Ilha do Sal – Uma viagem pela história
31 Mai 2013

Ilha do Sal – Uma viagem pela história

Texto: Germano de Almeida
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A ilha do Sal parece ter sido descoberta em 1460 por António da Nola. Por causa da enorme planície que se via do mar e que muito contrastava com as ilhas já descobertas, Nola começou por dar-lhe o nome de ilha Lana ou Chã. Mas depressa modificaria aquela primeira designação, ao explorar a salina natural de Pedra de Lume. É que ele nunca tinha visto tanta abundância de sal acumulado, comparado, só com o gelo nos Alpes, disse admirado, que todos os navios do mundo que ali chegassem poderiam carregar à sua vontade e mesmo assim o sal nunca acabaria.

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Era de facto tão abundante e natural que a única conclusão a que Nola chegou foi que aquele sal se fazia a si mesmo «dentro daquela lagoa, caldeira, ou bacia de seis braças de profundidade, aberta pela natureza na chapada de um monte de 39,6 metros de altura acima do nível do mar, coalhando-se em sal a água das chuvas, que cai no centro, onde querem alguns que haja um olho de água salgada, que tempera a das chuvas». Até ao século XVIII a ilha do Sal foi pouco conhecida e visitada. Um aventureiro francês de nome Dampier diz que ali esteve em 1683. Mas confessa que prestou mais atenção a uns perturbantes flamingos que por lá havia do que aos habitantes, na verdade uns cinco ou seis homens e um pobre feitor com quem trocou cerca de 20 barricas de sal por algumas roupas velhas. Já o seu companheiro, o capitão Cowley, foi mais atento, registou ter visto na ilha quatro funcionários e um rapaz, incluindo um feitor mulato. Eram todos negros, escreveu ele, mas se alguém lhes chamasse pretos ficavam furiosos, dizendo que eram portugueses brancos.

De todo o modo, por volta do ano de 1720 a ilha já estava se não habitada, pelo menos com algumas pessoas. Assim o atesta o capitão George Roberts no livro que escreveu sobre a sua viagem às ilhas Canárias, Cabo Verde e Barbados: «Chegámos de manhã à ilha do Sal e fui à terra na baleeira com seis homens armados, na baía chamada Palmeira, para ver o que ali havia. Ao chegar à terra, encontrámos algumas cabanas que estavam em bom estado e, pela erva que estava dentro delas, parecia que gente havia ali estado recentemente, talvez para apanhar tartarugas na última estação delas, ou homens dum navio encalhado ou lá deixados por qualquer outro acidente, como por exemplo, piratas. Depois de ter ido um pouco mais longe em direcção às palmeiras, encontrei duas lareiras que, pelas cinzas recentes, pareciam ter servido havia pouco tempo. Alguns montões de espinhas de peixes existentes junto das lareiras estavam húmidos no interior, como vi remexendo-os. Tudo isto confirmou a minha opinião que havia gente na ilha. Eu desejava ter a certeza disto, por isso dividi os meus homens em dois grupos e andámos procurando para baixo e para cima da ilha, porém sem encontrar uma criatura humana. Vimos grande número de pássaros do campo, burros, etc. …»

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3- Ilha do Sal - NG

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No ano de 1808 a ilha do Sal começou a ser visitada por alguns habitantes da Boa Vista que passaram a servir-se dela como campo de pastagem do seu gado, ali guardado por escravos. Até que por volta de 1830 o empresário e conselheiro Manuel António Martins, homem empreendedor que tinha aportado à Boa Vista por via de um naufrágio e progrediu tanto que até chegou a ser governador de Cabo Verde nos anos 1834-1835, decidiu explorar a salina natural encontrada por Nola situada no monte que já se chamava de Pedra Lume, «por causa das pederneiras ou sílex que ali aparecem».

Para facilitar o escoamento do sal, Martins imaginou e levou a cabo a construção de um túnel perfurando o monte de um lado a outro. Porém, o sal natural dali extraído não era infelizmente de uma grande qualidade. Para tentar remediar as coisas Martins mandou ali mesmo preparar marinas artificiais, mas mesmo essas não melhoraram substancialmente o apuro do sal que ele desejava exportar. E, conforme descreve Désiré Bonnaffoux, ele acabou por desanimar de conseguir elevar o sal das salinas de Pedra de Lume porque, não obstante o túnel laboriosamente conquistado à rocha basáltica, continuava com dificuldades de conseguir transpor a ladeira da cratera ainda bastante funda. E nesse entretanto calhou que em 1833 alguém descobriu por mero acaso que o terreno próximo da povoação de Santa Maria produzia um belíssimo sal, o tal sal que Martins buscava.

