o único ainda da formação inicial, Estêvão “Iduino” Tavares foi o grande responsável pela introdução dos instrumentos tradicionais cabo-verdianos no funaná. Juntamente com dois outros jovens músicos, forma a 22 de julho de 1996 o grupo musical Ferro Gaita. Iniciam as suas atuações em bares e em concertos de rua. O som quente e ritmado que apresentam não deixa ninguém indiferente e, menos de um ano mais tarde, estavam a atuar no consagrado Festival da Gamboa, um dos mais prestigiados festivais musicais de Cabo Verde. O sucesso foi quase instantâneo, projetando internacionalmente o grupo e Cabo Verde.

Ferro Gaita

Em junho de 1997, o grupo gravou em Roterdão, na Holanda, o seu primeiro CD intitulado “Fundu Baxu”, tendo por base o fulana e que, nesse ano, foi o disco mais vendido em Cabo Verde e nas comunidades cabo-verdianas. Seguiram-se dois anos com inúmeras atuações um pouco por todo o mundo. Em 1999, gravaram nos EUA o seu segundo álbum “Rei di Tabanka”, caracterizado por uma evidente evolução técnica e mais abrangente, incluindo temas de funaná lento, rápido e sambado, mas também o batuque e a tabanca. Foi o disco responsável pela introdução de alguns instrumentos de sopro tradicionais, como a bombona, meia bumba e cornetinha.

Nos anos seguintes o grupo edita mais dois discos. Em 2001 “Rei de Funana” agregou uma compilação de 10 músicas dos dois primeiros discos do grupo e, em 2003, “Bandera Liberdadi”. Em Outubro de 2006 o grupo gravou o CD/DVD ao vivo na Praia “Ferro Gaita ao Vivo – Finkadu na Raiz”, como forma de comemorar o seu 10º aniversário. Em 2007 foram distinguidos pelo Governo de Cabo Verde com a Medalha de Mérito Cultural e homenageados pelo ministro da cultura pelo contributo na divulgação da tradição musical nacional e pela projeção de Cabo Verde no mundo.

Aliado à mensagem e aos coros, o acordeão diatónico de Estêvão tem, no dó maior, a tonalidade que envolve toda a componente a nível melódico. A esta base, junta-se o ferro e a faca de Carlos “Bino Branco” Lopes que, de forma magistral, faz o balanço rítmico entre a voz e o acordeão, ora mais forte ora mais piano. A eles junta-se ainda a bateria de Luís “Lobo” da Veiga, as congas de Emanuel Tavares, a caneca e os búzios de Frutuoso “Pitó” Pina, o baixo de Mário “Betinho” Mendes e o trombone de varas de José “Carlitos” Vieira.

Nos dias de hoje, funaná é quase sinónimo de Ferro Gaita. Este reconhecimento é, em grande parte, devido ao contínuo trabalho desenvolvido pelo grupo, pesquisando e recuperando músicas que o tempo quase apagou, a maioria do interior de Santiago.

Ferro Gaita

Apesar desta forte componente tradicional, Estêvão “Iduino” Tavares pretende continuar a evoluir o género, misturando-o com outras raízes da música cabo-verdiana, tal como o batuque e a tabanca, fundindo-o mesmo a géneros de outras ilhas do arquipélago. Como salienta o músico, “preocupo-me muito com a origem das coisas e, no caso do funaná, a origem está no campo. No entanto, e como em tudo na vida, há evoluções. A mudança das pessoas do campo para a cidade faz parte dessa evolução, e com ela nascem novas formas de encarar a vida, de sentir os problemas e de expressar os sentimentos. Essa mudança reflete-se, invariavelmente, também na música, por isso, estou sempre aberto a novas experiências musicais, a novos arranjos e sonoridades”, revela.

Apostar na formação dos mais novos e no ensino das técnicas e dos instrumentos musicais tradicionais de Cabo Verde é outra das formas de evoluir e dar continuidade a este tão apreciado estilo musical. Para tal, os Ferro Gaita criaram já uma escola de música, garantindo a continuidade musical ao grupo, criando nas crianças e jovens o gosto pela música tradicional. É um projeto com um forte cariz social uma vez que, além da aprendizagem musical, o grupo pretende com a iniciativa retirar as crianças carenciadas da rua dando-lhes uma ocupação e inscrevendo-as no ensino. Desde a sua criação, os elementos iniciais da escola evoluíram, constituindo-se já em grupo musical: o “Gaita Ferro”. Formado por crianças e jovens dos 11 aos 25 anos, os Gaita Ferro já começaram a atuar em eventos e festivais e já gravando o seu primeiro CD/DVD. “É um projeto que nos deixa cheios de orgulho, pois além de permitir que as crianças mais carenciadas tenham acesso à aprendizagem da nossa música tradicional, é também uma forma de darmos continuidade ao nosso trabalho. Não temos em Cabo Verde uma escola de acordeão diatónico que defina como se toca. Mesmoa nível mundial é um instrumento que está quase esquecido. Além disso, existe a particularidade de, para o funaná, a tonalidade do acordeão ser modificada aqui em Cabo Verde para atingir o som pretendido. Por isso o funaná de Cabo Verde é quase impossível de replicar, é por isso importante que, o conhecimento seja passado para as gerações mais novas”, afirma Iduino Tavares.

Ferro Gaita

Formar, em parceria com o Ministério da Cultura uma escola institucional para o ensino da música é outro dos projetos em curso dos Ferro Gaita. “A formação e o conhecimento é a base para o desenvolvimento, e na música não é diferente. Com o trabalho sério que temos vindo a desenvolver, primeiro com a divulgação do género musical e agora com os projetos educativos, estou confiante que, haverá neste momento pessoas capazes de dar continuidade aos Ferro Gaita como dignos representantes da música de Cabo Verde e da nossa cultura tradicional”.

A curto prazo fica a promessa do lançamento de mais um trabalho videográfico e discográfico que, além de temas inéditos, contará também com doze videoclips e um documentário que narrará a história deste mítico grupo musical de Cabo Verde.

Com muito trabalho e dedicação, os Ferro Gaita encabeçam um grupo de músicos e artistas nacionais empenhados em levar aos quatro cantos do mundo a música tradicional de Cabo Verde. Fazem o seu trabalho com orgulho e conscientes que não é apenas alegria que dão a quem os ouve, mas que dão também cultura e que representam um país que neles se revê.<

 


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