Adécia Pires – Investir nas crianças é garantir o futuro de todos nós
04 Abr 2015

Adécia Pires – Investir nas crianças é garantir o futuro de todos nós

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A vontade de ajudar os outros, em especial as crianças mais desprotegidas e vulneráveis, tem sido o mote de vida de Adécia Pires. Mulher empreendedora, a presidente da Fundação Infância Feliz (FIF) conta já com um grande historial de ações de solidariedade social no país. Estender as áreas de atuação, otimizar recursos e processos e captar novos parceiros para os programas e projetos da Fundação, são os novos desafios a que se propõe. A completar doze anos de existência, a Fundação Infância Feliz continua a ser uma referência nacional e internacional para as áreas da educação, cultura e desporto, contribuindo significativamente para a realização dos direitos humanos das crianças e adolescentes em situação de risco.

Adécia Pires é uma mulher feliz e realizada. Fruto da educação que os seus pais lhe deram, desde muito nova teve a possibilidade de ser uma mulher autónoma e empreendedora. Natural do interior da Ilha de Santiago, Adécia Pires passou toda a juventude na Guiné-Bissau, junto com as três irmãs e os seus pais que aí se encontravam destacados como enfermeiros. O desporto foi uma paixão que a acompanhou desde sempre. Praticou basquetebol, ténis, natação e, juntamente com os militares portugueses da aviação que estavam estacionados na Guiné, fez o curso de paraquedismo. Dos quinze saltos necessários para completar o curso, Adécia realizou dezassete! As suas excelentes aptidões físicas levaram-na a mudar-se para Lisboa para completar o curso de Educação Física.

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Com o 25 de Abril de 1974 em Portugal, Adécia foi viver para Paris. Aí conheceu os primeiros militantes do PAICV que a convidaram a integrar a luta de libertação nacional. Aceitou sem hesitações e foi colaborar numa escola na Guiné Conacri, onde trabalhou com crianças e jovens. O gosto pelo ensino ficou-lhe para sempre. Após a independência de Cabo Verde, Adécia Pires voltou ao seu país natal onde viria a conhecer e mais tarde a casar com o seu marido, Pedro Verona Pires.

Na altura, como professora, deparava-se com as dificuldades que os pais sentiam quando acabavam as aulas e não tinham onde colocar as crianças por forma a lhes ocupar os tempos livres. Teve então a ideia de criar uma organização que permitisse a estas crianças explorarem as suas aptidões culturais e desportivas. Nascia assim a Organização “Os Pioneiros de Abel Djassi”, o seu primeiro projeto na área social em Cabo Verde e responsável pelo lançamento cultural e desportivo de muitos e talentosos jovens.

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Durante dez anos, Adécia Pires dedicou-se em exclusivo à organização, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento de centenas de jovens que, fruto dos programas da instituição, aprenderam a se auto valorizar e a potenciarem as suas aptidões naturais para o desporto, cultura e artes. Contudo, com a introdução de várias alterações ao nível dos modelos de financiamento de organizações de cariz social em Cabo Verde, a organização vê-se privada de muitos dos seus mecenas e teve de fechar portas. Adécia Pires voltou ao ensino e continuou a sua carreira profissional como professora de liceu em Santiago.

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Em 2001, com a eleição do marido para Presidente da República de Cabo Verde e respondendo a um apelo das Nações Unidas para que os chefes de Estado criassem condições à salvaguarda dos direitos das crianças, Adécia Pires vê renascer a possibilidade de recomeçar o trabalho anteriormente desenvolvido. Sensível à exclusão e à pobreza, Adécia Pires criava assim, a 31 de maio de 2002, a Fundação Infância Feliz (FIF), uma organização social vocacionada para atender as necessidades das camadas mais carenciadas da população infantil e juvenil proporcionando-lhes um desenvolvimento saudável e uma integração estruturante e condigna na sociedade.

Há já doze anos que a FIF contribui para o desenvolvimento e felicidade das crianças cabo-verdianas. Afetividade, atenção, diálogo permanente e alguns recursos mínimos essenciais ao bem-estar das crianças é a fórmula para os resultados encorajadores que têm sido alcançados pela organização. O objeto de intervenção da Fundação são os jovens com idade compreendida entre os 3 e os 19 anos, razão pela qual contempla ainda os seus núcleos familiares, na sua composição e recursos, priorizando aqueles que se encontram em situação de risco e oriundos de ambientes pobres e desfavorecidos. A mulher constitui o outro público-alvo da FIF. Mulheres membros de famílias monoparentais e em situação socioeconómica vulnerável têm assim sido apoiadas pela organização. Através destes apoios, a FIF pretende que as crianças se desenvolvam em ambientes familiares saudáveis e equilibrados que, em última análise, contribuem para o bom desenvolvimento da sua personalidade e a sua efetiva socialização.

A gestão da FIF assenta em cinco eixos: organização, administração e gestão de projetos; educação e formação; informação e cultura; marketing e produção; cooperação, parcerias, relações internas e externas. Coordenar e organizar toda esta estrutura nem sempre é fácil. Atualmente a FIF conta com quarenta e cinco colaboradores a tempo inteiro, mas quando realiza ações pontuais, este número aumenta consideravelmente.