Comprovado o facto, logo Martins abandonou as salinas de Pedra de Lume, que aliás viriam a ser aforadas ao seu filho Aniceto António Ferreira Martins em Abril de 1846, e apressou-se a ir buscar familiares seus e outras gentes à ilha da Boa Vista para empregar no fabrico do sal, «ocupando, por conta própria, grande parte do terreno salífero, que começou a trabalhar, reconhecendo desde logo a importância desta nova exploração». Inicialmente o sal era morosamente carregado em sacos. Para facilitar o seu transporte, em 1836 Martins importou da Inglaterra e fez assentar o primeiro caminho-de-ferro que existiu em território português e ligou a salina ao lugar do embarque do sal, com a novidade de as vagonetas serem puxadas por mulas ou então accionadas pelo vento através de velas desfraldadas.

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Nessa época a ilha do Sal fazia parte do concelho da Boa Vista. No entanto, a exploração e exportação do sal, especialmente para o Brasil e América do Norte, fez o Governo ordenar em 1837 a instalação na ilha de uma alfândega e de um governo militar. Porém, é bom dizer que essas medidas administrativas são em grande parte atribuídas à má vontade do governador Pereira Marinho para com o conselheiro Martins, seu inimigo declarado na questão do povoamento de São Vicente, e que procedia no Sal como se a ilha lhe pertencesse de direito. E de facto, em 1839 o conselheiro acaba por pedir à Coroa o aforamento «por si e por seus correspondentes em Lisboa, Matheus da Silva Louro e José da Silva, 2 léguas e meia quadradas de terreno e areais em diversos pontos da ilha, compreendendo os que já lhe estavam na posse», escreve Botelho da Costa em 1882 em comunicação à Sociedade de Geografia de Lisboa, ainda que seja verdade que o Decreto de 29 de Dezembro de 1839 refere apenas duas léguas de areais.

Por essa altura Martins não estava nas boas graças do poder, certamente que também por causa do seu pouco claro comportamento durante a revolta do batalhão de açorianos. E embora Pereira Marinho tivesse muita vontade de o enfadar, a verdade é que parecia que todos temiam a sua influência. Razão por que o deferimento da concessão por ele solicitada foi rodeado de especiais condições, sendo uma delas o compromisso de nunca, enquanto ela durasse, nenhum membro da família Martins, seus agentes ou empregados se envolverem, directa ou indirectamente, em questões políticas ou de partido que pudessem agitar o país, sob pena de, a solicitação do Governo, serem de imediato despedidos do seu serviço.

Graças a essa concessão a ilha do Sal começou a crescer em população e em 1840 já tinha cerca de 400 habitantes, ainda que na maioria escravos. Em 1855 viria a ser administrativamente separada da Boa Vista, ficando a partir dessa data a ser governada por um administrador e uma comissão municipal. Já exportava por ano cerca de seis mil moios de sal, mas nada produzia para consumo das suas gentes pelo que, tal como a Boa Vista, importava do estrangeiro, principalmente da América, todas as mercadorias e utensílios de que necessitava. De todo o modo, em 1856 achou-se oportuno criar na ilha uma Câmara Municipal para substituir a Comissão Municipal.

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O Sal tem povoações como Palmeira e Pedra de Lume, mas sem dúvida que as mais importantes são Santa Maria e Espargos. A vila de Santa Maria é incontestavelmente uma criação do conselheiro Manuel António Martins. Basta dizer que quando ele ali chegou o lugar de tal modo não tinha nada, que funcionava como capela a câmara de uma galera que tinha naufragado e dado à costa, até que em 1857 se deu início à construção da igreja.

A odisseia do conselheiro Martins que, para além da criação de gado em São Vicente, conseguiu explorar grandes interesses nas ilhas da Boa Vista, Brava e Santo Antão, e deixou uma descendência onde se contam cabo-verdianos de grande ilustração e valor, encontra-se saborosamente descrita no livro O Senhor das Ilhas da escritora Maria Isabel Barreno: desde o seu naufrágio até ao casamento com uma das filhas do capitão-mor Aniceto António Ferreira, passando por uma ida aos Estados Unidos onde trocou um carregamento de sal por desmontáveis casas de madeira com as quais viria a dar início à povoação que ele quis com o nome de Porto Martins, mas que se perpetuou como sendo de Santa Maria.

Nos intervalos das suas múltiplas actividades, como por exemplo a mui importante que foi «o encanamento da água da nascente do Monte Agarro à então vila da Praia, capital da província, obra que, para o tempo em que foi feita, podia chamar-se de real», diz Botelho da Costa na comunicação já referida, fabricava mulatos com as suas muitas escravas, tendo deixado deles um número bastante avultado. De modo que, para se conhecer a Boa Vista e o Sal de antanho, nada melhor que, e aconselha-se vivamente, a deliciosa companhia da Isabel Barreno. Só é pena que ela não tenha continuado a escrever a saga da família de Manuel António Martins, mas agora preferivelmente através da viúva Maria Josefa Martins. Da leitura de Barreno se deduz que Maria Josefa era uma bem-comportada menina de família que se casou por amor, ainda que com alguma amargura gostasse de se gabar de nunca ter tido a pretensão de ser dona do destino do marido. Porém, aquando da morte deste em 1845, não só decidiu sozinha onde enterrá-lo, isto é, no Sal, como ela mesma se mudou da Boa Vista para essa ilha para tomar conta dos negócios da família, tendo ficado à frente da sociedade que foi criada com a designação de M. A. Martins.

O nome de Maria Josefa Martins viria a ficar fortemente ensombrado com a suspeita de ter sido a instigadora de uma um tanto sangrenta revolta contra o comandante militar da ilha acontecida na noite de 21 de Maio de 1847. Isso porque, como logo se provou, essa revolta tinha sido exclusivamente levada a cabo por escravos e jornaleiros da sua casa, e ninguém acreditou que eles tivessem interesse directo na deposição do homem, muito ao contrário dos Martins em geral, e dela própria em particular, que se consideravam prejudicados por determinadas medidas tomadas pelo Governo e que directamente atacavam os seus interesses, como por exemplo a proibição do curso da moeda de bronze falsa, conhecida por patacos que, segundo Sena Barcelos, a voz pública acusava essa família de ser a introdutora de grande quantidade na ilha.

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Mas com ou sem o beneplácito da viúva, o certo é que pelas sete horas da noite do dia 21 de Maio, uma multidão de escravos e jornaleiros livres pertencentes à casa Martins, armados de paus, pedras e outras armas, atacaram o quartel militar, prenderam o comandante, o primeiro-tenente Joaquim Maria Gromicho Couceiro, e apossaram-se de duas peças de artilharia com as quais arrombaram a Casa da Alfândega para a saquear, depois de terem pilhado a residência do comandante militar que só por um triz escapou de ser morto, salvo in extremis graças à intervenção do filho da viúva Martins, João António Martins.

Sem dúvida, pois, que Isabel Barreno perdeu esta estória fabulosa que vamos tentar acompanhar seguindo as notícias publicadas em diversos números do Boletim Oficial de 1847 e também com uma ou outra ajuda de Sena Barcelos — afinal das contas a nossa ideia é fazer uma viagem à história das ilhas.

A revolta do Sal não começou à toa. Tinha sido precedida de boatos mais ou menos con-vincentes no sentido de que tinha havido uma rebelião militar na ilha de Santiago, da qual resultara a morte do secretário do Governo, assassinado a sangue-frio. O govemador-geral, na altura o brigadeiro José Miguel de Noronha, a coberto da noite e cheio de medo, tinha conseguido fugir para a ilha do Maio onde no momento se encontrava refugiado. Mas não só: igualmente em Santo Antão houvera outro levantamento de idênticas características, só que desta vez exclusivamente promovido pelos filhos e parentes da viúva Martins que se sentiam atingidos por determinadas disposições do Governo que afectavam os interesses da família.

E assim fortalecidos por todos esses convincentes boatos, os amotinados, levando à frente o regedor da paróquia, o juiz e também o encarregado da Alfândega, em tumulto e aos gritos de Viva o povo! Viva o povo!, dirigiram-se para o quartel, onde o comandante se achava entrincheirado com apenas cinco soldados, e atacaram o edifício. Não obstante a briosa resistência oposta pelos militares, os revoltosos acabaram por entrar no quartel e tomar conta das duas peças de artilharia.