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Na área educacional, a FIF possui um complexo escolar que leciona do pré-escolar ao secundário. Uma das grandes conquistas deste projeto é o facto de ter conseguido reintegrar crianças que, por falta de recursos financeiros, já tinham desistido de estudar no ensino público. Para Adécia Pires, 2014 será um marco no programa de ensino da FIF pois, pela primeira vez, os alunos que frequentam a instituição desde o sexto ano, farão a sua festa de finalistas que, para quem tinha desistido de estudar, é motivo de grande orgulho. Para os jovens que, pela localização, não podem frequentar o complexo de ensino, a FIF contribui com o pagamento das propinas, transporte, materiais e uniformes escolares, o que permite que estes jovens integrem e frequentem o ensino público. Esta ajuda diária na educação contempla quase a totalidade dos municípios num total de mais de novecentas crianças.

No setor da alfabetização, a Fundação Infância Feliz tem dado oportunidade a centenas de mães de aprenderem a ler e a escrever. Paralelamente à alfabetização, a FIF tem apostado na formação socioprofissional de dezenas de mães chefes de família em áreas como o corte e costura, cabeleireiro e manipulação de alimentos.

Para além do ensino, a FIF desenvolve ainda ações de apoio a crianças hospitalizadas. Há quatro anos que a Fundação, de forma regular e nos grandes centros hospitalares, distribui cadeiras de rodas a deficientes, colchões, materiais de carpintarias, contentores de material hospitalar e prendas de Natal às crianças desfavorecidas. Fazem também parte das atividades da Fundação projetos pontuais, de duração não superior a seis meses, os quais reforçam a educação cívica dos jovens e abordam temáticas que assumem cada vez mais importância na sociedade, tais como o alcoolismo, a violência, as drogas e o HIV/SIDA. A FIF, em colaboração com o Ministério da Educação, que disponibiliza professores licenciados e com formação pedagógica, trabalha estas temáticas esclarecendo as dúvidas dos mais jovens e alertando-os para os comportamentos de risco e as melhores formas de os evitar.

Na reafirmação do exercício dos direitos das crianças, a FIF tem desenvolvido, de forma continuada, atividades socioculturais e desportivas como forma de promover talentos no seio da camada infantil. Organiza o concurso Pequenos Cantores e Bailarinos, que já vai na sua 11ª edição e que, através do qual pretende aproximar todas as comunidades e associações das várias ilhas do arquipélago e da diáspora.

Oferecer presentes de Natal a crianças que nunca tiverem um brinquedo é outra das iniciativas da FIF. Através da angariação de fundos, Adécia Pires consegue envolver a sociedade civil, empresas privadas, membros das várias representações diplomáticas presentes em Cabo Verde e particulares nesta louvável iniciativa que, este ano, completará a sua 12ª edição.

Apesar do muito trabalho desenvolvido, Adécia Pires pretende, para os próximos anos, reforçar a intervenção da FIF através da melhoria da organização interna e externa, centralizando as suas ações nas áreas da saúde, educação e infraestruturas.

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Na área da saúde, a FIF pretende continuar a apoiar crianças infetadas e afetadas pelo HIV/SIDA e deficientes. Dar especial destaque aos programas de saúde escolar, educação sexual e mental dos adolescentes é outro dos objetivos da Fundação.

Para a educação, a FIF prevê reforçar a sua intervenção por forma a reduzir ainda mais as taxas de reprovação e abandono escolar. O apoio continuado a crianças carenciadas do pré-escolar é outra das atividades a ser reforçada pelo organismo. A educação cívica dos jovens será também ela reforçada, assim como a luta contra o analfabetismo de retorno no seio dos adolescentes e das mulheres. A orientação e formação profissionais constituem outros domínios de intervenção.

Ao nível das infraestruturas, para além da beneficiação das já existentes, pretende construir jardins infantis rurais, parques infantis, lavandarias comunitárias e algumas casas de banho como complemento das infraestruturas escolares.

No entanto, a presidente da Fundação lamenta que, nestes doze anos de atividade a organização ainda não tenha atingido a tão desejável autonomia financeira. Face aos crescentes desafios, as parcerias têm sido a principal fonte de financiamento da FIF. Através de parcerias estratégicas nacionais e internacionais, a Fundação tem conseguido dar resposta a todas as solicitações que, todos os dias, são apresentadas. A cooperação entre a FIF e entidades singulares e instituições, tais como Fundações nacionais e internacionais, empresas, institutos, bancos, ONG e comunidades emigradas, têm contribuído para aumentar a dinâmica interna da organização, promovendo a melhoria dos seus serviços e criando oportunidades que têm possibilitado o alargamento da rede de proteção a beneficiários ao nível da infância, adolescência e juventude.

Para o futuro, Adécia Pires tem o sonho de poder construir um novo Complexo Escolar propriedade da Fundação. Apesar de a Fundação Infância Feliz já possuir terreno e projeto para o seu desenvolvimento, falta o financiamento da construção. Cabo Verde não é imune à crise financeira mundial, e muitos dos projetos que estavam previstos pela Fundação, tiveram que ser adiados. A construção do Complexo Escolar da FIF é um destes projetos que aguarda oportunidade de execução. Apesar das dificuldades, Adécia Pires sente-se realizada com o trabalho desenvolvido. Ajudar os que mais necessitam, em especial as crianças e os jovens é, para a presidente da Fundação Infância Feliz, motivo de orgulho e empenho pois são elas os alicerces da sociedade. Continuar as ações de apoio aos três níveis de ensino, inovar nas estratégias de envolvimento da família e da comunidade na educação das crianças e promover inovações na oferta educativa são os desafios futuros da FIF.

De 2002 a 2013, a FIF já apoiou mais de 14 mil beneficiários. A credibilidade, a transparência nas ações e o contributo que tem prestado à sociedade fazem dela uma instituição de sucesso no panorama nacional e internacional, tendo inclusive sido eleita como a melhor organização da sociedade civil a operar em Cabo Verde.


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