Mas a tropa não tinha cedido sem luta e da refrega resultaram quatro feridos de bala entre os tumultuosos, sendo dois da casa da viúva Martins, um da do seu genro, o tenente-coronel Joaquim Pereira da Silva, e o quarto um jornaleiro livre mas empregado na casa da viúva.

Consumada a vitória, os revoltosos começaram por escolher um novo comandante mili-tar e nomearam para o lugar o senhor António de Sousa Machado. Este, porém, avisadamente declinou o convite, alegando que a sua qualidade de vice-cônsul do Brasil, cuja bandeira aliás logo hasteou na sua casa, não lhe permitia aceitar tal cargo. Então, dirigiram-se para a casa de um tal Teófilo Lima, que era não só sargento do corpo de segunda linha como também caixeiro da casa da viúva Martins, o qual aceitou a função e assumiu o comando.

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Foi a questão do tratamento dos feridos que mais depressa denunciou a revolta do Sal. É que no dia da sedição o médico não se encontrava na ilha, pelo que os atingidos tiveram que ser levados para a Boa Vista onde chegaram no dia 25 de Maio. E logo no dia seguinte já estava a notícia na Praia, com o governador a receber a comunicação oficial da rebelião.

Para o brigadeiro Noronha ficou evidente que aquilo não era senão um manejo para fazer recair o comando militar do Sal na pessoa do tenente-coronel Joaquim Pereira da Silva, genro da viúva Martins, que não só o ambicionava como inutilmente tinha posto meio mundo a importunar o governador com solicitações a respeito: «Certos indivíduos, mal contentes com a posição que as leis lhes assinalam, e que há sete anos o Governo da Província se esforçava em lhes assegurar, tendo-os primeiramente arrancado de uma situação incómoda e excepcional, atribuíram talvez a fraqueza o que era uma cega obediência às mesmas Leis, e julgando a ocasião oportuna quiseram conquistar uma posição impossível, sobranceira às Leis, e constituir-se perseguidores dos seus concidadãos, começando por monopolizar os cargos mais importantes de sua localidade, para conseguir o que esgotaram todos os recursos. Derrotados em suas esperanças pela imparcialidade do Governo, que não cedeu a disparatadas pretensões, recorreram aos meios violentos, como se por estes pudessem conseguir os seus fins…»

Assim, de imediato o Governador fez reunir o conselho do Governo e decidiu sem mais delongas mandar suspender todas as garantias individuais, tanto na ilha do Sal como em Santo Antão, por espaço de trinta dias, e de seguida ordenou a ida para o Sal de um destacamento de 20 praças, sob o comando do capitão José Paulo Machado, um oficial da sua confiança, tendo reunido na pessoa do capitão tanto as funções de comandante militar como as de administrador do concelho que antes eram exercidas pelo regedor revoltado.

Pelas informações chegadas através do encarregado da recebedoria particular da ilha que tinha conseguido fugir, sabia-se estar o quartel militar inabitável, sem portas, sem janelas e sem telhado. Assim, o governador ordenou ainda que toda essa força fosse aboletada nas casas dos habitantes da ilha, lembrando ao capitão que devia preferir a casa da viúva Martins, dada a sua qualidade de principal culpada daqueles acontecimentos.

O novo comandante levava instruções no sentido de não só proceder à busca e apreen-são de todas as espingardas e munições e armas brancas que se sabia existirem em casa da viúva Martins, sem contar com as duas peças de artilharia em poder dos amotinados, como também logo mandar prender determinadas pessoas, entre elas o tenente-coronel Joaquim Pereira da Silva e João António Martins, secretário da Comissão Mista para a abolição da escravatura, para além, evidentemente, do nomeado chefe dos rebeldes, Teófilo Lima, «por serem estes, por actos ou factos sobre quem recaíam maior número de suspeitas de terem sido autores ou cúmplices principais do motim». Ao mesmo tempo o governador ordenava estreita vigilância sobre o primeiro-tenente Vicente António Martins que, não obstante encontrar-se na Boa Vista na data dos motins, se admitia ser de facto o cabecilha da revolta.

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Antes de chegar ao Sal o capitão Machado desembarcou na Boa Vista onde, para além dos 20 soldados, incorporou no seu séquito o juiz do julgado das ilhas da Boa Vista e Sal e o subdelegado do procurador régio, também o escrivão e um oficial de diligências, e de facto as acções de retaliação do poder não se fizeram esperar. Com efeito, recorrendo ao contrato de aforamento de 1839, o Governo exigiu da viúva o imediato cumprimento da cláusula que proibia os Martins, agentes e empregados de se envolverem em questões políticas ou de partido que pudessem agitar o país, isto é, que fosse imediatamente despedido do serviço daquela casa o dito Teófilo Lima e todos os jornaleiros e quaisquer outros empregados, livres ou libertos, que tivessem tomado parte no motim e os que posteriormente se viessem a conhecer como cúmplices. E pedia que fossem entregues à Justiça todos os escravos que tivessem tomado parte no mesmo motim, para que se pudesse proceder contra eles como fosse de razão. Quanto aos restantes membros da família Martins que não deveriam ser presos, foram dadas ordens terminantes no sentido de que enquanto durassem os procedimentos judiciários não se consentisse que nenhum deles, a começar pela viúva e a acabar nos caixeiros da casa, saísse da ilha do Sal para qualquer outra do arquipélago. E finalmente concluía o ofício do governador ao capitão com este parágrafo amável: «não lhe recomendo toda a urbanidade com as pessoas do sexo feminino, pertencentes à dita família ou a quaisquer outras, porque sei que seria uma recomendação desnecessária para um oficial português, que pelo seu cavalheirismo sabe perfeitamente aliar a deferência que se deve ao sexo frágil com a restrita obediência às ordens superiores». E de facto assim se cumpriu.

Receava-se que o levantamento tivesse proporções mais exageradas, tanto mais que calhava que tinha havido uma denúncia no sentido de uma escuna de nome Tarrafal ter ido à Gambia, por conta dos Martins, comprar armamento com vista à realização de um motim com carácter político na ilha de Santo Antão. Assim, o governador igualmente encarregou o comandante de, logo que o navio chegasse ao Sal, acompanhar os empregados da Alfândega na sua visita a bordo, ordenando uma rigorosa pesquisa. E caso encontrasse ali armamento, deveria imediatamente prender tanto o proprietário do navio como o capitão, acusando-os do crime de contrabando de guerra, caso esse em que a Alfândega deveria proceder à apreensão da escuna pelas formas estabelecidas nas Leis.

É de crer que aquele mês de Junho tenha sido de muita azáfama, porque logo a 5 de Julho seguinte o capitão Machado informava o governador não só de já haver sossego na ilha do Sal como também que tinham sido pronunciadas 16 pessoas, todas da casa da viúva Martins, entre elas o seu filho, o primeiro-tenente Vicente António Martins. Como refere Sena Barcelos, essas lamentáveis ocorrências só serviram para tornar tristemente lembrado o nome de Manuel António Martins falecido em 1845 e cujas cinzas portanto ainda estavam quentes. De todo o modo, esse caso infeliz viria a marcar o início da decadência da família Martins e consequentemente da ilha desenvolvida à sua sombra, o que em 1855 levou o administrador Botelho a considerá-la como um vasto morgadio em mãos que dele não curam. E como se não bastasse o retrocesso em que a ilha estava a entrar, em Maio de 1856 foi atacada pelo escorbuto com tal intensidade que a mortandade que começou a provocar fez com que grande parte da sua população fugisse para outras ilhas, muitos deles para São Vicente como, por exemplo, as famílias Vera-Cruz e Sousa Machado. No final da doença, das cerca de 1500 pessoas a população estava reduzida a apenas 700.

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Caídos em desgraça política e já economicamente depauperados, os herdeiros de Manuel António Martins começaram por associar-se em 1850 ao comendador António de Sousa Machado, genro do defunto e deputado às Cortes, dando origem à firma M. A. Martins & Sousa, sociedade que viria a ser judicialmente dissolvida em 1860. Em 1869 dois netos de Manuel Martins, os doutores António e João de Sousa Machado, criaram a firma Machado e Irmãos, responsável pela edificação do bonito escritório de madeira sobre a ponte pertencente à família e também por eles reconstruída. Entretanto punha-se termo ao monopólio de exportação do sal pelos irmãos Machado, entrando também em serviço a firma Vera Cruz & C.a da propriedade do marido de uma das netas do conselheiro Martins. E foi nesse tempo que se descobriu sal em diversas partes da América Latina, o que fez com que a indústria da ilha decaísse consideravelmente por volta de 1884, tanto mais que o Brasil, um dos maiores consumidores do sal cabo-verdiano, tinha acabado por estabelecer pautas proteccionistas como forma de desenvolver indústria similar no país.

De acordo com os apontamentos de Désiré Bonnaffoux, os herdeiros de Aniceto António Ferreira Martins acabaram por vender as suas explorações de Pedra de Lume a dois comerciantes, mas que também não tiveram melhor sorte na sua rentabilização. Razão por que estes igualmente viriam a vendê-las em 1919 à sociedade Salins du Cap Vert que iniciou uma intensiva exploração do sal, destinado à exportação para as colónias francesas e belgas da África.

Sem dúvida que essa nova exploração foi de extrema importância porque não só deu um novo alento à ilha, com a chegada de trabalhadores de Santo Antão, São Nicolau e Boa Vista, como também de algum modo serviu para descongestionar Mindelo cujo porto nessa altura já estava em plena decadência, e com uma grande massa trabalhadora desempregada e faminta.

Désiré Bonnaffoux, um culto e atento filho da ilha do Sal, não obstante a ascendência e o nome franceses, deixou uma preciosa descrição desse período intensivo: foi preciso construir alojamentos para duas centenas de trabalhadores, artífices, empregados e suas famílias, providenciar assistência sanitária, cantina, abastecimento de água potável, uma flotilha de lanchas e doca para as abrigar e carregar, oficinas mecânicas e carpintaria, uma central eléctrica, maquinaria para peneirar e pulverizar o sal… E também, invenção das invenções, um teleférico de 1100 metros de comprimento que transportava 25 toneladas de sal por hora desde as salinas de Pedra de Lume até ao cais de embarque, vencendo desse modo o que anos atrás tinha sido o calcanhar de Aquiles de Manuel António Martins na sua luta contra a cratera, a saber, conseguir dali elevar o sal.

Mas tudo isso implicando evidentemente grandes investimentos que deveriam ter como contrapartida a exportação de dezenas de milhares de toneladas de sal por ano. O que infelizmente não se verificava, pois que já havia muito sal espalhado pelo mundo. Pelo que a ilha continuou quase no seu ramerrame, à espera de melhores dias. Que começariam a chegar com a instalação do aeroporto na localidade de Espargos, um planalto quase vazio que tirava o seu nome do facto de no tempo das chuvas ali nascerem grandes quantidades de espargo bravo.

Espargos surge cerca de cem anos depois de Santa Maria, já no tempo da alta tecnologia, quando São Vicente como escala obrigatória dos vapores rumo ao sul é já coisa do passado. É por isso que a elite sanvicentina da época exerce junto dos poderes públicos uma forte pressão no sentido de essa benfeitoria ser instalada na sua ilha, argumentando que de qualquer modo São Vicente já tinha uma longa tradição de prestação de serviços e a mudança de marítimo para aéreo não seria assim tão complicado. Porém inutilmente.

Vale a pena, no entanto, ficarmos com uma ideia de como Cabo Verde acabou entrando na escala da aviação, e para isso ninguém melhor que Désiré Bonnaffoux: ele nos conduzirá nessa jornada. Antes, porém, antecipemos um pouco a nossa própria chegada a São Vicente para fazermos uma breve incursão ao dia 6 de Abril de 1922, data em que a Câmara Municipal daquela ilha se reuniu em sessão solene para, em nome do povo, homenagear os distintos aviadores, capitão-de-mar-e-guerra Gago Coutinho e capitão-tenente Sacadura Cabral, que a bordo do hidroavião Lusitânia se achavam na ilha em trânsito para o Brasil na primeira travessia aérea transcontinental.

São Vicente não só tinha consciência da importância desse feito como também lutava desesperadamente para não perder por completo o lugar que conquistara como ponto de escala entre os diversos continentes, pelo que fez questão de receber os heróis portugueses com grandes e calorosas manifestações de júbilo. Haveriam, no entanto, de passar mais três anos antes que um outro hidroavião, desta vez pertencente a um industrial de São Paulo e conduzido por uma tripulação brasileira, em viagem da Europa para o Brasil, voltasse a fazer escala em Cabo Verde, desta vez em Santiago. No mesmo ano um outro hidroavião, alemão e do tipo gigante, faria escala na Praia.

Não obstante a nossa reconhecida posição estratégica, a primeira companhia de navegação aérea a instalar-se nas ilhas de Cabo Verde seria a francesa Aéropostale, nos anos de 1926-1927. Os aviões dessa companhia já faziam a linha Tolouse-Casablanca-Dakar e agora ela pretendia efectuar, com hidroaviões, a ligação postal Dakar-Brasil.

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Ora, nem os hidroaviões nem os aviões tinham autonomia para um raio de acção tão grande, pelo que se tornava necessária uma escala intermédia em Cabo Verde. O Governo impôs Santiago, e a instalação acabou sendo feita na Calheta de São Martinho, a cerca de sete quilómetros da capital. Porém, diz-se que a tentativa resultou mal e mesmo um hidroavião se terá perdido, ainda que seja verdade que o aviador americano Charles Lindbergh tenha ali amarado com pleno sucesso em 27 de Novembro de 1933. O certo é que a Aéropostale acabou desistindo dos hidroaviões para passar a apostar nos aviões, escolhendo então para local de aterragem a Achada Grande, junto à cidade da Praia. Mas entretanto o raio de acção dos aviões foi rapidamente aumentando, permitindo assim o voo Dakar-Natal sem necessidade de fazer qualquer escala. E não se voltaria a falar em aviação em Cabo Verde, pelo menos até aos anos 1935-1936, quando algumas missões italianas fizeram diversas visitas às ilhas, com vista à escolha de um local para a implantação de um aeródromo destinado à escala de uma linha que propunham estabelecer entre a Itália e a América do Sul. Depois de avaliar algumas ilhas, nomeadamente a Boa Vista, acabariam por mais especialmente se interessar pela ilha do Sal, e passados três anos, mais propriamente a 13 de Agosto de 1939, desembarcaria o material destinado ao início das obras de construção do aeroporto: oficinas, central eléctrica, um posto de rádio, camiões… e também dirigentes, técnicos e operários que em menos de meia dúzia de meses montaram as edificações prefabricadas, prepararam uma pista, ainda que de terra batida, e instalaram diversos serviços: dois hangares para os aviões, oficina, rádio, meteorologia, armazéns, escritórios, hotel, locais de habitação, hospital — tudo isso numa planura na qual seis meses antes nem sequer havia um caminho de cabras…

No entanto, essa linha Roma-América do Sul apenas funcionaria até à entrada da Itália na guerra, em Maio de 1940, portanto só durante três ou quatro meses. Depois disso o aeroporto ficou imobilizado por todo o tempo que durou o conflito, findo o qual o governo português comprou a instalação ao governo italiano, introduziu-lhe melhoramentos consideráveis, como a construção de uma pista asfaltada de 2200 metros, e procedeu à inauguração do realmente novo aeroporto no dia 15 de Maio de 1949, tendo como primeiro e principal cliente precisamente a linha italiana Alitalia.

Não obstante, durante muitos anos o Sal manteve-se apenas como um aeroporto perdido na desolação de um deserto castanho e confrangedor, um simples local de passagem a que a brevidade das escalas não proporcionava a indução de qualquer outro tipo de desenvolvimento.

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Porém, a independência nacional não traria apenas a mudança de nome do aeroporto. Trouxe também a necessidade de se prestar uma maior atenção ao local que aos poucos foi sendo conhecido dos estrangeiros e rapidamente se começou a assistir a uma mudança na paisagem da ilha, especialmente depois do chamado processo de extroversão económica e inserção de Cabo Verde na economia mundial, o que acabou levando o Sal a entrar na senda do turismo onde já navega de velas desfraldadas sobre grandes complexos hoteleiros, esperemos que rumo a bons portos.


Nós Genti

Comentários

  1. Euriza Carrilho Diz: Junho 16, 2014 at 12:23 pm

    Apesar de já conhecer um pouco da história do Sal, através do livro “Senhor das Ilhas” de Maria Isabel Barrento, fiquei mais rica com esse artigo. Obrigada pela partilha de conhecimentos. Bem haja.

  2. João da Mata da Cruz de Pina Diz: Junho 16, 2014 at 8:01 am

    Hestoria bonita,com muitos sofrimentos,mas com um final feliz.

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